Título? Eu Sei lá!

Escrevo sem saber muito bem o que vou dizer. Escreve-se, porque se recupera a humanidade; recupera-se qualquer coisa que, no meio dos dias, parece que perdemos de nós. Não quero escrever para publicar. Não o posso fazer. Isso não é escrever. Não é o escrever que acalma, que sossega cá dentro, pelo menos. Quero escrever, porque preciso. Porque, cá dentro, me pedem. E eu respiro melhor depois. Mais ordenada. Mais de acordo. Pelos poros todos.

Têm sido dias de lágrimas aqui. Muitas lágrimas. Lágrimas, por coisas boas. Por me lembrar de quem sou. Por me fazer as vontades.

Não podemos escrever para publicar. Não com esse fim, pelo menos. Se calhar, também por isso, escrevo à mão, nos papéis que apanho, nos lápis e nas canetas que tento trazer sempre comigo.

Não podemos escrever para publicar. Isso rompe a alma do que se diz. Das palavras que saem. O belo, o que torna as palavras inevitavelmente belas, é o facto de as escrevermos só para saírem… Não são para serem ditas. E lidas, tão-pouco. Quando escrevemos, porque temos de escrever, as palavras são genuínas. São ditas sem intenção nenhuma. Elas, as palavras que se escrevem, não querem convencer, não querem argumentar… não querem discutir. Nem sequer querem dizer que amam. As palavras, quando são escritas, escrevem-se para ativar a ordem de dentro – uma ordem inviolável –, para nos percebermos.

“Eu sinto que a alma cá dentro se acalma nos versos que canto”. É Alberto Janes que escreve, é Amália quem diz.

E foi mesmo. Foi Deus. Foi a entidade de dentro – porque, quanto a mim, somos fadas, musas e deuses dentro –, que respira em nós, sem que a ouçamos grande parte do tempo. É por isso que não somos tão felizes quanto devíamos. Ouvimo-nos pouco. Calamo-nos pouco. Treinamo-nos pouco para ouvirmos as harpas de dentro. Temos ouvidos que não estão à mostra, que não se revelam assim, no barulho. E temos bandas sonoras e pianos e cordas dentro. E ganhamos luz nos olhos. Vemos com mais claridade; às vezes, com mais clarividência (mas isso é outra coisa ou é, talvez, a mesma coisa e nós precisamos de dois termos para dizer o mesmo, em função da circunstância. Claridade em discursos mais diretos; clarividência em aceções mais esotéricas… e dividimos o discurso em compartimentos e dizemos cada vez menos com tanta técnica).

É bom acordar para nós. Acordar para dentro. O que nos acorda dentro, da letargia, que sai da cama, que sai da preguiça, da preguiça que temos de viver. Quando acordamos, as flores ganham cheiro, outra vez – ontem, parei para cheirar uma flor e a minha mãe arrancou uma e disse-me, “pega”. A minha mãe faz as coisas sem saber a poesia que traz dentro do que faz. Ainda a repreendi porque as flores não se arrancam. Mas, depois, achei melhor calar-me, cheira-la, pô-la no cabelo e mostrar-lhe como fiquei bonita. Com a flor que ela me deu, sem perceber que me apaixonava, outra vez, mais um bocadinho, por ela, pela vida que Somos e que não vemos, porque andamos distraídos –.

Quando acordamos, paramos para cheirar as flores. E já não importa que nos achem doidos. É a ordem de dentro que se endireita. É a criança, de novo, a viver. E é bom.

Quando acordamos, também gostamos de sentir os pés na terra, de limpar as mãos na terra e nos troncos e nas raízes das árvores, de sentir a suavidade ou a aspereza das pétalas, quando as flores têm sede. Sentir que as plantas têm sede, não porque vemos o prato do vaso sem água – isso é facto e, como todos os factos, é seco, é insípido; e depois, o que vemos nem sempre É -.Sentir a flor nas mãos, que também veem, e saber que nos pede água.

Como quando tocamos as pessoas. Tocamos para sentir que nos pedem água. Também, quando nos tocam, sabemos quem nos dá de beber. É uma ordem que só se conhece quando paramos para nos ouvirmos.

Mas ensinam-nos que calar é introversão. Confundimos festa, tambores, barulho e vermelhidão na pele com vida. O barulho não é necessariamente vida. As flores não fazem barulho a crescer. E os bichos, os que o fazem, fazem-no orquestrados com a Terra e o céu.

Por falar em céu… é sempre uma paz quando o olho. Uma paz que esmaga tudo o que não serve. As pessoas olham pouco para o céu. Lembro-me de, quando voltei a olhar para o céu, para as nuvens e para o azul, voltar a sentir o tempo em que andam as nuvens. E comecei a adivinhar-lhes o veludo, num escorrega qualquer que as nuvens desenham no céu… e imaginei-me lá… a saltar, a escorregar, a perguntar-lhe formas, sem que a resposta importasse… As pessoas sonham pouco, imaginam pouco, sonhar é perder tempo – “Há tanta coisa para fazer”. Tanta coisa que importa sempre mais do que sonhar… “Lá tenho tempo para isso”. Para viver? É isso que dizemos à Vida, que não temos tempo para ela.

Lembro-me de, quando voltei a olhar para as nuvens, sentir que os outros me achavam doida… Era fácil vaticinar… Ou estaria apaixonada – estava, por mim, de novo. Pela vida, pelos bichos de dentro e pelas flores que tenho dentro também –, ou faltar-me-ia alguma coisa, ou seria sonhadora, ou não teria mais do que fazer e, finalmente, outra vez e sobretudo, seria doida.

Vocês correm para o metro, que se vai repetir 2 minutos depois e eu, que olho e tento ver mais da estória que não se vai repetir – a nuvem que não vai estar lá mais, não no mesmo sítio, não na mesma forma, no mesmo quadro que os meus olhos, ainda a abrir devagarinho, conseguem ver no fresco em movimento do céu –… eu, sou eu que sou doida?

Doido, doido é quem não vive. Não consegue parar para viver, para ouvir o samba que a vida toca para nós. Faz sentido?

Não, não me venham dizer que perderiam o metro, o emprego e todas essas visões catastróficas do terror hollywoodesco onde aprendemos a narrar-nos. Não, não são, não somos barras de resultados. A flor não cresce a pensar que vai crescer mais rapidamente se apanhar aquele grão, aquela água. Ela apanha o que veio para apanhar. E cresce. Bonita e igual a ela.

Também não paramos para ver as estrelas a provocarem-nos no céu, lá em cima, tão cá dentro. Como elas brilham, todas diferentes a cada segundo, ou menos. Não sabemos o tempo das coisas. O relógio é o tempo dos homens. É a prisão que os homens inventaram para se enganarem e acharem que estão a viver – lembram-se de quando dizemos, “nem damos conta do tempo passar” ou “o tempo voa”? Esse tempo, o da felicidade, esse que não damos conta a passar, é o tempo de Ser, é o tempo que não é intelectualizado nos ponteiros. E já, agora, há quanto tempo não dizemos isso?

No tempo das coisas não há tempo nenhum. Há. Há estrelas e também há lua a provocar-nos. Temos olhado para a lua? Imponente, como uma mulher de vestido, a arrasar as escadas do céu à Terra… Desce para nos provocar, para nos parar e nos lembrar de quem somos, para nos lembrarmos que ainda sabemos deslumbrar-nos, ficar tomados pelo que é, ali, aqui, agora.

E ela deslumbra-nos a nós todos, não aos homens, nem às mulheres, a Nós, que não temos sexo, que não somos divisão nenhuma quando Somos. Quando somos, o belo é belo. E o resto não interessa.

Ajuizamos muito e vivemos muito pouco. Calculamos também muito. E, no fim, para quem pensou tanto, anuímos de mais. Confundimos deixar-nos ir com resignação.

Paramos pouco nas estações de nós. Ouvimos e apanhamos pouco os comboios de dentro. Porque não conhecemos os caminhos. E disseram-nos que os caminhos certos são os que conhecemos. Tudo o resto é ilusão e não é possível.

Porque não conhecemos. Porque não vimos. E que presunçosos que somos. O que não vemos significa exatamente que não existe? Significa só que ainda não nos demos à possibilidade de ver. De nos lançarmos no vazio. De sentirmos que os véus são, agora, só seda nas nossas mãos, que os tiram; com delicadeza, com o algodão-doce que ainda temos nos dedos. Afinal, não foi por mal que os véus não nos deixaram ver. Eles são como mães, só quiseram proteger-nos. Os véus, como as mães, não sabem, que um dia não somos mais deles… somos nossos e da vida que nos leva, que nos sopra coisas que ainda não conseguimos ouvir.

Os véus foram só a segurança, as coisas e as ideias a protegerem-nos do frio que é não sabermos. Mas já não estamos na savana. Estamos a ir para casa. Estamos em nós. E nós temos de ir ver… a nós, às janelas de dentro e ao mundo de fora, também.

Temos medo de viver. Muito medo. Agarramo-nos aos véus e às saias das mães, as verdades que achamos últimas, para não andarmos sozinhos. Não sabemos que nunca estamos sós. Estamos connosco. E depois, ouvimos e sentimos como nos beijamos dentro. Como há um amor dentro que nunca mais acaba. E aí, aí a vida toma caminhos que nunca pudemos sonhar no nosso melhor sonho – porque os véus não deixam –. Aí a vida descobre-nos mapas e rios e mares que não sabemos, dentro de nós que trazem mundos bonitos para fora.

Porque nós viemos com um mapa, cheio de desígnios, terras para descobrir e, sobretudo, tesouros. Temos medo de tesouros, da Luz que trazem… de ofuscar. Não sabemos que pior do que não ver, é andarmos deliberadamente cegos, ou, na melhor das hipóteses, com lentes foscas, como as dos óculos antigos na secretária do meu avô, que eu experimentava, não sei porquê.

Olhamo-nos pouco ao espelho para descobrir o brilho de nós. Sabemos que os nossos olhos brilham todos os dias com uma luz diferente? Sabemos que desenhos temos hoje nos olhos? Que raios de lápis e antracite se revelam hoje no castanho, no verde, no âmbar, no azul e em todas as cores dos olhos do mundo? Olhamos pouco para os nossos olhos. É lá que a alma nos faz caretas ou nos sorri; nos conta como somos bonitos dentro; nos diz que quer sair… é por isso que sabe tão bem chorar. É a alma a sair, a limpar-nos, a livrar-nos de quem já não somos.

Com amor,

#ElasdoAvesso

Mais uma coisa… Que a vida nos beije e que nos beijemos, nós a nós, todos os dias, que sintamos os beijos insaciados que ainda não nos demos dentro.

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elas do avesso - márcia augusto

#ElaDoAvesso

Foto: Paulo Moura

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One thought on “Título? Eu Sei lá!

  1. José Augusto says:

    Bom Dia
    Muitos parabens pelo teu belo e sentido de vida do teu texto/escrita ,eu sei la mas é divinal
    Beijinhos do teu trengo EEhh

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