Deus encoberto em Eine Kleine Nachtmusik Movt 2

Hoje, dei por mim a pensar sobre a música. Como se a música fosse para pensar… Foi Mozart que me despertou e que me acorda agora. Para escrever coisas. Para o dizer, um bocadinho, por pouco que seja, temos de o escrever… A ele, a Bach, a Chopin e a tantos que ficarão por dizer.

Mas foi Mozart e Eine Kleine Nachtmusik Movt 2 que me despertaram de mim – porque nós despertamos de nós e dentro.

Mozart levou-me às lágrimas. Àquelas que vêm sem sabermos de onde… é que a música clássica fala para quem somos dentro e é por isso que, século após século, Mozart continua a saber falar connosco … É o chamado “intemporal”, étimo que eu acho uma grande seca… uma esterilização do que É. É uma música que não tem tempo, que não conhece esses limites que os humanos, desorientados e meio que perdidos, com os corações a bater nas partidas do metro, nos compromissos inadiáveis e perfeitamente inúteis do Outlook, inventaram para se organizarem nos seus afazeres do calendário, também ele, inútil.

Não, Mozart – quando digo Mozart, falo dos grandes clássicos, mas é Mozart que me desperta hoje –, não fez música intemporal para que bata nesses tempos. Mozart fez música para que saibamos sair desses tempos, desses cronómetros tétricos da vida ensaiada. E, por isso, é música do não tempo. Não é do tempo dos humanos. É do tempo do nada, do que não existe, com muita existência, do que não vemos, do que pulsa dentro e, sobretudo, do que não ouvimos.

É por isso que nos leva às lágrimas… porque nos resgata… Porque nos (re)lembra da Verdade que esquecemos – seja lá o que isso for, a Verdade. Verdade porque nos manda para fora disto que vemos, sem sair daqui de facto. Poderia falar de mindfullness – termo nobre e caro da época, ainda que queira dizer o mesmo, mas em cool –, mas ofenderia Deus, o Cosmos, o Divino que nos habita, o que lhe quiserem chamar. Porque Mozart também é Deus. Somos todos.

Mozart foi um Deus encoberto com as respostas… muito mais do que grandes ensaios, teorias últimas do mundo, bíblias, corões, a mais sofisticada ciência… Eine Kleine Nachtmusik Movt 2, sem nos explicar nada, mostra-nos tudo. Salva-nos o que está dentro. E tudo muda. Dançamos com as luzes do dia, com os quadrados do chão dos passeios, com as árvores e com as pessoas… Vemos as pessoas dentro. São momentos que nos trazem a Verdade que não conhecemos… Que sentimos cá,

num niilismo divino qualquer que somos… São momentos em que tudo o resto é menos que nada, é desnecessário, é acessório, está a mais e só serve de distração à Verdade.

São momentos de nós. Nós dentro. Há quem os tenha com droga, com álcool, com meditação, com sexo, com o que quiserem… Mas a música dispensa tudo… limpa a casa e as janelas que dão para as histórias do cérebro inquieto… Tudo para. Tudo é nada e tudo ao mesmo tempo. Somos nós… uma paz que nos habita. É por isso que eles, os clássicos da música, são deuses encobertos… Não são orações, não são preces, nem aforismos, muito menos chavões do coach … é só som a despertar dentro.

É o que me faz ter de parar a música… Porque Eine Kleine Nachtmusik Movt 2 para-me… impede-me de contar o que quer que seja… porque leva-me para fora, sem nunca me deixar por dentro… e já o mestre Pessoa nos contou… o processo de escrita é um fingimento, exige distanciamento do que se sentiu, para criar… uma emoção que não existiu bem assim, mas que a mente inventou para a partilhar com os outros… e, por isso, fez do que sentimos Arte.

E é Eine Kleine Nachtmusik Movt 3 que me rouba já… que me veste de branco, que põe os meus pés a dançar com o ar, sem saírem do chão sequer, panos a esvoaçar, luzes etéricas, azuis, brancas e intercecionadas… visão fosca que, agora sim, vê tudo… o coração é quem respira agora.

(É com um arrepio que vos deixo… com os braços a irem para além da pele… e elos vertebrais a acordarem.)

E que Mozart vos acompanhe.

#ElasDoAvesso

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P.S.2: Porque isto é bom de mais para ficar comigo.

 

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