O Amor

O amor vai por aí… o meu, o deles, o dela… o amor… ora devagar, ora depressa e em contramão.

Disse-te que eras um leão, mas não és. Os leões descansam depois de comer a presa, quando já pouco sobra do que jaz. Tu… tu abandonas a presa antes, muito antes do mundo que ela te queria dar. Sucumbes aos puzzles egóicos. “Amas” quando não tens. Amas quando percebes que sou inexpugnavelmente minha e que, de quando em vez, me partilho contigo. Amas quando sabes que não vou voltar, que não vou mais dar-me às nomenclaturas sociais que as pessoas esquadrinharam para, ilusoriamente, se sentirem seguras. Amas-me libertina. Amas-me como o arco-íris que sou, que depende… do tempo que me apetece fazer. Quando cedo aos nomes sociais e aos estados – como se os “estados” fossem estáveis… hahahaha… “Estar” é mutável, desde logo, no verbo -, promoves-me a sombra no sofá, a cobertor e hollywood, a ausência de perguntas… Deixas de me perguntar o que é que quero ser… Ainda te lembras de me fazer perguntas?

“Mas o que é que queres afinal? Só te ouço falar de dinheiro… Mas… e quê? Tu gostas mesmo disso? Já não te ouço a falar do que gostas”… Eras tu que, às vezes, à mesa e ao vinho, me abanavas… me resgatavas do encaracolamento soberbo que eu fazia na carreira… No que me disseram que isso era – a carreira -… Fazias-me mandar tudo à merda… E ajudavas-me. Acima de tudo, tu ajudavas-me a voltar a mim. E eu, envergonhada e enternecida, porque sempre lidei mal com o facto de que soubessem mais do que eu, agradecia-te.

Isso enquanto tu deixavas os teus talheres por “fechar” no prato. Isso irritava-me. E dizia-te, “olha, quando acabas de comer, os talheres ficam apontados na direção das 15h00, ok?”.

E tu, com o teu ar de quem se está a cagar para tudo, desafiavas-me, “Mas o que é que isso interessa?”. E tinhas razão. Aquilo não interessava para absolutamente nada. Como também não interessava que pedisses um café antes do almoço porque não tinhas dormido a noite toda – tinhas trabalhado umas 14 horas antes de vir ao meu encontro -, mas estavas ali, de fato, lindo, sexy, esfíngico e viril, só para me acompanhares num casamento, onde eu não teria ninguém com quem conversar… Mas eu preocupei-me com o facto de pedires um café antes do almoço… preocupei-me com o facto de que podias dizer palavrões ou coisas impróprias para aquela gente muito “importante”…

No fim desse dia, chegamos a casa e tu sentaste-me na secretária e deitaste montes de tralha ao chão – não, nesse momento não me preocupei com as asneiras que poderias fazer -.

E eu, eu passava a vida a olhar para o boneco… para o que não interessava, de facto. As pessoas nunca percebiam o fascínio que eu tinha por ti. Porque eram parvas como eu. Tu acordavas-me. Costumavas dizer-me que “Também só te ajudo a ver as coisas más”. Não, ajudavas-me a ver as coisas más em mim. As coisas que eu tinha para melhorar. O filtro que eu tinha e que, aos poucos, ia tirando… Ajudavas-me a limpar os olhos.

Bom, mas eu estava a falar mal de ti…

Quando sabes que não sou tua, dizes às minhas amigas, já meio bêbado – tu és uma vergonha para beber – que, desde que me viste, só queres “aquele queixinho”. Eu, quando te ouvi, gostei, mas depois fiquei a pensar… será que o meu queixo é grande? E imaginei aqueles queixos de bruxa ou de criança feia nos livros da escola primária – não sei como são agora… mas, na década de 90, os desenhos das crianças nos manuais escolares eram um convite a casas assombradas -.

Quando sabes que não sou tua, danças comigo. Quando sabes que não sou tua, arrancas-me do alcool e do sono… duas horas depois de me deitar… quando a cabeça ainda dói… quando o corpo está entre o letárgico e o cadavérico. Descobres-me vida nas ancas, agarras-me, encostas-me a ti e fazes-me respirar pelo peito. Quando sabes que não sou tua, fodes-me com o vigor de um animal e com o algodão doce dos teus dedos. Há qualquer coisa de etéreo nos teus dedos.

Já te disse que quando deixo de ser tua, vejo cores? Já te disse o nosso sexo tem cores? E que, quando te beijo, vejo verde? Que sinto relâmpagos nas coxas? Imagino que um relâmpago seja como o que sinto…

Já te disse que amar é não precisar de ter?

elasdoavesso4

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