Coisas de Mim

Isto de escrever é uma responsabilidade para comigo. É recuperar-me. É ser melhor pessoa. Pelo menos, fico melhor pessoa depois de escrever.

Escrevo sem saber sobre o que vou glosar, exatamente. Escrevo, porque preciso de falar comigo e com os deuses que me habitam. Esses doidos que me descobrem e me põem a nu… que me abanam, que me tiram a roupa social e o que não serve mais e, às vezes, me fazem chorar, quando me dão vislumbres mais fundos de mim.

Choro muito. Fico feliz e aguam-se-me os olhos. Escrever, cantar, fazer-me, ser-me, agua-me os olhos. Mas um aguar sereno. Como se algo saísse de mim para me Ser mais um bocadinho.

(…)

Estes são os serões de que mais gosto. Estes, em que me sento no sofá, com o café forte  do Amor que a minha mãe coloca nas coisas. Otis a tocar, um monte de livros ao lado – gosto de fazer zapping de livros -, um caderno e uma caneta. Podia morrer assim. Mas não. Não agora. Há coisas para fazer. Há uma necessidade de me cumprir. De ouvir as perguntas de Mim, a quem nem sempre sei responder. Mas, devagar, vou ouvindo as vozes imaculadas, livres da tinta social. Esses sopros que me desassossegam.

Que me lembram que cumprimos  o que a sociedade nos disse. Vamos acolhendo aquilo que aparentemente somos. A construção social arrumada, que “não dá comichão”. Uma arte de ser árida, seca, insípida, normal, estéril, igual e em série. Depois, só depois de cumprirmos o projeto do mundo para nós, nos lembramos do nosso Sonho, não, não é um projeto. É o Sonho que nos tem dentro. É quando cumprimos o que o mundo nos gritou que percebemos… não era nada disto.

E é, então, que, aos poucos, vamos voltando a nós.A nós, aos sonhos das manhãs de sábado de domingo, e de todos os dias, quando acordávamos antes de todos, para inventar e contar as nossas histórias com os brinquedos. Particularmente, já nessa idade, eu sonhava coisas que não eram os meus sonhos. Lembro-me de dizer que queria ser cientista… com certeza, ouvi dizer que a Ciência era importante… Porque toda a gente sabe que eu não tenho jeito nenhum para a Ciência. Mas isto de sonhos… sempre fui o sonho de muita gente… o sonho dos pais, dos avós, dos tios… e carreguei esses sonhos com pompa e compromisso.

Ainda na infância, soltei que queria ser professora do ensino secundário… devia ter uns 7 anos… era um sonho muito específico para alguém que não sabe sequer o que é o ensino preparatório. Aos 15 anos, apaixonei-me irremediavelmente, e creio que para sempre, pela Filosofia. Aos 16 anos comecei a dar explicações sobre a amada área do saber e lembro-me… Lembro-me de brilhar. Lembro-me de aquilo não me custar absolutamente nada. De ser natural e necessário. Lembro-me de Ser quem eu era.

Lembro-me, já na faculdade, de ir a correr para o centro de explicações, entre a ressaca e a letargia, a amaldiçoar o exagero do ontem, e de entrar na sala, começar e, de repente, lá estava eu a brilhar outra vez, independente do álcool e das horas que não dormia. Aí já teria uns 19 anos…

Aos 19 anos achamos que vamos viver para sempre. E, creio, o cinismo e a falta de coragem para ir fazer o que me fazia feliz, levava-me a acreditar que ser feliz é uma coisa que calha. Preocupa-me que seja uma ideia comum e generalizada a muitos outros.

Lembro-me depois de passar a vida a dar “um jeitinho” às escolhas que ia fazendo… Para encontrar um equilíbrio entre o que não era e o que Sou.

Um dia, acordamos do sono em que deliberadamente nos induzimos – não, isto não tem nada a ver com os outros -, e vemos que viver é algo de muito sério, que Ser feliz é mesmo algo muito, muito sério e, sobretudo, que nos devemos isso. Depois, começamos a aproximar-mo-nos de nós… devagar (como quando fazemos amor, ou descobrimos um corpo, devagar, com cuidado… porque isto é a arte de nos amarmos). Começamos a abeirar-nos de nós… Começamos a prestar-nos reverência e a perceber que é hora de nos cumprirmos – ou de começarmos, pelo menos-.

E cumprir-nos nada tem a ver com dinheiros, estados no Facebook ou cargos no Linkedin (costumo teorizar sobre isso, quando não tenho mais nada para fazer… e concluo que, quão mais elaborado o cargo é no Linkedin, mais na merda a pessoa está. E sim, eu incluo-me neste entimema. E confesso que estas conclusões vêm quando eu própria estou chateada  e atiro pedras… e, nesses momentos, somos nós a gritarmos por nós… faço sentido?).

Mas depois, a vida alinha-se. Nós abrimo-nos e ela abre-se para irmos atrás de quem Somos. A Vida é uma doida mas é generosa. Quando decidimos cumprir-nos, tudo conspira a nosso favor. E se vacilamos, ela abana-nos.

E sim, é hora de ir atrás de mim. Chegará o dia em que andarei lado a lado, ou dentro de mim. E sim, Sou muito grande e as minhas pernas, as da Terra, as da musculatura do medo, ainda tremem, de quando em vez, mas chego Lá.Lá que é Aqui, a Mim. Ah, se chego!

#ElasDoAvesso

#ElasDasVidas

 

 

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