A velha e o Quasimodo

Hoje eu quero contar-vos a história de uma senhora no metro, doravante conhecida por velha, porque ela era velha, velha de idade e de sabedoria. Não quero com isto dar largas à criatividade e perder-me na criação literária. Não que a senhora não o mereça, mas porque o que diz é tanto que eu temo ofendê-la, se me aproveitar da história para florear a escrita. Se a tanto a objetividade me ajudar – creio que acabo o texto subjetiva, perdida e a florear.

A senhora do metro estava encostada ao quase-banco, ao lado da porta que se abre para levar pessoas a lugares – lá vou eu.

As coisas não são só o que vemos. Não podem ser. Há poesia nas coisas e nesta senhora também -.

Ia ao telemóvel e eu, sem querer, ouvi-a falar, a contar coisas. E ela dizia que precisava de dinheiro, que “aquele lhe fazia falta”… Diz-nos ela, “não te vou dizer que não. Faz-me falta. Mas estar a levar com aquela mulher não. Eu preciso de dinheiro, mas a minha cabeça, a minha paz não”. E não, esta senhora não tinha nada de erudito… ela era simples, áspera, como a madeira de uma árvore, mas ela era dela, ela É. Ela respeita-se. Como diria Sophia, “Porque os outros se compram e se vendem/(…)/Porque os outros são hábeis mas tu não.”.

Quantos se vendem todos os dias? Esta senhora falava de limpezas, pelo que, deverá ganhar uns 5 euros por hora (no mínimo)… Quantos de nós já se venderam por menos de 5 euros por hora? Quantos de nós?

“Porque é preciso”, dizem-nos os eus enrugados, definhados, de colunas tortas, de joelhos atrofiados e dobrados para dentro.

Sim, falo connosco, com todos nós… Quasimodos, deformados sociais. Luta-se pela liberdade, para que não saibam o que fazer com ela. Luta-se pela igualdade, para quererem chegar ao estatuto vão dos outros, dos que, no passado, combateram – porque a vida é uma selva, disseram-nos. Ou ganhas, ou és uma merda. Também dizem. E pergunto, ganhar o quê?

Luta-se pelo que não se sabe. Luta-se por coisas muito grandes que depois, que depois não sabemos honrar.

Ensinaram-nos o sacrifício como métrica de honra. Quantos de nós estamos a viver vidas que não queremos, a curvar ao despotismo do andar de cima, do andar de baixo, da secretária do centro – lá mora Deus, disseram-lhes -, à cabeça do polvo de que aceitamos ser tentáculos? Por ser mais confortável, por ser mais seguro, por ser mais “aconchegadinho”… E eu digo, para mim e para vocês… Cambada de conas. Sim. O Porto deixa-me falar assim.

Ainda não soubemos largar as alcofas… E não sabemos que o conforto atrofia, que o conforto não cria rasgo, que dá moleza, flacidez, turva os olhos… Não nos aventuramos para lá do que vemos. E, por isso, não podemos voar. Porque voar exige vigor nas asas… e nós nem as descobrimos ainda.

Bom, mas eu ia na velha do metro. A velha do metro tem dignidade. Não curvou. Talvez por isso, fosse dura, mas gentil, daquelas senhoras de amor nos olhos, de mão áspera e de pés gretados, com uma generosidade que apetece abraçar. A velha do metro não se vende por ser mais fácil. Compra menos coisas. Não vai jantar fora. Mas a velha não tem olheiras, sorri e diz-me “passa filha”.

#ElasDoAvesso

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E, pelo amor da santinha… Não sejam um #quasi da vida.

Com amor,

#ElasDasVidas

quasimodo elas do avesso

Foto: Loopymelon

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