A Escola é Uma Campainha

A escola é uma quantidade enorme de campainhas de fora que nos ensurdecem as campainhas de dentro. De pequenos, somos ensinamos a ir porque nos chamam… de pequenos, somos habituados a acreditar que o que está fora nos controla. Não me venham dizer que é preciso termos limites e rédeas, os limites e as rédeas surgiram, quando deixamos de saber educar para criarmos um ego em cada um de nós… é ele que precisa de controlo, porque não é natural. A nossa natureza é perfeitamente harmoniosa… quando a campainha toca, ensino a criança que ela não é livre, que precisa de deixar de estar a fazer o que ama, porque a campainha tocou. A escola é uma grande seca. A escola é balouços abandonados e bebedouros vazios… uma sapatilha que não anda nos pés, arrasta os cotovelos. A escola cria Frankensteins em stilettos. A escola, a escola é uma grande seca. E quando a mim, se não puder fazer mais nada, pelo menos, “mudo-a” do lado de fora, com textos, encontros e olhos nas estradas. A escola é um samba para destruir… mas a escola também pode ser samba para construir. É lá que eu quero estar… no samba, nos tambores, no dissonoro, no que não faz sentido, no avesso das coisas… se falhar, falhei… se não for isto, não seja… mas, pelo menos, tentei… tentei que aquela campainha não tocasse para lhe dizer que ela não é livre… tentei que ela soubesse que tem em si todas as possibilidades do mundo… que a escola é um joanete e que ela tem joaninhas nos pés. Pies para que te quiero se tengo alas para volar.

Frida Kahlo

Frida Kahlo

(Já sei que somos Um e que não adianta mudar fora… já sei que é a mim que aquela campainha dói… já sei a metafísica toda… mas, agora, só por agora… deixem-me viver em paz, ó sábios da minha mente)

A Sereia e o Tango

Dizem que devo divertir-me… sair. Que faço eu se sou feliz aqui?… rodeada de livros, a descobrir pintores – Sarah Afonso… Ó Deus meu, Sarah Afonso… escrevo como quem fala, mas… não sei… gosto de estar aqui… de manta, de computador no colo, rabo preso no sofá… não tenho nada para dizer… a não ser a constatação de que sou feliz… de que a energia transborda… e de que sim, a felicidade é possível… é pena, ou é o que é, que precise de cair na treva para me lembrar de quem sou… arte, literatura, pensamento livre… pergunto-me – eles sabem – como vou viver. A pergunta não é nova. As soluções Deles devem ser. As “minhas” seriam as mesmas… gosto tanto de livros… de ver TV… de documentários… e descobri que gosto de Tango… Oh… meu Deus, Tango! Ainda não dancei, mas só de ver na TV e ouvir a música, delicio-me… acho que me trará a liberdade de que preciso… a liberdade de ser mulher… de me lançar nos braços de um homem adulto, desconhecido e dançar, deixar-me guiar por ele… talvez aí aprenda um pouco mais – e com diversão, posso crer – sobre a submissão da vida… princípio feminino a ser fecundado… é assim que vejo o tango… uma mulher, os passos de uma mulher, pronta a ser fecundada pela vida, guiada, doce, leve, mas amada… não é uma submissão infligida… não é uma prisão… é um doce enledo[1] de canto sem música… ou de música sem canto, nos pés… ai… pudesse tudo ser como é no tango… lirismo absoluto de ser uma só com a peça masculina… é assim que vejo Deus… algo que me fecunda, me fertiliza… me guia… me adoça os pés e a mente… me liberta… canta para mim e dança… pega nos meus braços e me conduz. Às vezes, acho que tenho uma imagem demasiado sexista ou sexual ou mesmo sensual de Deus… não é isso… apesar de também ter encontrado com Deus o caráter sagrado do sexo… ou, pelo menos, o estar a procurar… mas não é por acaso, não pode ser…foram já duas teofanias – God Bless Theophanies, Please – e a sensação é a mesma… boooom de coisas… a mesma sensação de todos os relacionamentos – paternal, maternal, amor, infantil, terreno, carnal – num só. É uma verdadeira wow … para quê que eu preciso do mundo? É, basicamente, esperar, sentir e esperar novamente para vir ao mundo… já tentei, da segunda vez, viver como uma pessoa normal aquando de uma teofania e não dá… é simplesmente blooming my head. À parte disso, não sei viver… estou a recomeçar… gosto de TV, do canal 2, dos livros, da Poesia e do meu amor por Deus e pela vida. Da devoção, que muito rapidamente se torna beatice, e de Amor… adoro o Amor. Descobri-o na escuridão absoluta. E Ele ficou. Continue reading

Dos Gigantes Que Voam

Às vezes, é preciso dar um grande “que se lixe à vida”. É preciso ir com ela, ir para onde ela manda. Às vezes, é preciso deixar ir, deixar ir embora, não ficar mais onde não é o nosso lugar. Não sei para onde vou, nem como vou… mas sei que quero ir. Escrevo frenética, como um apelo de verdade em mim. Sei a verdade. Eu vou. Agora eu vou. Qual anã, gigante. Não sei ser sem ser gigante. Não sei. Morro-me aos pedaços por ser pequena. É a hora.

#ElasDoAvesso

Conheço esses olhos

Olho os textos, os meus olhos brilham. Sorrio. Sei a verdade. Ela veio.

Conheço esses olhos. Sei quem Ela é. [Sei que Ele veio. Volta sempre, quando olho os textos e sorrio. Esta sou eu, prazer, na forma. Nua, sem sangramento. Feliz.]

Quero a liberdade de deixar tudo o que me pesa, tudo o que eu já não sou. Já não tenho o direito de estar aqui. Não sou nada aqui. arrasto. Tento o melhor que posso. Mas cedo aos textos e às coisas das revistas como um homem cede a uma mulher. Não é novo. É repetido. Não aguento a asfixia. Quero sair. Quero voar, meu Pai. Se me deixares, quero voar. Continue reading

Quem Me Dera (Começar do Zero)

Ai… Quem me dera ser quem eu sou

Perder o brilho no mar

E desaparecer

Quem me dera ser quem era

Quem eu nunca deixei de ser

Esta mulher que escreve sem hesitação

Feroz e humilde na palavra

Altiva e submissa no que diz

Quem me dera ser sibilante como eu sou

Ser sem dúvida doenças

Sem mágoas do passado

Sem coração que doa

Quem me dera

Ainda sou aquela menina

Ainda sinto em mim

É só voltar a escrever ou a falar sobre as condições da vida

As condições para ser feliz

É só voltar

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Reflexões I – Modelos Educativos

Ontem lia um artigo nada relacionado com educação – mas o que não nos educa ou deseduca? Estamos constantemente a ser bombardeados por informação que nos molda ou nos inspira/expande. Surgiu a frase de Oscar Wilde – “Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria apenas existe”. E surgiu-me a reflexão de… se eu fosse professora de Filosofia, colocaria esta frase e perguntaria ou pediria para comentarem sobre esta mente que existe com o cogito de Descartes, na medida em que “Eu penso, logo existo” nos situa na mente da personalidade, que se identifica com o que faz, nomeadamente o que pensa – nem sempre pensamos as melhores coisas – para existir.

Há dias comentava com um aluno sobre o atentado às mesquitas… se o senhor que cometeu o atentado não se identificasse com os seus pensamentos, soubesse que não é os seus pensamentos e as suas crenças, com certeza, não iria fazer o que fez; iria, antes, investigar as crenças ou, melhor ainda, conectar-se com a Mente superior – mente do estado meditativo, absolutamente fundido com o agora, é um estado de presença ativa sem pensamentos separados… por exemplo, quando dançamos, quando fazemos algo que expressa profundamente a nossa alma e nos sentimos vivos… essa é a nossa natureza verdadeira, a que está no agora, perfeitamente alinhada com tudo… o que pensa e o que é agora são o mesmo e trazem felicidade, alegria cósmica, pelo sentido de verdade que trazem. É o estado da criança – a criança brinca feliz e não indaga sobre o que vai fazer depois nem julga o que faz agora. Está num estado de plena pureza e inocência, ainda não maculado pelo sistema. Então, se não nos identificamos com a mente que pensa, que está condicionada – fazendo n e n relações de causa e efeito do passado projetadas no futuro, relações essas tantas vezes falsas e, portanto, se projetadas no futuro, gerarão decisões também elas desalinhadas com o fluxo de verdade cósmica. Continue reading

As Palavras in “Poesia de Cordel”

As palavras? As palavras não me devem nada. Devo-lhes tudo, o mar e o renascimento. Devo-lhes eu, ser a ponte entre mim e Deus. As palavras. Não as sirvo, fundo – me nelas, elas agregam-me como parte do ser. Não sou poetisa, as palavras são-me. Um dia, morrerei. Elas ficarão e poderei viver nelas, nas palavras que me deixam ser. Nunca eu. Só elas, onde eu desapareço. Experiência de luz, de Deus, iluminação? Nas palavras. Desapareço para ser maior do que eu. Não há perda, há ganho ao desistir de mim, sem desistir de nada. Quando Elas chegam, já fui absorvida. Ou elas chegam, porque fui absorvida. Não fiz nada, só me deixei sofrer com honra. Sentir a dor, deixar que o buraco me mostre o meu caminho. E elas vêm, as palavras.

in “Poesia de Cordel”

#ElasDoAvesso

As Palavras in “Poesia de Cordel”

Começar do Zero

0. Começar.

Começar do zero. Diz a televisão e eu acredito. Esta frase persegue-me desde o início do ano. Não confio em nada externo a mim. Os meus pensamentos de ataque, os meus pensamentos sobranceiros e as opiniões face ao que está “fora” de mim. Resta-me confiar no coração e não o confundir com o desejo.

O desejo de ser livre e de confundir a liberdade num prato qualquer que sei ser eu a comer.

(O meu prato come-se largo

E a queimar

O meu prato sou eu

Nua e sangrar

Pendurada para o céu

Nas cordas a voar

Eu

Só Eu

Eu só

Quem me dera)

#ElasDoAvesso