Cabra-cega e angústia. Mas do Rio não.

Hoje acordei com uma dor no peito, com o peito apertado, pequenino a respirar… e tive muita vontade de chorar… chorar não sei de quê, o quê, porquê… chorar para me sair qualquer coisa, que já não é meu (como se alguma coisa fosse nossa), que já não faz nada aqui… Mas continuo sem saber o que é. O melhor, porém, é chorar. Deitar tudo fora. Desprender.

É uma dor que dói e não diz onde lhe dói… não aponta dedos, não fala… joga à cabra-cega connosco. É como um bebé que chora e nós temos de o ouvir melhor, de começar a conhecê-lo, devagarinho… até que sabemos o que quer ao primeiro som. Sermos como uma mãe que sabe tudo.

Temos de amar a criança de dentro como a mãe que ama o bebé… temos de o conhecer, de saber o que quer… o problema é que andamos tão surdos, apáticos, desligados, desvirtuados, durante tanto tempo, que nos esquecemos do bebé de dentro, da criança que somos, da criança que quer… e esquecemo-nos do que é que ela queria ser… Que ainda quer. Dos sonhos que ela tem para nós. Ainda. À nossa espera.

Dói-nos porque não sabemos o que são, como são… não lhes sabemos a cor, o desenho, o cheiro… sabemos que não estamos no nosso caminho, que não nos damos de beber… e é por isso que chora. Perdemo-nos de nós. De quem somos. Esquecemo-nos de Ser, para ser outra coisa qualquer que a segurança, o eu primitivo, nos pediu.

Às vezes, acho que somos menos alma, do latim anima (que anima, que dá movimento – o latim ajuda-nos sempre que andamos perdidos. É a Língua do que nos foi mais próximo) do que macacos na savana.

Não passamos das necessidades básicas… Alimentação, segurança (que podemos entender como trabalho e dinheiro) e preservação da espécie (a idade biológica da doce procriação). Desenganemo-nos já. Isto é básico. Isto é o mínimo exigido a qualquer animal. Esquecemo-nos do resto… da dor de dentro, da alma, da criança, do divino, da realização… Nós, os humanos, temos mesmo a mania de complicar, de parecermos cultos, de dar conotação elevada… “Realização”… Para dizermos Ser. Só isso. Só Ser.

Mas ninguém nos ensinou a Ser. Ensinam-nos a mais sofisticada matemática, dissecam textos em orações de nome tão estéril que não me atrevo a pronunciá-las, porque afrontam a Língua, o que me aproxima dos outros; ensinam-nos Platão e Kant para os sabermos contar (nem sempre bem) num exame… e depois… Nada.

Depois arranja emprego, casa e faz um filho. Espera pela reforma, trabalha o menos possível até lá, porque aí já estás cansado – claro, passaste a vida a fazer o que não era suposto – e tenta ser feliz de vez em quando, achar que és, pelo menos.

Habituamo-nos à escala do meio, ao meio ser, a parecer certezas, a parecer que sabemos o que o não fazemos ideia… não sabemos nada… Tão-pouco o que andamos aqui a fazer. Sabem o que fazem aqui? Alguém sabe apresentar-se para além de dizer o nome e a profissão? Acham mesmo que o que vos define é o nome e a atividade diária das 8 horas que, com tristeza, passam em frente ao computador? As 8 horas que enganam com o Facebook, o telemóvel e a expectativa do reconhecimento que versam no Excel, no Powerpoint, no Photoshop, no Adwords, no PowerEditor, no que vocês quiserem… Acham? Acham que são isso? Eu, com verdade vos digo, não faço ideia de quem Sou, mas seguramente sou muito mais do que isso. De outra forma, seríamos todos iguais. Não é estranho que queiramos todos a mesma coisa? Que sonhos são os nossos?

Bom, mas eu dizia que me doía… Há dias assim… em que nos dói qualquer coisa. Aproveitemos esses dias para estar connosco, viajarmo-nos para dentro. É a dor a pedir-nos que nos sentemos com ela… que a olhemos de frente. Mas ela não quer rigidez. Quer um abraço. Um abraço a nós. Àquilo que não fizemos por nós. Àquilo que ainda não sabemos que somos.

São dias para nos sentarmos ao Sol, dar os olhos ao sol, as pernas e o corpo todo… olhar o rio também… ver como corre, imperturbado, inelutável também, independente de tudo… como recebe plácido a luz dourada que vem de cima… e como tudo faz tanto sentido… um sentido que não sabemos. É tudo tão claro, tão belo, tão justo, tão como tem de ser, que tudo o resto não vale, tudo o resto atrapalha… tudo o resto é construção.

A nós, a nós resta-nos aprender a ser como o rio que recebe o Sol, que corre entre as margens a ladear… Ao rio que é, ao rio que vem para correr. Mas o rio sabe o que tem de fazer. Nós não. Há uma ordem cósmica no rio, de que nos desligámos. Nós, quando dói, é só um abanão para aprendermos a sentar e ser mais como o rio. A aprender as angústias que o rio não tem. A tirar a venda. A saber-nos.

#ElasDoAvesso

P.s. O rio tem sido uma fada para mim na Terra. Talvez porque durante os meus primeiros anos de vida, a primeira coisa de que me lembro, depois de sair de casa, era de ver o rio… andava sempre entre as pontes… E o rio lembra-me de mim. De quem sou. Sempre que atravesso o rio de manhã, é uma luz de ar que me entra. Que me lembra do sentido. Do sentido que, como digo e reitero, não sei. Mas é o sentido de mim, de qualquer coisa que eu sou dentro e que ainda não descobri.

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rio elas do avesso

O Rio e as Casas I

Foto: #ElasDoAvesso

 

 

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3 thoughts on “Cabra-cega e angústia. Mas do Rio não.

  1. José Augusto says:

    Olá Boa Tarde .
    Como escreves com tanta qualidade e diversidade dou te os meus parabéns
    Grande Beijinho do teu Admirador
    Força Marcia continua

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