Das Manchetes do Medo e Dos Olhos de Amor

Vamos falar sobre um tema caríssimo à atualidade, pelo menos na semana passada… O Jovem Agredido em Gondomar. 

A notícia onde este texto começou… Depois, muita coisa aconteceu… Não com a notícia, isso não me interessa. Com o texto. Mas isso fica para depois.

Comecemos, pois, com o “jovem agredido”… Desde logo, notando os termos delicadamente escolhidos para falar sobre o jovem, como se falássemos de um vaso, de uma peça de decoração, de um ornamento vão, que se partiu.

Na televisão, as pessoas são agredidas ou ” terão sido” – o futuro composto que sugere dúvida; é algo que adoro -, e é tudo um caminho absurdo para a esterilização da humanidade e do mundo, como se tudo fosse frio e a “direito”, na reta de uma lâmina qualquer – fria e cortante, capaz de fragmentar a realidade a bel-prazer, ao interesse e ao jeito, de quem conta as estórias e de quem ganha com a forma como as conta.

São os trabalhadores do sangue, apostados em conseguir o olhar mais assustador na fotografia e a frase mais aterrorizadora, que garantam, assim, na valsa jornalística, a peça mais vendável.

E, como ditam as regras do jornalismo, é necessário dar contexto às estórias que acontecem. Por isso, os já designados trabalhadores do sangue, apuraram que “conflitos passionais” seriam a causa do “sucedido”; também de si um belíssimo termo para falar de alguém que morreu pelo ferro de uma soqueira.

Depois, “passional” só se for mesmo a relação da Comunicação Social com o sangue e a dor alheios.

É o segundo miúdo espancado na rua – este mesmo até à morte. Não, este texto não é um manifesto de lamento para as famílias. Claro que lamentamos, mas não é isso que nos traz aqui, hoje, às palavras. O que nos traz aqui, hoje, é a necessidade de questionar e de convidar à desconstrução do que parece “normal”.

Gostava que questionássemos e pensássemos se não faria mais sentido que, em vez de trabalhar a dor e o big brother das emoções das testemunhas ávidas de Gondomar, se propusessem a estudar o Contexto – ainda se lembrarão do que significa contextualizar as estórias? Talvez fosse de interesse público avivar-lhes a memória. Mas isso não será agora. São seres demasiado elevados para a nossa voz lhes chegar.

Bom, a proposta é – já que os trabalhadores do sangue não se mexem-, convidar os trabalhadores do “nada” – vendedores, consultores, empregados, arraia miúda, como nós-,  a questionar o que veem na televisão. A exploração daquela notícia daquela forma, que é a mesma de sempre, vai só aumentar a audiência do telejornal àquela hora, o que, consecutivamente, vai aumentar o preço do espaço publicitário que os anunciantes vão querer comprar nesse horário. Frio e simples assim. Mas, nós continuamos a dar olhos a isto… sem perguntar.

Quanto aos trabalhadores do sangue, eu gostava de os convidar a fazerem o seu trabalho, que não é mais do que acordar a Consciência e informar, de acordo com o interesse público. Que a noção de interesse público tenha vindo a ser distorcida, ao longo dos anos, em função do “vil metal”, eu já sei… mas, e nós? Vamos mesmo continuar a receber de olhos fechados as histórias que nos querem contar?

Que tal convidar à investigação séria sobre essas mortes? Não, não é de culpados e de inocentes, de vilões e de heróis que quero saber… isso deixemos para Hollywood. Mal ou bem, no cinema, as pessoas pagam o bilhete e sabem (deviam saber, pelo menos) que vão assistir a um filme. A investigação que clamo é: isto é só uma sequência de acontecimentos, é um post hoc ou há, de facto, aqui alguma relação para trabalhar?

Que tal irmos perceber o que se passa na cabeça destes rapazes? Que tal começarmos a atuar na causa, ao invés de no efeito? Sei lá… isso de operar no efeito é tão animal… tão insensato, quanto inútil.

Que tipo de ensinamentos estão a ser transmitidos sobre a vida? Que desvalorização da vida é esta? Que esterilização da morte vem a ser esta? Isto não é um jogo de computador e a vida não está dentro do ecrã do telemóvel. Não se recuperam coins nem se volta a jogar depois do game over. E, quanto a mim, entre muitas outras coisas, há algo que está a falhar, com gravidade, na educação e no amor – que não se dá; as pessoas só podem dar o que têm dentro – das pessoas que vão nascendo.

E não, não são só os pais – muito menos esses, com quem passam cada vez menos tempo. As amas tornaram-se tablets e os amigos tomaram a forma de avatares. Não me parece necessário ir a Coimbra cursar, para perceber que isto terá, necessariamente, consequências no desenvolvimento psicossocial.

Já não é de agora que Bandura fala de aprendizagem a partir de modelos de imitação… Pois se o primeiro contacto que uma criança tem, antes de um livro, de uma música, de uma palavra de amor, para além de beijinhos na barriga enquanto lhes trocam a fralda (e não digo que isso não seja amor… só que não é só isso), é uma caixa, de cantos arredondados, de cor mate ou brilhante – há para todos os gostos -, coroada por um vidro que dá respostas ao toque do dedo, algo de muito antinatura se passa no desenvolvimento das pessoas.

É só demasiado irresponsável que nos despeçamos da responsabilidade que temos com o mundo. A resposta pode, entre outras coisas, passar por uma atitude mais consciente, mais cuidadosa e comprometida com o tipo de pessoa que queremos que uma criança venha a ser, atendendo às referências que lhes damos. Se a ideia é continuar a entreter putos ao jantar com o mundo pelas vitrines, go ahead. Estão mesmo no bom caminho.

Só não me parece que um jogo de telemóvel, pensado e produzido a régua e esquadro para causar dependência, suportada por níveis e falsas noções de recompensa com vidas, coins, game rewards, absolutamente apostados em trabalhar emoções de orgulho, ego e heteroestima em rankings, vá trazer um ser humano com tiques de pessoa à Vida.

Mormente, isto origina uma adolescência também ela comprometida com uma pirâmide axiológica altamente sensata, baseada no número de likes e comments, followers e de tudo o que se lembrarem em inglês.

Parece-me demasiado otimista, e seguramente irresponsável, achar que estamos a transmitir valor a estas pessoas. E não, eu não sou uma louca que diz “acabem com o Facebook”… isso é despótico e manifestamente impossível, por agora, talvez… o que digo é que uma visão filtrada, sobretudo Ensinada, pode, talvez, evitar acontecimentos como este e, bem assim, promover outro tipo de valores nas cabeças destes desgraçados que tiveram o timing infeliz de ter 14 e 17 anos no tempo do mundo em vidros. Do mundo em videojogos, do mundo em Pokemons e de tudo o que ainda não vimos.

(O problema não está no donut. Eu posso comê-lo, de vez em quando. Convém é que eu esteja ensinada sobre o mal que ele me faz. Quanto mais ensinada estiver, menos vou procurar o donut, porque sei que aquilo ameaça a minha qualidade de existência. Já que não vão lá pelo Amor, vão lá pelo resto. Por agora. O caminho faz-se caminhando.)

Voltando a esta belíssima forma de contar histórias… Ouço agora “violenta agressão” – inversão do adjetivo de modo a tornar a expressão mais lírica e “arranjadinha”. Como podem?

Passam 37 minutos das 14horas. Fazemos, então, a atualidade de hoje. Dilma Roussef (…)
É a jornalista que diz, como se tivesse acabado de falar de amendoins – “violenta agressão”; desculpem -. Que mundo é este que nos contam? Que telejornal é este? Que alinhamento é este, a favorecer a desintegração, o distanciamento, o esterilizar e, bem assim, o desrespeito absoluto pelo valor da vida?

Que TV é esta e que olhos são os nossos, estes, que, bem diz o povo, “parecem um boi a olhar para um palácio”? Salvaguarde-se, contudo, que aqui não há palácio nenhum.

De seguida, entra um genérico que sobe e desce, ao som da tragédia que se conta. Tudo, absolutamente tudo, a favorecer a tristeza e a distorção do mundo. Estamos acordamos? Conseguimos ver? É o mundo esse mostruário de horror que nos cantam todos os dias? Ou, simplesmente, o reverso não é contado?

Agora passamos para anúncios de consciencialização cívica sobre fogos. O enquadramento é de um temor acutilante, entre fundos negros e vermelhos, beijados a sangue por negritos e números gigantes, que me ocupam toda a televisão e parece que ficam comigo a almoçar. E começa assim:

740 hectares queimados (…) um ato negligente (…).

Copy embalado por um off deslavado e imitador das séries americanas. De seguida:

Este ano não faça (…), não seja (…) CULPADO

– num grito gráfico que se senta também, comigo na sala, sem que o convide a entrar. Há uma clara (des)informação pelo medo, pelo terror, pela culpa… E é este o mundo que acolhemos, todos os dias, sem questionar.

Qual é a conclusão que se infere, no final? Medo do mundo, visões desintegradas, temerosas, que levam, por isso, a pessoas assustadas.

Pessoas assustadas tomam decisões com base no medo, que as enfraquece. Os adultos são exímios nisso… em decidir por medo. Medo da falta de emprego, medo da falta de dinheiro, medo da falta de amor, Medo.

Compensam, depois, a falta de aventura e de coração a bater, com compras e ânsia de ganharem quantias de dinheiro que, absolutamente, não precisam; mas há a crença, muito enfatizada também por estes senhores – os trabalhadores do sangue -, na escassez. E, pronto, eis que temos o mundo que vemos, baseado no medo e na escassez.

Como permitimos que nos programem assim? Desde o início, desde que nascemos até que morremos. Como permitimos que nos informem assim, que nos mostrem o mundo assim?

Porque é assim que os nossos olhos vão perceber o mundo: com Medo. E o medo enfraquece, faz tomar decisões em conforto, longe do risco – que risco? -; do risco de serem maiores do que o que vocês pensam… maiores do que as vossas 40 horas miseráveis, maiores do que os vossos cargos no mofo das descrições dos perfis sociais, maiores do que os jantares e do que os copos com que se compensam no fim da semana e no mês de agosto. E assim vivem… de acordo e a favor das estruturas… quietinhos, ratinhos enjaulados. Estão à vossa inteira vontade… Vontade… de escolher. E o que vão fazer?

Medo? Que ta volonté soit faite.

E continuemos, pois, na vitrine do medo, da culpa, da tragédia, que nos bloqueiam, encerrados no copy, no vermelho sobre fundo preto, na tourada de emoções que a TV vos dá.

E continuemos, pois, sem questionar. Continuemos a julgar, a acusar, atacar, a defender, entre heróis e vilões, que “terão matado”, “terão violado”, “terão esfaqueado” e assim por diante. Claro que acho o futuro composto delicioso, já vos havia contado. O meu professor de imprensa dizia que não podíamos usar isso – termos de incerteza – nos textos das notícias. Não devemos regular-nos pelo mesmo código. Ainda se lembram disso?

Depois, convém que a história continue para lá da vitrine… Convém insultar, ofender, cuspir – se a tanto o horror pedir – aquele que terá feito qualquer coisa, o zé ninguém que a TV, hoje, se lembrou de ir buscar.

Não mudou nada. Somos os mesmos, mas mais modernos e simulados, diríamos que ocidentalizados, ferverosos dos autos-de-fé dos homens. Já não se queimam pessoas, mas distorce-se a verdade e cospe-se a frustrução pessoal no julgamento público que se faz a mais um miserável qualquer.

Gente alimentada de miséria precisa de desgraça para se sentir viva. Keep up the rhythm.

Não se esqueçam de manter os níveis de infelicidade, o consumo exacerbado, a fluoxetina e as merdas todas que vos vão receitar. Just saying.

Continuemos, pois, no off do ódio e da culpa. É isso que, parece, alimentar as pessoas.

O ideal é que comecemos logo a ouvir isto de manhã, na TV ou na Rádio, tanto faz… no trânsito absurdo…

O importante é que chegues ao trabalho convencido de que não vale mesmo a pena e que isto tudo é uma merda. Fumas um cigarro com café, ou enganas as 9h00 com o Facebook, porque começar a trabalhar logo de manhã não é bem o que te apetece fazer. Nunca foste muito apaixonado pelo que fazes, mas, tinha “saída”, disseram-te. “Saída” para gastares à sexta-feira e, depois das mulheres e dos filhos, esperares pela reforma, como quem espera pela salvação de uma vida penosa e penada… miserável , portanto. Mas isso tu ouves desde pequeno… Por isso, é uma questão de hábito. A vida não deve ser mesmo para seres feliz. 

E continuamos no ciclo do “nunca mais é sexta”; “nunca mais é fim de semana”; “nunca mais são as férias” e passamos a vida a torcer pelo fim, porque o caminho que fazemos não faz absolutamente sentido nenhum. Acreditam mesmo nisso?

É sexta-feira. Vais beber, vais rir muito alto – por todos os gritos que não deste -, vais dormir sozinho ou acabar num sexo desinspirado, numa cama que não conheces… Ou vais levar os filhos à catequese ou ao evento não sei o quê… E, acima de tudo, vais continuar a adiar-te. A ti. A vida toda. E isso é conveniente.

E se virássemos tudo ao contrário? E se os jornalistas se empenhassem em fazer “furos” sobre coisas boas? Até a gíria deles é negativa. “Furar” que significa “furo de informação”, isto é, algo inacessível aos outros, torna-os “especiais” e, mormente, as vedetas do dia.

Se procurassem “furos” de bondade, se saíssem à rua apostados em ver o amor nos olhos das pessoas e dos animais? Se contassem histórias como a da Filipa, que me deixou a mim e ao champagne, pendurados no domingo – e bem -, para ir levar a cadela ao veterinário, que se magoou a brincar?

E se isso começasse a ser notícia? A bondade que nos habita.

E se fizessem notícia da mãe que deixou rosas na cabeceira da filha? As rosas que o namorado lhe deu – à mãe-?… Quando viu as rosas, a filha disse:

– Que lindas! Ela, a mãe, esperou que a filha adormecesse para entrar no quarto crepuscular, deixou lá as rosas, à cabeceira, para que a filha acordasse com uma intenção de Amor ao abrir os olhos.

E se falassem dos clientes que pedem desculpa quando são ofensivos e, ao serem olhados nos olhos, se desarmam com o amor de quem os olha?

E se noticiassem que uma filha voltou a falar com o pai, seis anos depois, como se nada tivesse acontecido? E se noticiassem que o amor voltou à vida deles? Sem necessidade de ajustes ou perdões basilicais?
E se filmassem os olhos das crianças felizes a brincar? As crianças que saltam, batem palmas e dizem “as pombinhas!”, enquanto as pombas esvoaçam a surpresa do Amor delas no ar?

E se nos contassem que há pessoas que, depois de 12 horas de trabalho, vão dar aulas de ginástica, gratuitas, no IPO?

E se noticiassem o amor e os abraços que se dão? E se noticiassem a fé de que tudo, absolutamente tudo, pode ser bom?… Que é só mudar o compromisso do medo para a aliança com os olhos apostados no Amor?

Se noticiassem que um homem lhe disse que ela era de marte e que a chamou de rinoceronte negro africano, por estar, “extinta”? E se a visão de marte não fosse a extinta? E se recuperássemos todos o nosso rinoceronte extinto? E se virássemos tudo, tudo do avesso?

E se contássemos tudo o que acontece no mundo? Porque a bondade acontece todos os dias, todas as horas. E vocês sabem. Nós só somos responsáveis pelos olhos que usamos para escolher.

E se as histórias fossem contadas sobre fundo azul, de um azul celestial? Se nos mostrassem árvores frondosas, com aquele verde todo, que só pode ser de um Amor que não acaba?! Um Amor da Terra, que cuida, que só pode cuidar. A única verdade possivel e a responsável por nos manter vivos, o Amor.

 

#ElasDoAvesso

Márcia Augusto

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P.S.2: AH! SE PUDER SER, COM A HASHTAG #ELASDOAVESSO QUE NÓS SOMOS BUÉ MODERNAS

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