Bordéis e Livrarias

Compôr ideias no papel, fazer puzzles com as palavras que não saíram, é recuperar o que há de humano Aqui. A capacidade de me deslumbrar e de ter o coração nas mãos, e na boca, e nas pernas e onde eu o quiser pôr. (…)

Dou por mim agarrada ao poste do autocarro, que vai cheio que só ele, onde habitualmente as pessoas se seguram, a aproveitar os (quase) baques e as curvas do corpo, graças às travagens que lembram os mais letárgicos de que estamos vivos, para num arco que faço com o braço, repousar a cabeça e amparar as ideias do que me apetece escrever.

Também gosto de ir a livrarias. Sinto-me como quando alguém vai a um bordel – ou, como cá no porto, gentilmente dizemos, casa de meninas -. Ou, pelo menos, acho que é assim que as pessoas se sentem quando vão lá.

Na visão mais romântica que consigo ter de uma casa de putas, creio que um homem vai lá, quando se sente sozinho… pede um copo, olha em volta e espera que uma mulher o “escolha” para comercializar conversa. Vender palavras, vender vislumbres de afeto, vender mãos, vender toque, vender uma sensação de calor ou de humanidade – porque foder é muito humano, como sabem. E também se fode com palavras e com os olhos -.

E não, não se vendem a elas. Elas são delas. Como os livros são deles. Os livros, mesmo que os compre, são deles. Nem mesmo são de quem os escreveu. A partir do momento em que se partilham, são arte. E a Arte não se tem.

Nas livrarias, eu sou como um homem que vai ao bordel. Passeio, dou voltas sobre mim, acho mesmo que me sinto a pavonear, a chamar a atenção deles, dos livros, porque há qualquer coisa de muito próximo de mim lá, olho e mostro-me disponível para eles. E há sempre um livro que me tem dentro, que me escolhe.

Um livro que me tem dentro e que me vai convidar a descobrir-me mais, a ver-me mais, a sair de onde estou, a empreender-me. Costumo dizer que a literatura é precisa. É a forma que o mundo arranjou de pôr génios a falar connosco…

E não são os autores… os egos dos autores, pelo menos. São os génios que os habitam. Os deuses que os visitam de repente, quando surge a vontade de escrever a que não podem resistir. Todos nós somos visitados por esses deuses… numas visitas mais conscientes do que outras, mas todos nós temos um talento qualquer que devemos, que temos, inevitavelmente, de dar aos outros.

É, por isso, que preciso de ler e de escrever. Isso traz-me a dimensão divina de mim. Às vezes, quando já distanciada do momento de Luz, percebo que sou melhor nesse intervalo de tempo. É nesse momento que eu Sou. É nesse momento em que nada me abala, tudo o que É, e acontece na frente dos meus olhos, me deslumbra. É aí que vejo bênçãos atrás de bênçãos.

É aí também que eu sou mais generosa. Melhor com os outros. Olho melhor os outros. Olho-os mais por dentro.

(…)

To be continued, que agora não temos tempo.

#ElasDasVidas

 

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