Escrever

(achava eu que ia escrever sobre Escrever)

Escrever é devolver-me a mim. (É ter de me impôr limites até – não podes escrever mais, olha que há uma vida prática a cuidar lá fora). É este sorriso que acompanha um olhar meio de neurose, meio de entrega ao frenesim dos dedos… É este ter de respirar mais fundo, enquanto me preparo para contar uma história. Que hoje, nem é história nenhuma… e podia ficar aqui a enrolar-vos o tempo que me apetecesse… mas vamos lá… porque vocês não têm tempo. E eu também não. 🙂

Vamos começar, outra vez. Do início. Escrever devolve-me a mim. Escrever é fazer as pazes comigo. É uma viagem de regresso a mim. É deixar o ruído de lá de fora a acontecer. Lá fora. E é ouvir o silêncio de mim. O silêncio que fala, que revela, que me mostra. É que o silêncio também conta coisas.

Escrever é pôr tudo em ordem. É dar ordem ao caos, ou ao nada, que precisamos para escrever.

A inspiração acontece nos extremos. No deslumbramento onde acontece o Nada  e na dor que acontece no Tudo.

É isso que acorda a alma. Nunca se escreve no assim-assim. No assim-assim, estamos no trabalho… no café (às vezes, nem sempre)… no banco, no cartório, na loja do cidadão (haverá local mais insípido e desalmado que uma loja do cidadão? Olhem só o nome… “loja do cidadão”… Se não estivesse a escrever sobre coisas sérias e bonitas, soltava já um palavrão), nos atos cívicos…

O civismo é uma grande seca. Não se escreve enquanto somos cívicos… Não há crivo criativo possível no ato de preencher uma certidão… de nos pôr num documento em números… Isso não é escrever. É por isso que nunca percebi os casamentos… mas isso fica para outra vez. Ou, então, quando dizemos “sim, sim. Parece-me ótimo.” ao patrão. Bom, essas situações somos nós… a representar papéis. A representar “normalidade”. E aí perdemo-nos. A sociedade, o “direitinho”, os “inhos” são hediondos, suprimem-nos a humanidade.

É por isso que gosto de ficar a olhar as coisas… o rio, a chuva, os cães e os gatos da rua… Que gosto de ir ao ginásio… acertar contas com o que não saiu; lutar com as máquinas e abrir os poros, para deixar lá tudo o que não me faz falta. Costumo dizer também que o ginásio me devolve a humanidade. Saio sempre melhor pessoa do ginásio. Saio sempre com os olhos renovados. Por isso gosto tanto de olhar. E aí não preciso de escrever. Só preciso de me sentar num muro, que descobri depois de uma quelha escondida, por onde não passam carros, e ficar ali… sentada, a olhar.

A olhar a vida que acontece todos os dias à nossa frente e que, por vermos todos os dias, por nos ser dado como uma prerrogativa, achamos que não temos de lhe prestar reverência. Mas temos.

Temos muita reverência a prestar à Vida e à Terra que se desenrolam à nossa frente, todos os dias, a todo o momento, sem que nada lhes seja pedido. Dão-nos, porque são generosas.

A Vida e a Terra. Dão-nos o céu alaranjado que eu fico a olhar quando saio do ginásio. Dão-nos os pássaros a fazer desenhos e curvas, aparentemente sem sentido, nas estradas do céu. Dão-nos o canto deles, dos pássaros. E dão-nos as estrelas que, às vezes, falam connosco. Dão-nos o azul mais bonito que eu já vi. É o azul que lhes apetece fazer nesse dia, nesse momento. E mudam de ideias. Não se moldam ao que gostávamos que fossem. Fazem chover, levantam o alcatrão das estradas, sobem o rio e dão violência ao mar. A Vida e a Terra.

No dia seguinte, sorriem-nos outra vez. Olham para nós, esfíngicas e imponentes.

E agora… porque me apetece escrever no singular.. Temos muito a aprender com a Terra. A sermos como Ela. A Sermos. Acima de tudo, isso. A Sermos.

 

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