Carta à Mãe

Despedi-me, mãe.

Desculpa.

Eu sei que me ensinaste a aguentar. Que me ensinaste a ser dura, a ser uma mulher como tu, mãe. Eu sei.

Mas também me ensinaste a ser honesta, a não me vender… E hoje, hoje eu percebi que não posso dobrar a coluna, mãe. Doem-me as costas mãe. E dói-me o peito. A respirar. É como um ar que chora. Poluído, a sair.

Começou de manhã, mãe. Ou antes.

Olhei ao espelho e vi os meus glúteos a murchar. E disse-te, mãe, tenho mesmo de fazer contigo, depois, em setembro, o treino com o teu PT. O que acordei pagar contigo, a meias.

Ontem acordei pagar contigo a meias. Depois de me sentar à mesa e nada me chegar… a cerveja, o queijo, tantos quantos havia em casa, a chouriça, o pão e tudo o que a minha boca e os meus dedos predadores pudessem apanhar. E fazia-o consciente, mãe. Consciente de que já não havia cigarros que me valessem, nem whiskey ou whisky – dizem que dá para escrever das duas formas, mas tu não queres saber disso, mãe –, nem noites perdidas de mim para calar o que me doía. Não. Eu já tinha deixado de fumar e desde há meses que não bebia… não era porque não podia… mas porque já não me dava prazer. Como o sexo casual também já não servia, mãe. Nada servia de peneira para tapar, disfarçar o que me doía, mãe. E foi duro. Foi muito duro… Mas consegui, mãe.

Só que, dei por mim naquela mesa a comer para me compensar… a enganar o corpo, as 60h que o meu corpo trabalhou, mãe, com cerveja, chouriça, queijo e coisas que eu até gosto mais ou menos… Arranjei para mim a desculpa do jogo – aquele em que Portugal foi campeão europeu – para fazer todas as asneiras que pudesse (não é que eu faça dieta, não faço… mas percebi que é tão grave fumar um maço por dia como comer além do que precisamos por dia).

E depois pensei que não fazia mal. Porque depois voltaria para o ginásio todos os dias em setembro; iria pagar um PT para “isto ir ao sítio outra vez”. E pensei, mãe… Que me adiava por 2 meses por meia dúzia de trocos. Que ganhava agora para reinvestir em mim, em setembro. E pensei que talvez eu não estivesse muito boa da cabeça. Dalai Lama diz isto muito melhor do eu. Não me vou meter nos ditos dele – sobre perdermos saúde para ganharmos dinheiro e depois gastarmos o que ganhamos para recuperar a saúde.

Mas virei os olhos. Peguei na venda da comodidade para não ver. Eu precisava de dinheiro.

Comecei a fazer todas as viagens a dormir… Até nas Resendes, mãe…  e eu tenho medo de andar nas Resendes. Não é pela condução… é pelos caminhos… nunca sei onde sair. Simplesmente, os olhos não aguentavam. Tentava fazer meditação e adormecia. E a minha vida era passada entre 60h a trabalhar e as restantes a dormir, na cama e nas Resendes.

Depois, era aí que eu não queria chegar… Olhava de lado… esguelha à verdade… a ver se ela me deixava em paz. Mas ela não deixa, mãe. Às vezes, olhava para dentro e conhecia-me triste. Comecei a contar os dias do calendário… Os dias que faltavam para eu ser “livre”. Como se não pudesse ser livre agora… Mas esta era uma prisão cujas grades fui eu, fui eu que criei, mãe. As grades da segurança, da poupança, do dinheiro. Foi aí também, durante o banho, que me surgiu uma ideia para um livro… quer dizer, surgiu uma história… e eu pensei… Foda-se… se ao menos eu fosse de vídeo, podia gravar… E depois pensei… Mas ‘tás parva? Tu és boa é a escrever… E aí eu vi que até do que eu sabia fazer eu me ia esquecendo, mãe… Até de quem eu era…

Lembras-te de quando eu passava as férias da primária a escrever? Não, eu não criava nada… eu só fazia cópias… Lembro-me de, quando aprendi a escrever, passar tardes a fazer cópias… não, eu não tinha cunho criativo – ou não o ouvia, ainda… ou tinha e reduzo-o agora –, mas eu passava todo o meu tempo livre a fazer cópias e a ler… Lembro-me de fechar tudo em casa, quando morávamos na ilha mãe, mesmo atrás do bloco, para fingir que não estava em casa. Eu gostava dos meus amigos – que ainda são hoje –, mas eu não queria jogar à bola nem brincar… eu queria estar sozinha, a escrever. Era assim que eu gostava. As tuas amigas diziam-te que me devias levar ao psicólogo, porque eu era introvertida… Mas tu eras chamada pela escola porque eu rasgava joelhos, partia braços, deslocava clavículas, queimava-me no fogareiro do S.  João – porque aceitei procurar por um frasco de mostarda, vendada, à beira da coisa onde assavam as sardinhas. Não sei se por que era burra, acho que não, ou inconsequente…

Não me importavam os perigos, mãe. Importava-me viver, importava-me estar viva…

Também lutava com um rapaz – hoje o meu melhor amigo – bem maior do que eu (ele era grande e gordo, mãe)… Ele atirava-me ao chão e, um dia, bati com a cabeça tão forte no chão que fiquei à procura da sensibilidade, de novo, na nuca… Depois, voltei a sentir a cabeça – tu nunca soubeste, mãe.

Também jogava com os grandes à bola… Sempre rapazes… E, às vezes, levava com bolas na barriga… Já mais velha, com 12 anos, nas mamas… eles achavam piada…

e eu achava que não era menos do que eles por ter mamas, mãe.

Por isso, tu nunca quiseste saber das teorias das tuas amigas… Porque sabias que eu vivia, mãe. Eu só gostava de viver… De escrever… Também sabias que não ia muito em jogos da sorte… esses só jogava comigo própria, porque não gostava de perder… e se perdesse, perdia para mim. Foi por isso que nunca gostei de jogar nada dessas coisas… cartas e tabuleiros… eu não podia controlar… nada do que eu não pudesse controlar servia.

Eu era assim… de mão na cinta e mandava em tudo, mãe. Como tu me ensinaste. Segurava a vida pelos colarinhos e punha tudo a andar a toque de caixa…

A minha professora de inglês dizia que de mim não faziam farinha e eu orgulhava-me de ser dura. Como tu me ensinaste, mãe.

Hoje, talvez porque passei a vida a mandar, mando tudo à merda, mãe, e deixo que mandem… que a vida mande. Que me leve para onde tem de me levar.

Disse-te que uma prostituta era menos vendida que eu, mãe… porque ela deve gostar do que faz… porque gosta de foder e olha para a fofinha dela como uma margem de liquidez… e ela fá-lo em consciência – quero dizer… fá-lo porque assim o deseja e, por isso, é válido; porque ela, detentora de determinado grau de consciência, acha que está certo e a medida certa do certo é o que é certo para nós; é uma medida única de cada um. Mas eu já não acho certo o que faço.

Eu só me vendo, mãe. Vendo-me para ganhar mais. E depois pago PT’s, pago solário – porque não tenho tempo de ir à praia –; como mais – porque não tenho tempo de meditar –; murcho os glúteos e a vida – porque não tenho tempo de treinar –; medito menos – porque tenho pouco tempo para dormir –; estou mais chata e carente – porque não tenho tempo para mim –; e tudo isto é um absurdo, mãe.

Hoje, eu só me ouvia a gritar por dentro “De pé!”; hoje eu endireitei a coluna e o peso do coração foi embora… hoje eu tirei a base toda com lágrimas, mãe.

Estou lavada, mãe. E é hora, mãe. Hora de vir para mim.

Obrigada mãe… por nunca teres sido rica, mas me receberes de novo. Por me aceitares de  recomeço aos 27 anos. Por acreditares em mim, mãe. Por me perguntares, “mas por que é que estás a chorar?”… Porque para ti nunca há motivo para chorar, mãe. Porque tu sabes melhor do que eu do eu sou capaz. Porque tu tens medo, mas tu não dizes. Porque tu olhas por mim, mãe. Mesmo quando te digo para me deixares em paz.

Obrigada por não me dizeres quem eu tenho de ser, mãe. Obrigada por me teres ensinado a Verdade. Obrigada por, sem esbarrares numa vírgula de filosofia, me teres ensinado, todos os dias, que o que importa somos nós e que o medo é um absurdo.

Obrigada, mãe.

#ElasDoAvesso

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2 thoughts on “Carta à Mãe

  1. Manuela araujo says:

    Olá boa tarde,simplesmente adorei e desejo -lhe do fundo do coração,que continue com esse seu amor e gosto pela escrita!
    que o futuro lhe sorria com tudo que deseja concretizar!
    beijinhos!

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