Da cura

Ainda lhe sofre a ausência dos passos, dos sons, dos cheiros… daquele sotaque envolvente e grotesco que, no início, a envergonhava. Da rouquidão dele, quando se ria alto. Porque ele, como ela, queria chamar a atenção. Ele sempre quis chamar a atenção. Mas ela amava-o nisso também.

Desde manhã, cedo, que estava com saudades dele… deles. E tinha vontade de o inventar outra vez. Não na vida. Só na cabeça. Na vida ele foi. Foram embora. Os dois. Mas ainda lhe dói. É uma dor pequenina, envergonhada no peito… que, ora lhe pede que a respire fundo para que passe, ora lhe pede que a viva…são as duas, talvez, o verso e o reverso da moeda do esquecimento, de os mandar embora.

Ainda lhe dói. Não ele, mas o que foram, ou a história que a cabeça lhe conta do que foram. Já lhe disse que foram felizes? Não, ela nunca lhe disse isso. Assim… Que foram felizes. Ela foi feliz com ele, mas nunca lhe disse – fui feliz contigo, murmura-lhe a cabeça e o remorso do que já não é; o remorso e a culpa são sempre uns grandes filhos da puta.

Também não lhe disse que está triste e que lhe sente falta… sente. Ela caiu, ou sabe-se lá, andou, foi o que teve de ser, outra vez nos mesmos erros… ou, desta vez, o erro nem foi tão grande como os das outras vezes; é agora que ela tem a coragem de os chorar… A ele e aos outros todos que não chorou e de que foi embora. Passou a vida a ir embora. Era fácil resolver tudo assim. Num desapego que ela inventou. Num fechar os olhos ao que ainda não tinha disponibilidade para ver. Foi sempre muito corajosa para se ir embora. Foi sempre mais fácil arranjar antídotos e distrações… outras camas, às vezes. Outros corpos, outras vozes a suspirarem-lhe coisas que ela, sem saber, precisava de dizer a si própria, a si mesma, e cuja responsabilidade, a responsabilidade de cura que as palavras lhe trazem, transferia para os outros.

Era mais fácil fazer de conta. Adiar a dor noutros carros, noutras salas de jantar, noutros restaurantes… Sempre gostou da forma fácil como o sumptuoso lhe cantava o esquecimento do que ainda tinha para curar. Era fácil esquecer-se da cura com champagne.

Como quase todas as mulheres do novo século, não chorou quase nenhum homem da sua vida. Não porque não tivesse nada para chorar. Tinha muito. Mas o orgulho era maior do que isso. Ensinaram-lhe que não se chora por homens. Não lhe disseram que não é pelos homens que se chora, é por ela mesma, é por si. Por nós todas. É por ela própria que tem de chorar. Para lhe limpar a mágoa, como se as lágrimas limpassem as feridas que a pele não mostra. Estão dentro, profundamente dentro, e como uma menina que esfola os joelhos quando cai, ela e as mulheres também têm de chorar. As mulheres também fodem os joelhos de vez em quando… e depois?

Ensinaram-lhe a força. A força que não é força nenhuma. A força ensaiada de não sentir. O ensaio da vida. Isso é força? Parecer que vai nos tamancos da vida, quando o peito grita e o estômago está cheio de silvas?… Para onde foram as amoras? As amoras que ela tinha e que tem dentro?…

Sempre gostou dos frutos silvestres… do segredo que as florestas lhe pareciam querer contar. Refugiava-se lá… passeava por lá, arranhava-se toda – mas, dessas vezes a sério e bem visível –, e sangrava sem vergonha… corria para os braços da ama ou da avó e pedia curativos. Outras vezes, ela própria se aventurava e inventava betadines ou mercúrios… Sujava tudo e era bem mais difícil do que quando a avó, como qualquer avó, preparada para ser enfermeira, recortava gazes para lhe envolver os joelhos. Hoje, a avó não existe mais… e ela aprendeu, foi aprendendo, que as feridas se escondem e, se possível, não se curam… porque isso implica reconhecer-lhes necessidade de cura… e, bem assim, reconhecer a doença, a doença que versa sempre a falta de alguma coisa. A falta sempre lhe fez confusão. Ensinaram-lhe, ou ela aprendeu, que não se pode ter falta de nada, que falta é fraqueza… e as mulheres não podem ser fracas.

No passado, as gazes que curavam; hoje, os quartos, os restaurantes e as coisas que não curam nada da pele que falta.

Mas vai passar. Deixou de ir a restaurantes, de beber champagne daquela maneira, de entrar nos carros e, acima de tudo, de fugir dela. Enfrentou-se no espelho e disse-lhe:

– esta sou eu… nua e a sangrar. Não me abandones mais –. Recebeu-a e prometeu-lhe que, a partir de então, eram as duas Uma… que aquela era o amor da vida dela, o amor a precisar de ser resgatado, o único possível… o dela, por ela…

– Como é que isso faz? Vamos descobrir, agora que Somos Uma, agora que deixaste a construção dos dias, das poltronas, do dourado e do sexo inventado nas paredes que não são tuas; nos quartos que não são para ti; vamos devagar, mas vamos. E o que importa, o que importa é começar.

Era tempo de assumir que afinal não estava nada resolvido. E como achar que se resolve tudo?

#ElasDoAvesso

P.S.: GOSTASTE DESTE ARTIGO? PARTILHA-O, POR FAVOR:) AJUDA-NOS A CRESCER😉 #ELAS, NÓS TODAS AGRADECEMOS MUITO 🙂 OBRIGADA POR ESTARES CONNOSCO!

P.S.2: AH! SE PUDER SER, COM A HASHTAG #ELASDOAVESSO QUE NÓS SOMOS BUÉ MODERNAS

Recebe a newsletter d‘Elas do Avesso aqui 🙂

Partilhar
0

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *