Aos voos de mim, deles, de nós

Os voos são sempre momentos especiais para mim. Simbolizam viragens, mudanças de estado, movimento. E, às vezes, mudanças de vida.

Barcelona costuma mudar-me a vida.

“O que queres que Barcelona te mude?” é o Paulo que me pergunta. “O que quero que Barcelona me mate…”. Remato, sem saber muito bem o que quero significar.

Muda-me tudo no regresso… Sempre que volto, algo muda irremediavelmente. Algo finda para que o novo comece.

Estou há mais de cinco horas acordada com três de sono. O avião brinca connosco… ora move, ora para. E dizem-nos, num inglês abafado e ruidoso, que “We can’t control the weather. We’re sorry, though.” Eu não lamento nada. As tentativas goradas de levantar já me deram um sem número de respirações fundas – e a vida vale a pena quando respiro fundo –.

Agora tenho de parar. Honrar a sensação de subir. A sensação física, visceral, que nos lembra que somos animais cá dentro… que temos órgãos, que se abanam, que trepidam, que sobem, que querem subir com a máquina, com o milagre que a põe no céu.

Não sei como é possível dormir quando o avião está para subir – não, não me venham com a tanga de que já viajaram muito. Acho que já fizemos amor, todos muito, e o amor continua a trazer-nos o animal e o espírito, o pagão e o divino, que somos. Ou devia, pelo menos –. Depois, o óbvio que nos passa… muito mais do que chegar ao destino, viajar é sentir a viagem… Honrá-la em tudo o que ela nos dá.

Lembramo-nos, porventura, do sonho que nos levanta? Da vontade, do engenho, do visionarismo e da loucura de quem um dia pensou neste monstro com asas? Os aviões parecem-me sempre tubarões no céu. No céu que é o mar dos deuses.

É por isso que o céu é tão azul. São os deuses que vivem lá e que o pintam… E os sonhos que lá guardamos. Sempre que olhamos para o céu, respiramos fundo e, secretamente, contamos-lhe o nosso desejo – ao ouvido que o céu também tem –. Quantos segredos o céu nos guarda? Quanta vida nos conhece calada, só falada nos olhos e nos ouvidos dele, do céu? Azul como ele.

É por isso que eu acho que somos bonitos dentro. Porque só desejos bonitos podem pintar o céu daquele azul que é o mais bonito que eu já vi.

Começo a balançar… respiro porque os órgãos pedem-me ar e vida… e os meus pés levantam do chão para sentir melhor o ar que parece que os levanta também. Mas ainda não. É (só! Como só?) o trepidar dos motores.

Discretamente (ele acredita que sim), o homem que se senta do meu lado esquerdo tenta ler o que escrevo. Apesar de perceber que é um esforço hercúleo e vão – nem eu percebo o que escrevo, às vezes –. Guardo o papel, dobro-o para dentro. Ele não sabe que este momento é meu, só meu com a Terra. Chegará o momento de o partilhar. Mas não agora – só agora.

Agora sou só eu e o Mundo todo.

Quero muito levantar.

Recupero. Ainda com as pernas e a cabeça a levitarem. É sempre um espetáculo esotérico isto de voar. Não sei. Não sei como nos damos à frivolidade de ler revistas, de dormir,

de não sei o quê que não sentir cá dentro a apoteose de concordar com o mundo, de ser motor, de sentir, uma vez que seja, que somos todos juntos, que há um sentido qualquer que nos religa ao motor que nos levanta, ao céu que nos recebe, que num momento que seja, tudo conspira para dar certo, que nos faz estar de acordo, que nos faz ser milagre e tudo ao mesmo tempo.

É uma sensação de amor, de sexo pagão e divino, de tudo ao mesmo tempo com a Terra, quando as rodas arranham o chão… quando o monstro – do latim mostrum, que significa revelar, mostrar –, nos quer levantar do chão. Depois, depressa estamos lá em cima… numa diagonal qualquer da ave que também somos. Temos a certeza de que tudo é possível. Viajar, voar dentro destas bestas com asas, deve lembrar-nos que o sonho é sempre possível.

Depois, atravessamos as nuvens e vem o sol. Uma claridade que nos manda para outro lugar qualquer. Fora do mundo, dentro dele. Não sei.

Fora do mundo pequenino em que, às vezes, nos enganamos e escolhemos para viver. E sinto-me a levantar…. Cada vez mais… a subir… a subir… a subir… Estou suspensa… Numa diagonal, muito livre, às nuvens, outra vez.

Agora plano…sobre as casas, o verde, as serras. É sempre uma ânsia de olhar e de ver mais. Parecem lagos nas serras… mas são nuvens a pousar no ar. Parecem cobertas de algodão doce na Terra. Parecem mares pequeninos. Esfuma-se tudo. Há mais, muito mais, mas agora não vejo.

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