Os dias tristes

Os dias tristes são especiais. Como as músicas tristes, que têm sons que choram, mas que são bonitas, porque trazem emoção de pessoas nas pautas.

Os dias tristes são iguais. São para os ouvirmos, para os recebermos, para nos sentarmos nas soleiras, nos passeios, nas pedras e olhar… ver a banda passar. São para chorarmos com eles, se for preciso e até se não for. Porque chorar é tão importante como rir.

Os dias tristes são para falarmos connosco e também para nos calarmos. Para os ouvirmos e para fazermos ouvidos moucos ao mundo. São a criança que todos temos ainda dentro de nós a puxar-nos pela roupa e pelo braço, a pedirem atenção, sem nos dizerem o que querem. Como as crianças que não nos dizem o que querem e só nos puxam pelo braço, os dias são chatos. Chateiam, irritam… São os sonhos a gritarem connosco. As vontades que nós abandonámos, porque não eram convenientes no tempo… Conveniente é tão “socialzinho”… Porque a vida pediu, porque não era o momento, porque não dava jeito, porque não tínhamos coragem… sobretudo, porque não sabíamos que eram mesmo sonhos.

Não sabíamos que os sonhos não passam. Esperam por nós para nos pedirem contas… Porque eles, ao contrário de nós, têm amor por nós, têm calma connosco… e sabem que nós ainda não somos suficientemente Grandes para os abraçar (somos, mas ainda não olhamos bem para o nosso tamanho).

Os dias tristes fazem-nos chorar porque sim. Porque foi a conversa do metro, porque foram os olhos da velha, porque foi o reflexo no rio, porque o céu estava muito azul, porque as árvores tinham verdes diferentes, porque a Serra do Pilar estava mais bonita… Os dias tristes incomodam. São como os alfinetes que saem sabe-se lá de onde, quando fazemos bainhas nas roupas – nas roupas que não nos serviram, mas que nós achamos que, com uns remendos, resolvíamos o assunto -.

São os alfinetes dos remendos que queremos fazer à vida.

Podem ser também dores de barriga… Eu, quando fico assim, digo que é como se tivesse “um prisma dentro de mim a mexer-se”. Como formas cúbicas mal acabadas, vértices por resolver. E não há nada a fazer para além de nos sentarmos na rua e perguntar-lhes, aos alfinetes ou aos prismas “o que é que foi?”, “Fiz-te algum mal?” ou, se quisermos ser amigos “Como é que te posso fazer feliz?”… E deixamos o dia Ser… Ser triste, à sua maneira. É, então, que descobrimos, entre outras coisas, porque a criança é chata e não diz tudo de uma vez, que nos abandonámos, que fizemos “mute” aos gritos dos sonhos. Porque, como os pesadelos, os sonhos também nos arrancam do sono. Do sono de não fazer, de ser assim-assim. Do sono de seguir a norma e de fazer tudo igual e sem barulho. Do sono de manter tudo sossegado.

Mas os sonhos gritam muito.Puxam-nos o cabelo, com as mãos que vêm não sabemos de onde. Reivindicam-nos. Exigem que olhemos para eles de frente e atiram-nos “Como é?”, “Vais continuar a fazer de conta?”.

Os dias tristes não são mais do que sonhos, vontades que fomos calando com a justificação dos dias, do tempo, da idade, do emprego e da falta dele, do dinheiro… um dia, do namorado, do marido, dos filhos, das varizes e da sopa ao lume… de qualquer coisa que nos sirva de desculpa para não sermos felizes. Porque ser feliz dá trabalho e implica mandar coisas à merda também. 🙂

#ElasDoAvesso, hoje particularmente. 😉

#ElasDasVidas

alfinete elas do avesso

Imagem: http://designdealfinete.blogspot.pt/p/alfinete-por-que.html

 

 

 

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