Mulheres, Masturbação e Latim

Hoje vamos falar de um tema que é caro às mulheres. Às mulheres todas.

E, se me faltar o lirismo, perdoem-me, porque eu vou chamar as coisas pelos nomes.

Escrevo com Bach, na tentativa de amenizar as coisas. Amenizar porquê? Que tique ocidental, este de fazer parecer as coisas mais “clarinhas”, mais azul-bebé (há azul de bebé e azul de adulto?)… Essa coisa de simular uma realidade abaixo da realidade… mais “desenhadinha”, mais barbie, mais videoclip, mais… Mais qualquer coisa que não os ofenda. Tudo ofende os ocidentais. E os islâmicos é que são umas bestas (?). Mas isso fica para outra altura.

Retomando, sem nunca termos saído do tema, na verdade, ó “arrumadinhos”, um tema que nos é caro. A mim, talvez, por muitas razões. Talvez, porque o aprendi à custa de lágrimas, repressões de fora, que tornei minhas. Não, não estamos sob o domínio dos outros. Até na repressão e no medo, estamos no nosso domínio; na escolha da treva, do medo, ou do amor, da aceitação de quem somos. E isto de viver é abraçarmo-nos com a merda e o brilho estelar que somos. E que coisas lindas que somos.

Hoje não vai haver ternura, escrevia eu, há uns dias, quando rabiscava as primeiras ideias sobre isto… E agora recupero… Claro que vai. A ternura de nós, a ternura de sermos quem somos e de nos assumirmos como os animais que também somos. E, depois, nem tudo o que é terno tem de ser amolecido.

Também sei que o meu pai e a minha mãe não vão gostar nada disto, porque, no imaginário louco deles, os filhos, as filhas, particularmente, são sempre virgens e guardados no altar da candura. Mas eles, no fundo, sabem… Cândido é o coração. O resto é para ser assumido: vagabundo, duro, áspero, humedecido, suado e, se possível, bem amado.

Mas o que me apoquentou a escrita, esta coisa de escrever – mesmo que depois de 16 horas em pé, com o corpo a pedir, “por favor, deita-me agora”…eu vim sentar-me, resistir-lhe, dizer-lhe “espera um bocadinho, porque isto tem de ser agora”… Há uma urgência qualquer que estou a tentar desaprender… Mas para já, é assim que estamos -, foi outra coisa…

Apanhei duas mulheres lindas na rua… A conversar. Não eram portuguesas, o que me deixou ainda mais intrigada. Mas eram ocidentais, claro. De um Ocidente envelhecido, fosco, enferrujado, simulado, traidor.

– “Olha-me para essas unhas… Como é que te masturbas?”. A primeira, meio que jocosa, a encerrar sarcasmo, nas unhas e no resto.

– “Estás louca? Mas achas que eu me masturbo? Eu não sou como tu. Eu tenho marido”, remata a segunda.

Isto aconteceu. Noutra língua, mas aconteceu. Não há aqui construção absolutamente nenhuma. E eu soube, nesse momento, que tinha de escrever sobre isto… Que tinha, quase que o dever axiológico, de usar o que o universo me deu para ir a vocês, escrever, para vos contar sobre isto.

Mas será que ainda não paramos para pensar no assassínio que versamos, durante anos, todos os dias,

nas crenças limitadoras de que o sexo, a sexualidade satisfeita é um “other’s business” deslavado, descaracterizado, assustadoramente despreocupado, violentamente desrespeitado?!

Não percebemos como nos desrespeitamos a achar que a satisfação sexual é algo que nos é provido pelo outro? Meninas, quando vos aparecer uma nódoa (não há nódoas, há falta de química… se quisermos, falta de paixão… há ir para a cama porque sim. Aqui, não vai dar, lamento. No máximo, vai ser uma heteromasturbação), o que vão fazer? Não serve. O quê que não serve? O outro? Deixem-me rir.

O que não serve, o que não pode servir mais, é acharmos que uma sexualidade plena é uma responsabilidade dos namorados e dos maridos… Como querem ser bem fodidas se ainda não se sabem foder? Expliquem-me, porque eu estou curiosa. E desculpem-me, mas eu fico nervosa com transferências de poder.

Sim, porque o que vocês fazem, ao dizer, sentir, coisas como “um homem tem de me satisfazer sexualmente” ou “um homem tem de me amar incondicionalmente” ou “um homem não sei o que mais”,

que as vossas loucuras romancistas inventam – essa transposição abnegada, alheia à responsabilidade do amor-próprio, dos romances de Camilo Castelo Branco –

só criam, continuam a criar, a crença doentia de que o outro serve para nos satisfazer.

E acreditem no que vos digo, nas lágrimas que já me custaram estas palavras e isto que vos escrevo… Ninguém, absolutamente ninguém, nos vai satisfazer até que nós próprias saibamos fazer isso por nós mesmas. E, aqui, verso bem mais, bem mais do que sexo…

Porque isso, aparentemente, as pessoas passam bem na escassez.

Como podem? Como se atrevem a roubarem-se, todos os dias, o amor-próprio que a carne vos pede?… A vossa carne. Acham que ela está com saudades do vosso namorado? Deixem-me rir. Outra vez. A carne tem saudades vossas, sim, de vocês, da mulher de seda que vocês são dentro. Já a conhecem? Já se conhecem?

Bom, mas continuando com a masturbação – ultrapassamos um tanto a barreira para falar sobre algo que a tem, o Amor de nós, por nós. O primeiro e único possível. Depois, depois vem o dos outros. Lá iremos, um dia.

Recuperando, então… “Tás louca? Mas achas que eu me masturbo? Eu não sou como tu. Eu tenho marido”… Arrepio forte na coluna que se ergue, todos os dias, mais um bocadinho.

Não nos lembra aquela consideração velha, achatada, de língua arranhada, de sabor a seco, que a masturbação é coisa de solteiras ou, para o bem delas, de loucas, de taradas sexuais? Quanto a isto, já ouvi dizer coisas como “ela é um bocado ninfo… masturba-se e tudo” (adoro o “tudo”).

Depois, podemos antecipar, também, nesta doce e esclarecida afirmação, que a masturbação é uma coisa de mal amada – “não sou como tu! Tenho um marido que me come.” Pois. E quando o marido for embora? Deixa-me adivinhar, vais substituí-lo por outro… Pelo encontro manhoso, marcado às três pancadas no messenger ou no whatsapp, pelo café, pelo copo… Por essas coisas todas, na penumbra do ato de Ser, que os humanos adoram… Fingir a casa de bonecas e as histórias hollywoodescas… essas são aceites, têm glamour… são protagonizadas pelo Clooney e pelo cânone de beleza meio de cabide – que nós, doces mulheres, também acolhemos.

No fundo, a masturbação é, na melhor das hipóteses, uma coisa de homens.

Parem, por favor, parem.

Ou melhor, comecem. Por favor, comecem.

Comecem a amar, a vocês. Amem-se – forma reflexa do verbo amar, reflexo que vem do latim do latim reflexus, voltado sobre si. Ou, mais ainda, do latim reflexum, particípio passado de reflectere – voltar para trás, recurvar –.

Podemos ir mais longe… Do prefixo “re”, que significa repetição, recuar, que se une a flexum, partícipio passado de flectere, que é curvar, dobrar… Então, recurvar, voltar a… A nós e repetir.

Repetir o que a sociedade e os homens nos pediram que esquecêssemos… de curvar sobre nós, de voltar a nós…

Todo um exercício de amor em reflexus.

Amor, por sua vez, do latim amare, radicado no indoeuroeu, am ou amma, o termo infantil para a criança chamar a mãe, pode invocar vocábulos ligados a cuidados com as crianças.

Pois bem, se a forma reflexa do verbo, nos pede um “recurvar”, um voltar a qualquer coisa e Amar pode estar ligado a cuidado com crianças, podemos subentender, numa loucura esotérica da linguística que amar-Se é voltar-Se para a criança, é cuidar da própria criança, como a mãe, “amma”, cuida da sua. Finalmente, como fazer isso com os outros, ou esperar isso dos outros, se ainda não o sabemos fazer connosco?

A masturbação é só (como só?) uma parte disso. Levar-nos à casa de banho, alimentarmo-nos agora e não daqui a 10 horas, pedir para sair de uma reunião – vocês sabem que eu adoro reuniões – para ir à casa de banho, não é mais do que cuidar das nossas necessidades básicas, como uma mãe cuida das necessidades básicas de um bebé… ele não consegue, ainda, sozinho, dar conta disso tudo…

Desta feita, lamento dizer-vos – não lamento coisa nenhuma – que o “sexo-próprio”, a vontade de si, é tão básico como ir à casa de banho ou comer. E como o universo é sábio, não nos deu tanta vontade de sexo, como deu para comer ou ir à casa de banho, porque aí o mundo seria uma sinfonia de orgasmos – e que bem que se estava, se calhar – e não faríamos outra vida do que nos comermos insana, vil e incessantemente.

O que vos quero dizer é…Não, não façam isso…

É tão grave depender de alguém emocionalmente ou mesmo financeiramente (acho que esta já não está tão na moda, porque as gajas confundiram independência e emancipação com ganhar muito dinheiro), como depender sexualmente.

(pronto, lá vem a puta com o latim)

Depender vem do latim dependere, que significa “estar preso a”, “estar pendurado”. Já o prefixo “de” sugere um movimento de cima para baixo, face ao pender, pendere.

Pois bem, estamos a pendurar uma coisa, que é nossa, a fazer pender, a andar ao sabor do movimento (externo) do que o segura, sabendo, ainda por cima, que é num movimento de cima para baixo. Ou seja, penduramo-nos em algo que nos vai levar de cima, de quem somos, para baixo. Foda-se. Faz sentido?

É por isso que defendo tanto o latim nas escolas. Vamos deixar de pender?

O sexo é teu. A satisfação sexual é tua. Quando a fazes depender, “pendura-la” num “de” que a sustém, que faz um movimento de cima para baixo, vais coloca-la à mercê de um movimento que te puxa para baixo, quando não corre bem ou quando não está lá para a pendurares.

O teu amor, o teu sexo, isso tudo é teu. Guarda-o, cuida-o, como a “amma” indoeuropeia cuida do bebé. O único amor inexpugnavelmente teu, o único, é o teu por ti própria.

#Amando-vosMuito

#ElasDoAvesso

P.s. Não me estendi pelo étimo latino de “masturbação”, porque, tal como o significado de amare em latim, é muito difícil e pouco consensual o que se diz sobre masturbatio. Se sobre o amor é preciso fazer um esforço e ir ao indoeuropeu, no caso do étimo masturbar, é preciso limpar toda a herança cristã que vem depois. Vejamos.

Se procurarem pela raiz latina, vão ver, por exemplo, “mas”de manus, “mão”, combinado com turbare, que significa “sacudir, chacoalhar, mexer”; mas também vão encontrar a raiz de manu stuprare, que significa violar com a mão.

Stuprare, por sua vez, relaciona-se com stupere, que significa ficar aturdido, que depois vai dar origem a “estúpido” em português. E é incrível como nas palavras básicas, o significado é tão claro e nas que nos revelam sobre a condição humana, as coisas complicam em função de interesses maiores. Bom, o que eu acredito é que, tal como muitas outras coisas, o catolicismo velho segregou e manipulou conhecimento, logo após a queda do império romano, pelo que muita coisa foi seguramente adulterada. Não me parece que violação tenha o que quer que ver com masturbar, desde logo porque “estupro” vem de struptum e do grego, se quisermos, stypto, que significava a relação sexual com menores de idade, sem consentimento.

Mais tarde, em latim, struptum viria a significar desonra, vergonha pública e, em sentido jurídico, desonra causada por violação, ou seja, emprego da força face a um ser mais fraco – o que nada tem a ver com masturbação.

Deixo-vos esta nota, talvez, para trazer um bocadinho mais à luz aquilo em que acreditamos cegamente, sem nos pormos em causa, sem questionar o que nos dizem, o que vemos, o que lemos, e, sobretudo, o que as autoridades, como os três Poderes – Media, Político e Religioso –, nos detêm em verdades, onde, durante séculos, tentaram esterilizar pessoas. A ditadura é muito mais do que um regime. A ditadura pior é aquela em que submergimos sem perguntar porquê, como se vivêssemos à superfície da luz, uma luz construída. Mas sobre isso falamos depois.

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4 thoughts on “Mulheres, Masturbação e Latim

  1. José Augusto says:

    Olá Bom Dia.
    Excelente tema bem desenvolvido (até demais penso eu) mas porque será que os teus Pais ficariam Chateados.Nada disso digo euuuu!
    Beijinhos do admirador especial

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