Do fundo, do fim e de nós também

Às vezes, não sei como te responder… a esses textos que me escreves no vago dos dias que passam… que me assaltam a rotina a que, aos poucos, me vou habituando… À diagonal e ao cristo que agora posso fazer na cama… sem ti a reclamar… Agora que tenho a cama toda. E tenho tudo o resto que ainda destilo. Que vai passar.

Queria responder-te… Detive-me na abordagem… como se começa por responder a estes textos que não são mais do que cartas do início do século XX?

“Olá” pareceu-me frio, de um distanciamento amedrontado… como só dizer-te “olá”? Também tardei na resposta, porque me ensinaram a não ser levada por emoções e pelo aguado dos olhos… por este coração que ainda estremeces. Inevitavelmente, percebi que não há horas certas… E, por isso, ou errava na hora de te responder ou não te respondia.

Achei melhor responder-te, mesmo sem certezas do certo. Isso há? Porque acho que pecámos, também, pelo silêncio, simulado, amedrontado, do que sentíamos… mais do que pelas palavras duras, pelo choro e pelos braços no ar, a discutir com o mundo… Perdemos os dois. No fim. Perdemos o tempo que podíamos ter vivido. Esse amor de frenesim, que nos prometemos e que, por vezes, nos falhámos com o silêncio, com o trono abandonado, o nosso. (…)

Percebi, depois, no decorrer do que te escrevia, que não sabia responder-te… Que não estava, sequer, preocupada com isso. Queria escrever. Para ti. A forma mais límpida, para mim, de falar… escrever.

Indaguei, também… E será que queremos respostas? Ou ainda temos medo delas? Ou, no limite, as respostas não interessam para nada, são só necessidades da cabeça, de um ego social que ainda precisa de tudo “arranjadinho”, combinado, “certinho”, no preto e no branco, que não somos, não podemos ser.

Eu não sei a verdade. Ainda. Sei que, por mim, quero guardar-te vivo. Podes doer-me nas horas e nos braços…

Mas guardo-te vivo… de olhos cheios, a censurar me o vestido. Porque eu, no fundo, achava piada ao teu militarismo inventado com a minha roupa – talvez, porque não te ligava nenhuma.

Agora, que nos deixámos, escrevo-te da varanda… quente, a prometer o ar seco, compensado pelo céu de um azul escondido que nunca mais acaba.

Aproveitámos pouco esta varanda. Falámos pouco ao cair da noite. Por muitos motivos. Mas de nada nos vale dar referências de uma vida e de um universo inelutáveis. Eu preferia o dia, a claridade, o terminar do dia no abraço que antecede o crepuscular das vontades vencidas. Tu ainda gostavas da madrugada, que, para mim, justa ou injustamente, era a vida simulada, a felicidade inventada no whisky – fachada de que fui militante- .

A madrugada dos sonhos escondidos, dos sonhos dos cobardes… que, por falta de coragem e de lealdade com os sonhos, se abandonavam às horas e ao álcool, que lhes consumia a dor inexorável do dia, acalmado com eyeliners e engates no bar.

(…)

Afastámo-nos irremediavelmente. Doíam-nos os contrastes, as costuras apertadas do que já não nos servia. As sociais, as inventadas, talvez…

Porque longe do mundo, das convenções sociais, dos medos e das roupagens da matéria, nós eramos até bem entendidos. Importavam-nos a verdade e os sonhos. A liberdade. Éramos livres, apesar de tudo.

Chorávamo-nos frente a frente. Não havia televisão ao jantar. Dávamo-nos aos olhos, falávamos sobre nós e sobre o irremediável fim que a vida, um dia, nos daria. Lembras-te? Guardo os teus olhos aguados de verdade e de amor. Tu amaste-me muito. Eu sei. Eu também. Ama-se para sempre. Quando é amor. Como este. Ainda me custas… Mas isto é o que a vida quiser. Porque nós riscamos muito pouco aqui, quando o universo está no barulho do tempo. O que me alenta é que conservo sempre o desejo de te ver Feliz. Todos os dias tento ver uma imagem nítida de ti, Feliz. Mesmo que longe, nas camas que não sei.

Também sei que nos largámos porque eu já não te fazia Feliz e tu já não me fazias Feliz (mas as pessoas servem para se fazerem felizes? Não servem para se fazerem infelizes, pelo menos). E isso é, talvez, a maior prova de amor que tivemos, eu e tu, na vida.

Custas-me, às vezes. Mas amar-te é ver-te livre a ser. E eu já não era feliz com o que tu eras… Com as diferenças, as das escolhas.

Creio que te amei com tudo. Com a besta que foste e a doçura que és. Quando percebi que até os erros ortográficos não chegavam a ter de ser perdoados, eram aceites, conheci o amor. O que contava eram os teus olhos. A verdade deles. E o amor que me prometeram, e que mo cumpriram, bem sei .

Sabes, reparei agora que os vasos estão finalmente a crescer. Agora que os mudei de sítio. E faço um paralelismo connosco. Agora que nos mudei de sítio, de história, cenário e de palco… Agora que nos deixo no vazio… para que possamos crescer.

Sem vergonha, terminei a dizer-te, na altura, que gostava que isto fosse só mais uma partida do universo. Só mais uma… daquelas que nos separavam para, depois, a vida nos receber com mais brilho, de novo.

Daquelas em que voltavas a escandalizar as velhas do metro com a forma como me apertavas tudo por baixo do vestido.

Hoje, já não gostava nem espero nada. Quero-me nova, a seguir com o mundo. Assim, como eu estou… de mãos vazias, cheias de vontade do novo… do que o céu me promete… E fecho a porta. Dou os pés às escadas que desço, que me levam ao mundo. E vou com as asas que eu sou.
Ficam coisas por dizer. Ficam sempre.

#ElasDoAvesso

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