Quando eu fiz 27 anos

Entro nos 27 num dos lugares que mais me impressiona… Uma caixa de um material que não sei, que tem rodas que encaixam nos ferros sujos, mas vigorosos, que nos levam para outros lugares – os comboios.

Os comboios versam sempre mudanças de estado, passagens de um lugar para outro lugar. E, dentro, cruzam pessoas, as vontades, os desejos, as intenções e os sonhos… mas também as aflições, os pensamentos maus, os medos…

E mostram-nos que tudo passa… tudo anda, mesmo sobre ferros sujos. Anda, porque tem de andar. O tempo não espera e ainda bem, porque eu tenho muito, muito que fazer e o tempo, o tempo tem de andar.

Os “pis” antecipam, avisam que vamos sair. As portas fecham e a viagem está quase. A minha, a deles, a de quem não sei. Acima de tudo, a viagem do que não sei.

Recomeço-me aos 27. Sem saber para onde vou. É que não sei mesmo. Sei que vou para mim. E que me devo isso. Vir para mim, para quem está a gritar. E eu, dentro, grito muito alto. Larguei tudo o que não era meu, do que não cabia nos meus dedos e, sobretudo, na que se levanta de manhã, todos os dias comigo, que sou Eu cá dentro. E grito muito, já vos disse?

Deixei empregos certos, cargos, status e, como eu gosto de dizer… vou voltar a ser pé rapado… é bom que saibamos brincar com as desgraças… ainda que não haja aqui desgraça nenhuma…

há uma vontade muito grande de honrar, um ato de respeito comigo, uma declaração de amor inesquecível – a de mandar tudo à merda e de fazer o que me apetece.

A de, se necessário, contar trocos para me levantar bem de manhã. A de já não ter de me compensar à mesa com jantares fartos e viagens e fins de semana, que, com ilusão, acreditamos que pagam o coração apertado dos dias (in)úteis.

Clóvis de Barros, um filósofo brasileiro de quem gosto muito, chama-lhe a “Vida da Tristeza”. O vídeo vai abaixo, que é para vocês, meus melrinhos, lerem isto até ao fim (onde é que vão? Esperem! :))

Largar… Soltar tudo o que já não faz sentido. Não da mesma forma, pelo menos.

Amanhã, torno-me vendedora de móveis e sofás a part-time. Depois de uma entrevista com três seres humanos de fábula, a quem agradeço o facto de em 15 minutos me confiarem o emprego. A alguém que lhes dizia que ia deixar de ser Digital Marketing Manager (adoro cargos em inglês… como diz a minha mãe, é só para enrolar a língua), para passar a ser estudante de Filosofia e pessoa que escreve coisas…

Tenho o dinheiro contado, disse-lhes… Mas a alma a ferver por deixar o escritório, o gabinete, as reuniões de circunstância e a intelectualidade forjada.

Por falar nisso, já vos disse que somos todos brilhantes nas reuniões de trabalho? É um verdadeiro BBC Vida Selvagem por quem tem a melhor ideia… É como o macho que tem de dar um orgasmo à fêmea, segundo as novas ideologias de virilidade dessas revistas que escrevem vereditos últimos sobre a verdade humana. Nestas reuniões, a ideia é o orgasmo que, aparentemente, espera o diretor. No Marketing, então… acreditem. Façam um filme sobre isto, por favor. E andamos aqui nós… a investir energia no que não interessa… no que não é nosso… deixem isso para eles. 🙂

Amanhã, estou emaranhada na vida que desenhei para mim, sem estratégia, sem foco em resultados… a vida que pulsa aqui, que me faz respirar melhor, como agora. Não há mãos de fora aqui. Aqui, na minha vida, ninguém mexe. Sou eu que quero assim. E o assim é a medida certa.

Deixei de conseguir viver em cima do muro. Muro de não sei o quê. Da segurança, da falta de coragem, do “mais fácil assim”. O melhor é fazer o que eu quero. É dizer ao mundo e às ideias construídas:

– Olha, da tua maneira não funciona.

Vou fazer as coisas à minha maneira. Tentar pelo menos. Dar o peito às balas, mas, e sobretudo, ao coração e à esperança. Estou aqui. Para mim. Para quem eu Sou. Para quem eu quero Ser – seja lá o que isso for.

Porque fazer o que queremos limpa-nos os olhos, faz-nos olhar para o que interessa e livra-nos do que já não somos.

Sim, vêm reviravoltas e avessos. Vem Vida.

Hoje, não sei como amanhã vai ser. Não tenho planos, não tenho metas. Tenho sonhos, ou os sonhos têm-me. E quero sonhar-me para dentro, viajar-me por dentro, conhecer-me dentro, ser o que me corta a respiração e depois levar-me ao mundo, mas ficar em mim.

O coração aperta de qualquer coisa que não sei. Do que não vi.

Não, já não é de medo. É de ânsia. De ver o que ainda não vi. De uma apoteose dentro quando pressinto que me vou Ser mais. Dentro.

#ElasDoAvesso

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elas do avesso Márcia Augusto

Foto: #ElaDoAvesso

Ver vídeo Clóvis de Barros

 

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