Sobre a Filosofia que É (a que serve para alguma coisa)

Este texto foi extraído de um post do Facebook do Elas do Avesso, mas gostei tanto dele que achei por bem publicá-lo.

O discurso começa com uma conversa que tive no caminho para casa, logo após o funeral do meu avô. Uma miúda perguntava-me se o que eu fazia não era Filosofia misturada com Psicologia (quem me conhece sabe que eu não gostava nada de Psicologia… lia os autores e tudo me soava a uma tentativa de engavetar humanos em paredes de comportamento). E diz assim:

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Para o meu avô

Deixo-te com as rosas e que voes com as aves. Seria uma maneira eugeniana de te dizer adeus. Mas tu não o leste. Tu não leste nada e soubeste amar cada pedaço do que eu escrevi. Nunca ninguém me amou tanto ou amou de forma tão abnegada e desinteressada tudo o que criei. Nesta forma aqui, em que te choro agora, em que aperto as lágrimas e fico vermelha em frente ao teu caixão… Onde pessoas me ignoram, outras olham com admiração e falta de perdão também.

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De um corpo no mundo

Dói-me tudo como no início, aperta-me o peito e eu só não sei de onde isto vem. Tentei tantos antídotos… todos, eu acredito… mas nenhum resultou como o amor e as palavras. Ontem aconteceu-me amar sem palavras… amar, comover-me com o mundo sem que quisesse as palavras… foi como viver, pela primeira vez, acima delas, das palavras… sabia que não iam chegar para eu dizer o que sentia… e também não me apeteceu correr atrás delas… foi como… se correr, se intelectualizar isto, eu vou perder isto, então mais vale Viver do que ser inteligente, do que colocar rótulos e predicados bonitos nas coisas… acordei com o peito a doer… ainda dói… mas vivo bem com ele… não me quero desfazer dele… em vez disso, sirvo-me dele… pergunto-lhe o que quer que eu escreva… e ele escreve… o que quer que eu ouça, e ele fala… acho que há dores de milhares de vidas em mim, mas, pela primeira vez, não tenho medo… quero vivê-las, saber quem são, o que são em mim, por que vieram… Continue reading

Se eu sou imortal

Às vezes, eu acho que quero uma desculpa para a dor no telemóvel… uma voz que me salve… falamos tão mal do além e não percebemos que é, de facto, o além, não esse, mas este da frase, que nos magoa… que nos engana… que nos manda para outro sítio qualquer, longe da paz, um lugar que não é nosso.

E se eu fosse imortal? E se eu sou imortal, por que escolho ver-me sob a folha volátil do corpo que adoece e que morre? Por que escolho ver-me como eu não sou, se o que eu sou é infinitamente melhor, mais bonito, mais potente e mesmo o superlativo de “mais” mente, porque não chega? E se eu fosse quem sou?

Se eu fosse imortal o que faria?

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Clipsera (Narciso, Platão e Pocahontas)

(…)

O que foi Narciso? O que foi? Espera aí… não me digas que ainda choras por causa dos Humanos…

Sim, os humanos são maus… levaram só uma ponta da história… agora tenho vergonha de mim…

Clipsera pensava… Narciso ia muito além do mito da paixão por si próprio, de só se ver a si próprio… a doença de nos identificarmos com um corpo, uma espécie de território mental que temos de proteger, levava-o à vergonha de si próprio, ao desejo de se esconder, de não querer ser visto, à sensação de desunião e de indignidade… como se os humanos fossem gozar com ele… Narciso temia a humilhação… que é o que teme o ego… a falta de aprovação dos outros ao ponto de se fazer sentir indigno, abaixo do que deveria ser e representar… Clipsera tinha de lhe mostrar que isso era insensato…

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Clipsera (início de um romance)

(…)

Abriu a porta… era uma porta normal, com a maçaneta gasta, baça pelos milénios… Deus não lhe dava para arranjar aquilo… tinha muito que fazer e, a bem dizer, a porta funcionava, abria quando queriam, entrar e Clipsera entrou.

(…)

… tinham asas e davam-lhe a mão e, às vezes, abraços. Clipsera, nesse dia, pediu para ir a outras galáxias… e viu um género de pessoas… verdes, não sabe… ou da cor humana, mas com formas diferentes… de nariz que era a boca e coisas assim, que agora não conseguia precisar – Clipsera não podia lembrar-se de tudo. Mas lembrava-se do mar… daquele mar… lilás, brilhante… imenso, cor de gelado de verão… tudo era cor de verão… as borboletas e os pássaros (esses não mudavam nas galáxias, ou Clipsera não sabia vê-los de outra forma) – seria o super-guerreiro lilás deste planeta? Pois que o mar era da cor da sua ausência de pele… não sabia. Poderia perguntar-lhe, quando ele voltasse… mas ele não era de muitas conversas… rachou o céu e só lhe disse uma frase, recordava-se.

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Do medo

O meu maior medo é o de morrer sem saber quem sou. Já quis dinheiro, já quis fama… Às vezes, ainda me iludo… Mas sei que a única empresa que não posso falhar é a de conhecer-me. A de saber o génio que me veio habitar, que vai viver para sempre, além do corpo. É disso que tenho medo,  de não o conhecer.

P. S. Sei que estão habituados a algo mais longo… Mas estou a ler e surgiu-me isto… Temi que não fosse perceber depois o que escrevi, que tão-pouco fosse continuar o texto… Já perdi tanta mensagem assim, que preferi colocá-la aqui. 🤗 

Um beijo, 

Márcia 

#reflexoes

#elasdoavesso

👠 💄 📿 ✍️ 

Sarabande em Dó

Dor de mim (…) que me corrói.

O que importa que me olhem? Talvez importe o momento em que me doem a Sarabande, Handel e tudo o que já não é verdade.

Tenho saudades de mim, íssima, íssima saudade, em intertextualidade perdoada com Pessoa. Solidão de mim, quando já só importa Ser. Só eu. E eu não digo. Não sei dizer Amor… e onde está a riqueza do mundo? A verdade cósmica que me dói?… que me adia… me manda para as mesas dos restaurantes, mas sozinha… e eu… profundamente eu comigo. As extraordinárias perguntas que se repetem chegam sempre a este chão agora… onde me engulo… onde sei que só a Verdade me pode salvar. Onde estou? De onde vim? Por que sou? Porquê eu? Porquê aqui? Morro-me aos poucos, sempre mais um bocadinho. Morro para compreender. Quem sou? Por que sou? Doem-me as certezas e tudo o que já não é. Continue reading

2017, acabaste-me Veneza e o Carnaval Todo

É a primeira vez que me sento para me dar conta; que paro, de taça apontada, como se de uma espada se tratasse, ou troféu de alma – mas ela não precisa disso. Pouso a espada, olho em volta …  e paro. Parar é olhar.

Olho para tudo o que me aconteceu… o meu livro, que é o livro do Universo todo, que o meu nome, desta vez, assina. E eu já não acho honra vã, nem condeno – aquele ato humano, mau, formidavelmente mau de julgar a criação manifestada -, nem lisonja sem merecimento. A verdade é que eu mereço para C. Tudo. Tudo de bom que É e tudo de bom que há por vir. Eu mereço. Fiz muitas escolhas despedidas de um eu, comprometidas com o Todo, se isso não for algo próximo do Amor à Humanidade, eu não sei o que é. É uma escolha que já não sucumbe a medos, mesmo que eles lá estejam… que já não seleciona o confortável como opção. Não há conforto na Verdade. A Verdade não serve para ser confortável, nem quer saber disso para nada. A Verdade não precisa de sofás. Precisa de mim e de nós todos, empenhados a Ser. Continue reading