Os pássaros

Gosto de conservar a capacidade de ouvir os pássaros. Mais do que os carros. Mais do que a cidade. Os pássaros. Os pássaros lembram-nos do que somos feitos. Lembram-nos do que andamos cá a fazer. Ou deviam.

Gosto de parar a olhar para as nuvens. Mais do que os sinais e do que as luzes da rua. Gosto quando elas se impõem aos meus olhos. Gosto de andar e perceber que, às vezes, as nuvens andam muito rápido. Ou, então, que são os meus olhos. Gosto de estar atenta. De ver que me falta o coração nas nuvens, quando não as vejo a andar. Porque as nuvens andam sempre.

Gosto de parar e olhar para as flores. Olho para os lados e certifico-me de que ninguém me está a ver, para lhes tocar. Afinal, porquê que uma flor nos haveria de parar? Se estamos na rua é porque temos alguma coisa para fazer… Trabalhar, apanhar o metro, ir ao ginásio, ir para as aulas… Só os doidos saem para não fazer coisa nenhuma. “Vais sair?”, “Vou”, “Onde vais?, “Não sei. Por aí.”. Quando, e se dizemos isto a alguém, acham que estamos tristes… Porque o “arejar” é um postigo numa sala fechada… é só quando precisamos. Ficamos à espera de estar tristes para darmos tempo a nós próprios. E aqui, sim… Doidos, não?

Bom, mas eu falava de flores ainda há pouco. Às vezes demoro o passo e perco o metro para olhar as flores. E isto muda o meu dia… a cor dos meus olhos, pelo menos. Às vezes, vejo flores de roxo luxuriante, pela primeira vez, num caminho que faço há uns anos… E as flores, parece-me, já estão lá há algum tempo. São grandes, vivas e metem-me no sítio… A Terra tem esse dom de nos meter no sítio… Essa coisa de contemplarmos e vermos como somos parte, ainda que maravilhosa, ínfima e pequenina do grande milagre que acorda connosco todos os dias. A Terra. Mas fico contente. Fico contente, porque percebo que quando desperto, a Terra beija-me. E depois, quando não vejo flores é porque ando a pensar muito e a deixar a mente brincar ao futuro e ao esquadrinhar das coisas… Não é especialidade nossa vaticinar, analisar a realidade… acreditem, nós somos péssimos a fazer isso de “analisar”. “Analisar” implica imparcialidade e ausência de juízo… Nós adoramos “achar”, mesmo quando não percebemos nada do assunto. O que é que eu percebo do Amanhã, dos novos trabalhos que aí vêm e dos amores que eu ainda não vi? Nada. Absolutamente nada. O que nos sobra é o coração e os olhos dele.

A mente serve para criar, para escrever, para desenhar, para compor, para calcular (a matemática, não é a vida), com o coração no leme. Sim, porque há coração no cálculo dos matemáticos… os líricos é que têm a mania de que só eles conhecem o lado esquerdo do peito. Há, pois, muita criatividade na arte de calcular… Porquê que 2+2=4? Quem disse que se conta de um em um? E que 4 é 4 e não se chama 5? E que 1+1=2?

A criatividade está nos homens. Nos homens que metem o coração no leme das coisas.

Mas eu comecei a falar de pássaros…

#ElasDoAvesso

#ElasDasVidas

birds2elasdoavesso

 

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