No vestido verde ou no vestido sem costas

Sabias que tínhamos de ir. Que desonrávamos o tempo. O que tu gostas de chamar tempo sem tempo. Sempre foste um bocado louca e esotérica – na altura que te conheci, demasiado, demasiadamente louca para te perceber. Mas era isso que me chamava em ti, essa coisa de não te perceber, de não te saber e, sobretudo, de saber que nunca te iria ter. Que tu eras tua e que te partilhavas comigo. No dia em que quisesses ser minha, não eras tu… Tu, Grande, apesar do teu tamanho físico pequeno e dessas ancas que me levavam à loucura.

Lembro-me de te ver a dançar, naquele vestido sem costas… Deixavas-me doido – por todos os motivos –, quando saías sem soutien; eu tinha de te ver do bar, gradeado pela pedra fria, suja, peganhenta dos shots e dos whiskies que as mulheres e os homens iam virando… Tinha de te ver ali, solta, livre… Bem à tua maneira… Era o momento em que me começavas a ensinar sobre ti e, sobretudo, sobre a Vida… A ensinar-me sobre como eras livre, como eras tudo – como és… Tanto! -, a ensinar-me que amar-te era mesmo soltar-te, deixar-te Ser. Havia dias em que querias ser minha… Em que querias o meu colo, em que querias que te abraçasse… Nem sempre te abriguei como gostaria ou, mais ainda, como tu esperavas… Tu própria te guerreavas com as tuas expectativas… Eu sabia que, quando tu precisavas de ser minha, não eras tão tu… Ou, provavelmente, eras tu na mesma e eu não sabia ver-te assim. E vinhas envergonhada para os meus braços… Falavas-me dos pugilistas e das cordas… E dizias-me, com vergonha e lágrimas, que também precisavas de ir às cordas e de alguém que te segurasse a toalha, às vezes. Nem sempre te segurei a toalha, eu sei… Acho que me deslumbrei com o boneco forte que tu és. Acho que nunca te soube amar frágil. Será que te soube amar? Será que te soube? Abandonei-te, muitas vezes, à tua sorte… O que fizeste nessas noites? Nesses dias? Adivinho-te e tenho medo. Do teu calor, do teu carisma, dessa coisa de mulher do mundo que arrasa entradas de bares e ruas e hotéis e aeroportos.

Também te dizia, às vezes, que me punha a pensar e não sabia o que fazias comigo. Eu era só um empregado de bar. Tu dizias sempre que não somos profissões e que isso eram rasteiras sociais… Começavas a falar sobre as tuas filosofias e as tuas ideias e eu apaixonava-me mais um bocadinho. Eu não percebia muita coisa, mas o Amor, o amor que tu tinhas nos olhos quando me falavas do mundo e das pessoas… Esse eu entendia. Acho que era por isso que te deitavas comigo. Porque eu via-te mais do que os outros. Não percebia muitas palavras caras que tu dizias, falavas bem complicado até, mas percebia o teu amor, a tua generosidade face a todas as coisas… Essa tua maneira de amar o mundo, até o que te fazia chorar… Essa tua maneira de dizer que o perdão não existe, porque o perdão é achar que algo está certo e achar que está certo é presunção. O que existe é aceitar. Aceitar que estamos tristes, mandar para o caralho ou simplesmente calar – o teu silêncio matava-me; aquele de semanas… Um de quase um mês (o que fizeste nessas três semanas?) – e esperar que passe. E passava. Às vezes. Só não passou essa mania de achares que te deixava sozinha – será que deixei?

Eras demasiado corajosa para me deixar… Mas, como um dia me disseste, eras um pas de deux de coragem e medo… Coragem de me deixar… Deixar-me era assustadoramente fácil para ti… seguir em frente… Dizer-me que gostavas de mim, que me querias, que também tu precisavas de mim, às vezes – uma vez que fosse – era arrancar-te o fígado. Foste preparada para vencer… Em tudo, em absolutamente tudo, tu entraste para ganhar. E ganhaste. Aos poucos, foste percebendo que te perdias a ti… À tua verdade. Qual foi a tua verdade? Quem tu és? Acho que nunca me vais dizer… E acho que me deixas para ir encontrar respostas. Nunca gostaste de procurar respostas em equipa… Sempre te deste à incoerência também… No fim, no chão frio das coisas, disseste-me que o companheirismo te tinha falhado, mas alguma vez me quiseste para parceiro? Alguma vez me deixaste entrar? Creio que agora é tarde para respostas…

Por mim, quero deixar-te assim, no vestido verde ou no vestido sem costas – não sei de qual gosto mais –, a dançar no meio de tudo, da pista e do coração dos homens – dos espanhóis, dos italianos e de todos os que te queriam levar para casa –, enquanto, por entre eles, pelas mãos que te tentavam tocar, tu procuravas os meus olhos, sorrias e dançavas, como se estivesses a dançar para mim – não estavas? –; só que eles não sabiam. Foi sempre assim o amor, o nosso, de segredo… Tão guardado que, às vezes, nos esquecíamos dele, de o tirar para fora, como uma carta na manga, reivindicar-lhe a magia de volta… A magia da mulher que tu és, e de que nós fomos um dia… Mas os mágicos foram embora… E, como dizes, é a hora.

Só mais uma coisa… Danças para mim? Só mais uma vez?

#ElasDoAvesso

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P.S.2: AH! SE PUDER SER, COM A HASHTAG #ELASDOAVESSO QUE NÓS SOMOS BUÉ MODERNAS❤

 

márcia augusto elas do avesso

#EladoAvesso

 

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2 thoughts on “No vestido verde ou no vestido sem costas

  1. Manuela araujo says:

    Parabéns pelos lindissimos textos que tão bem escreve,tenho ficado fascinada por cada um deles e fico sempre na espectativa pelo que vem a seguir,adoro este tipo de leitura!
    Desejo-lhe tudo de bom e toda a sorte e que consiga alcançar todos os seus sonhos pela vida fora,beijinhos!

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