As novidades do falso mundo

Gosto de pessoas volúveis, de pessoas de carne, ossos e alma dentro.
De pessoas que se deixam ir, que baixam os braços, que choram, que mandam tudo à merda e sofrem as dores do mundo. Ou de mundo nenhum, quando tudo é nada e nada serve.

Gosto de “re-significar”, ou de ressignificar, como é a forma correta e que eu, claro, não gosto.

Gosto de pessoas que se fartam à mesa, que sentem e se dão ao vazio… que precisam de se compensar, que se dão à dor do agora… que se vivem, que se aceitam – mesmo quando isso implica amar-lhes o sangue, também. É delas o mundo. Sobretudo o mundo delas, o de dentro.

Gosto de pessoas que engordam, que deixam que o six pack tome a forma que ele quiser, ou não tome forma nenhuma… os six pack que se conseguiram à custa de suor… fabricados a sangue no ginásio, no chão e na fome, porque lhes disseram, nas revistas, que era assim. Porque a programação da TV os (re)programou para serem o que a indústria precisa que eles sejam…

Os cremes, os suplementos nutritivos, as carnitinas e os cla’s, os crómios e os caralhos todos que lhes prometem a felicidade em frascos; a segurança que, na melhor das hipóteses, lhes alimenta a hetero-estima.
Gosto de pessoas que se dão às coisas, ao mundo e ao Deus que não conhecem.

E se amanhã a moda fosse ser gordo? Se o vestido fosse o padrão de 70 – para mim, o mais assustador de todos- ? Ou, então, a calça à boca de sino? Lembram-se de gozar com quem usava calça à boca de sino? E não passaram por ela outra vez? E não se apressam agora as barbies todas ao shopping para as comprar de novo? E, porventura, isso não vos faz perguntar se somos assim tão ratos de laboratório? Tão “programadinhos”? Tão “arranjadinhos”, de acordo com o que a indústria se lembrou que vos quer vender?

E, claro, humanos de gravata e de saia travada – os escravos esclarecidos das multinacionais e dos cargos no Linkedin -, mas também os outros, todos os outros que resolvem o choro a dinheiro… lá vão eles comprar o grito último… Somos acéfalos ou “só” infelizes?

Sim, ganhamos dinheiro e frustramos a vontade individual, para que cheguemos ao final do dia, com vontade de nos compensarmos, no shopping, comprando o que vimos nos catálogos, que chegaram nas newsletters durante o dia, enquanto adiávamos o trabalho… Lembram-se? E onde vamos agora? Ao shopping, à esplanada do título adivinhado em “as 5 melhores esplanadas do porto”, ou “os 7 restaurantes que não pode perder”… e assim por diante.

Gosto de pessoas além disso. Das pessoas no autocarro – que sim, também elas (se) consomem, à sua maneira e tanto quanto o salário lhes permite -.

Gosto de como elas são. Gosto de inversos e reversos; de desafios à verdade instituída. Gosto de corpos brancos no pico de agosto, de gordos bonitos e de magros assumidos.

Gosto da verdade dos olhos, dos de dentro e da Verdade, sobretudo essa, que os tira para fora… A verdade capaz de desembaciar a viseira do mundo, do que lhes contaram que ele é… A ilusão do dinheiro, da esperança apostada no futuro, da escassez, da resignação, do absurdo e da mentira.

Gosto de pessoas que mandam isso tudo à merda. Delas é o reino dos céus, diria a Bíblia, que não a do Vaticano e a da conveniência.

Vivemos tão “arranjadinhos”… Num mundo onde é proíbido chorar, onde “chorar é para os fracos”… Basta chorarmos na rua para que nos tornemos o centro de tudo, da rua de santa catarina, dos autocarros e dos metros, e de todos os sítios onde nós já chorámos (que alien é este? Que vil ser é este que atenta às nossas regras?).

Chorar significa, dizem, estar triste. Porquê que significa estar triste e, em última instância, o que é estar “triste”?

Num mundo que demoniza, que persegue a “tristeza”

– porque estar triste quer dizer que sabemos que não está tudo bem e compreender que não está tudo bem, ameaça as estruturas.

Estar triste é o início de um caminho, dizem, para a doença…

Num mundo que abafa estados da alma com medicamentos, consultórios e terapeutas a encerrar verdades últimas sobre quem nunca viram, sobre quem acabaram de conhecer… Os doutores e os terapeutas diagnosticam conforme vem nos livros e o que se ensina nas academias. Não é por acaso que lhes temos de chamar “doutores”… Como se as universidades ensinassem sobre como fazer os outros felizes.

Abafam-se sonhos, escondem-se verdades e preconcetualiza-se a verdade individual, a que vem de dentro, de acordo com uma ordem estabelecidada, que não se questiona, que não se debate.

Debater é coisa de revolucionário… Os revolucionários são uns inconformistas, são maus, violentos e deles não reza a história; só as notícias e as manchetes sangrentas.

Comemos, engolimos, sem mastigar, sem sentir, muito fácil o que nos dão. É muito fácil manipular-nos, pelos vistos. E nós cedemos… primeiro, às ágoras da Grécia Antiga, onde se “debatia”, depois aos púlpitos da gravidade e urgência clericais… Mais tarde, ao papel, aos jornais, à Rádio, à TV e agora à Internet, ao Facebook, ao Instagram – nas vitrines filtradas, que nos seduzem, que nos distraem e que nos inventam tudo o que não somos-… e a tudo o que está por vir.

Comemos tudo muito fácil. Talvez, porque estejamos adormecidos no Mcdonald’s, no sunday, no happy meal, no cinema – que cinema? -, nas lojas e em tudo o que nos promete poder – que poder? -… o poder da saia nova, do relógio novo, do carro novo e de tudo quanto precisamos de gritar para nos sentirmos bem – bem como quem? -.

E que dizer sobre o telemóvel? Por que precisamos de o desbloquear a cada 10, 15 minutos, a cada hora,para consultar notificações, que nos ocupam o cérebro com falsas ilusões de importância – como se fossemos muito requisitados e a nossa vida fosse uma festa barroca -?

E por que precisamos de mostrar que estamos felizes e que a vida nos corre bem? E de mostrar a relação, o namorado, o filho, o cão e o gato? E por que nos sentimos sozinhos com tantos “amigos” e seguidores?

E por que insistimos em resolver dúvidas e dores existenciais com compras, batom vermelho e saltos altos (não é assim nos filmes? E os filmes mandam em nós?), ansiolíticos, calmantes, copos, chás e massagens? Precisamos disso? Ou só precisamos de nos sentar, de ouvir o que o coração nos pede e de falar connosco? Enfrentarmos o vazio de nós, talvez. Desculpem, isso não aparece na televisão, é verdade.

O que nos aconteceu? Nós, ou elas, que precisam de unhas de gel, mas que andam com o coração de esmalte partido, que confundem amor com dor e com pedidos do corpo?

Num mundo que nos diz que precisamos de ter a barriga lisa, “colada às costas”, como diz a minha mãe; de braços desenhados, de pernas torneadas e de nádegas apontadas ao céu. Precisamos mesmo disso? Passa-nos pela cabeça sobre quem ganha dinheiro com isso; e quanto ganha?

Por que aceitamos ser escravos dos homens – no sentido de humanidade simulada, onde um homem parece mandar mais do que outro… onde precisamos de homens a ditar leis e regras para outros homens -?

Que ditadura é esta? Que democracia e meios de comunicação social livres são estes?… Estes que nos dão a mensagem de quem lhes paga salários (indústrias e lobbies)?!

Re-significar.

Re-significar um mundo onde permitimos que nos digam como deve ser o nosso corpo;

onde não deixamos que o corpo assuma as formas que veio para assumir… Como se o universo se tivesse enganado. Um mundo onde nos dizem que cores vestir, como vestir, no fundo, o que e como Ser.

Somos tão programados, tão à imagem ordenada que o mundo quer para nós. Somos isso? É o mundo só o que os nossos olhos conseguem ver? Não estaremos a ser presunçosos, preguiçosos, cheios de varizes numas pernas que não deixamos andar, segundo o que é a nossa – verdadeiramente nossa – Vontade?

Somos tanto o que acham melhor para nós, sem nos fazerem perguntas… E nós? Que aceitamos ser o que as expectativas de fora nos exigem?

Tão limitados ao que os nossos olhos tão pequenos, tão indisponíveis, conseguem ver…

Num mundo que nos adormece, cada vez mais, para nos prometer novidades fabricadas, enquanto nos fazem querer coisas “novas” e seriadas… O mundo do café das Honduras, da Etiópia e dos arábicos – que sabem todos aos mesmo -.

Lembro-me de, no passado, pedir um café e de isso ser límpido como a água. Hoje posso escolher entre várias e novíssimas soluções de sabor… Tantas que me complicam, me atrasam, me confundem… É tudo tão complicado, tão fabricado… Tudo tão a prometer-nos as histórias, a fantasia e a banda desenhada, que o coração social acolhe.

Depois, surgem também os cupcakes e, mas sobretudo, os cupmerdas, os brownies, os chocolates, os sushis e tudo o que é caro e nos dá falsas noções de poder.

Mas, a semana foi dura, tão inversa ao que sonhámos lá atrás, tão lá atrás que, achamos, já nem nos lembramos bem… O cupcake, o café das Honduras, o prozac e o six pack, hão de resolver.

#ElasDoAvesso

Márcia Augusto

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P.S.2: AH! SE PUDER SER, COM A HASHTAG #ELASDOAVESSO QUE NÓS SOMOS BUÉ MODERNAS

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