Do exercício de Ir

Dizem que temos de ir… Ir para onde, se não sabemos de onde partimos, por que largámos? Sabemos, mas esquecemo-nos, às vezes, porque não podemos lembrar-nos de tudo.

Escrevo-te dos degraus da saudade, da história que me contei. Escrevo-te sem sentido… E nem sei bem a quem escrevo. Escrevo. Deve ser isso. A alternativa que arranjei às coisas. A solução que me criei. Escrever.

É como que parar para ouvir quem não ouço as vezes que devia. O “dever”, esse ditador secular. O que é o “dever”? Por que devemos? O que devemos?

Não me sinto inteira… Flutuo numa realidade que aprendo de novo, num mundo que me recebe de novo; ou é só o mesmo mundo que revisito com olhos novos… Ou com os olhos que estiveram sempre aqui, mas que eu não usava para ver. Porventura, tinha medo do que me tinham para mostrar.

E ainda tenho medo. Ainda me acanho e me aninho toda num ventre que não sei. Tenho medo do que não sei e do que vem, seguramente vem. Acho que é isso.

Temos sempre medo do novo. Até os heróis e as heroínas, que eu também sou.

Temos sempre medo…

Quando a decisão de mudança promete o novo, um mar fundo irremediável, inelutável, que não aceita mãos humanas, que faz o que ele quer…

Não vemos pedras, nem peixes prateados, nem nada precioso… Também não vemos nada que nos meta medo. Essencialmente não vemos, não nos é permitido ainda… e isso dá nós cá dentro e na cabeça, numa cabeça social, treinada para “saber”, para ter certezas. Quando aceitamos não saber absolutamente nada, temos de fechar os olhos do alto, bem de lá do alto, e saltar… Saltar sem saber o que há lá em baixo ou lá em cima, sem saber sequer, se vamos desafiar a gravidade e, em vez de descer, vamos subir… é não saber. E não saber arranha o peito. Mas também nos descobre as asas.

(….)

Ou então, é uma vela. Uma vela que se iça no barco que também somos, um barco que quer saber mais, que sabe que há mais para além do que vemos.

Mas é quando nos damos conta de que já começámos a viagem, que o peito aperta, que o estômago revolve; e respiramos, respiramos fundo para sentir que estamos cá, que é tudo verdade.

Ainda me procuro. Acho que me vou procurar para sempre.

Ainda me perco, às vezes. Perdermo-nos é, talvez, necessário à tomada de consciência de que precisamos de encontrar um sentido. O nosso. Já me perco mais comigo, porém. Só comigo. Já aceito melhor as minhas viagens, sobretudo a solidão, ou a companhia da alma que, às vezes, ainda me foge, ou eu fujo dela. Aceito não ver. Mais um bocadinho, todos os dias. E ir, ir na mesma.

A ação de viajar é sempre muito nossa. Viajar é ver com o que há de dentro, às vezes, olhar por dentro para, depois, olhar novamente e ver melhor. Isso de olhar só se faz sozinho – dois olhos e uma alma no peito chegam; às vezes confundem-se, discutem, competem…

mas a alma, a alma cala-se, não retalia nada, olha só… Olha com batimentos cardíacos e isso, isso é o mais próximo que conheço da Verdade -.

(…)

Há tanta gente aqui… Tantas pessoas que se vivem à esplanada, ao crepe, ao sabor, ao imediatismo do prazer, que lhes esconde quem são.

A procura da distração imediata que as esconde delas mesmas.

As t-shirts são garridas, os cabelos exibem gritos últimos do catálogo… Mas os olhos são pouco vivos. As velhas mancam, como se mancassem a preguiça de viver e a vontade de irem embora… Reivindicam o que acham certo, o tempo que passa e a morte que ele traz.

As pessoas vivem mortas, antes, muito antes de morrerem.

(…)

Ainda é estranho ver-me daqui, deste lado que eu escolhi. Legitimar-me ser o que eu Sou. É estranho ser Feliz. É como que uma readaptação, uma necessidade egóica de legitimação do corpo – que, agora, goza de um despertar biológico-, da escolha e do desprendimento. Fomos ensinados a sermos sérios, pesados, ordenados, regrados, infelizes, enjaulados nas celas sociais, no “suposto”, no expectável, nas datas para sermos felizes – os fins de semana e as férias -; como que preparados para vivermos ansiosos e com medo.

Ensinaram-nos que o tempo para nós e o ócio têm hora. E, se antes, nos diziam que temos de ter família e filhos antes dos 30, agora dizem-nos que temos de traçar um caminho e de “ter uma carreira” – acho isto da “carreira” delicioso -, até aos 30 para, aí, casar e ter filhos até aos 35… Depois disso, dizem que é perigoso. E, sem notarmos, aprisionamo-nos… permitimos que a TV, as revistas, os jornais, os locutores da manhã, o Facebook e o Instagram, nos digam quem temos de ser.

É estranho desprender-me disso. É revelador também. Sobretudo isso, revelador…

A forma como nos habituamos a precisar das regras do mundo para nos sentirmos “normais”.

Mas reaprendo-me. E sei que vou para o que a minha mente, confinada até agora ao que me disseram para Ser, nunca imaginou ser possível. Vou. Acho que isso é o mais importante. Começar a Ir.

Certa de que há um Cosmos, de que ainda desconfio, a olhar para mim, a velar a criança que sou.

#ElasDoAvesso

Márcia Augusto

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