Da colher de Saramago e do Amor de chuchar os ossos

Não lhe disse, mas ela foi muito feliz com ele… Não lhe disse assim, como as coisas merecem ser ditas… Com verdade e como são, o mais próximas possível do que a língua nos permite… Com construções diretas e enfatizadas, cheias do verbo “ser”, o mais poético de todos os verbos, mesmo que no pretérito perfeito da vida… Fui feliz contigo.

Assim, simples assim.

Isso bastaria para que o salvasse do marasmo, do vinho e do bagaço com que iniciava as noites… Aquilo era um tique de velho a que ela se foi habituando a gostar… era ele, bêbado, quase, se não totalmente, dependente do álcool que o salvava… Ou que lhe dava a impressão de estar a ser salvo; pelo menos até às 4 da manhã… depois disso, havia um encaracolamento soberbo e decrescente, de uns olhos que já não viam nada… de umas mãos sem nada e que, por isso mesmo, procuravam corpos vazios, corpos que não lhe pudessem prometer mais do que um húmido quente, para que ele submergisse durante o pouco tempo que o Tempo lhe permitia não se lembrar dela.

Mas ela não lhe disse… Olha, fui muito feliz contigo. Sim, mesmo que a chamá-lo de imbecil e de monstro… fui muito feliz contigo. Até na forma como ele lhe comia os ossos que sobravam ou os que roubava do prato dela… “Não sabes comer isto”, dizia-lhe ele. Ela, de facto, não sabia comer com as mãos.. Já depois de o julgar e de ter vergonha dele, já quando o amava sem lhe dizer, ela tentava… tentava ser rude e levar os ossos à boca, mas “a comida não lhe sabia bem”; dizia-lhe, de olhos rasgados, entre o oriente e o africano, de que descendia – as ancas dela nunca o enganaram -… Os olhos de um esverdeado de veludo, sublinhado pelos lábios pintados com batom de um vermelho impossível, a simular-lhe o coração na cara.

Os lábios dela pareciam-lhe sempre um coração pequenino… daqueles que se desenhavam nas mesas da preparatória, quando se deixavam declarações para o rapaz da turma seguinte.

Ela, por exemplo, no seu sexto ano, descobriu onde o rapaz por quem se apaixonara perdidamente, se sentava, para lhe deixar lá umas “dicas” de amor, a dizer-lhe que gostava dele… nunca foi muito boa a declarar-se… achava isso meio de fraca. Ela era imponente; isto é, ela sugeria, ele que viesse.

Descobriria, mais tarde, longe das lições de amor das telenovelas, que isso é dar poder ao outro… descobriria que teria de dar murros na mesa e dizer que os amava, que os queria para sempre… mesmo que Buda e os filósofos todos dissessem que isso era errado… Nunca o fez, mas, pelo menos, começou a assumir para ela que os amava perdidamente… e pareceu-lhe um recomeço justo.

Quando ele lhe fazia isso dos ossos, ela, como que a precisar de validar o amor naquilo – nos ossos que ela não sabia “chuchar” -, comparava o ato dele, tão vulgar, com a colher do Memorial, a colher que Baltasar e Blimunda partilhavam, a comer a sopa que ela preparava. A colher que simbolizava a partilha, a ausência de “nojo” pelas entranhas do outro, a colher que dizia

“Amo-te tanto que até como com a tua saliva, o teu mau hálito e todas as doenças que possas ter”.

Era um amor igual a esse, que ele tinha, quando lhe “chuchava” os ossos do prato.

Mas, sem se aperceber, aquilo era era muito, muito mais mais do que uma simples colher… A colher de Saramago era pouco para o amor que este homem lhe trazia.

(…)

A colher eras tu a ser comigo e eu a receber-te como tu és, vaidosa por me amares tanto. A amar a forma como comias com as mãos. Tu a amares o meu sapato verde a bater no chão, quando me abria para ti e te pedia que viesses. A forma como provei a parede do meu quarto, contigo, a descobrires-me o que havia dentro.

Amei-te. Tu amaste-me. O pretérito perfeito parece-me justo, resolvido. Fomos felizes. E o que é nosso está feito.

Choro-te. Desfaço-me de ti mais um bocadinho. É um choro de felicidade, porque é o choro que já te conhece fora, irremediavelmente fora, ainda que inelutavelmente dentro… da memória Feliz. E do adeus quase resolvido, quase lavado.

Até ao éter.

#ElasDoAvesso

Márcia Augusto

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