Tenho de contar as flores que eu vejo

Temos de saber ficar tristes. Saber acolher o silêncio. Saber pôr o silêncio todo nos olhos. Saber ver o que não vemos.

Há flores tão bonitas quando estou triste. Há descoberta, sobretudo isso… Descobrimos muito, quando estamos tristes.

É quando ficamos no sítio e não deixamos que a mente vá. É quando a mente aceita ficar connosco – no Nada. Depois, olhamos o céu e há tanta luz nos olhos…

São os momentos em que entregamos tudo.

São os momentos em que nem os nossos maiores sonhos contam.

Não esperamos nada. Não queremos nada. Aquele céu e as flores todas bastam. É por isso que preciso sempre de um papel… de chorar num caderno e contar as flores que eu vejo.  Porque os meus olhos têm muita sorte nas cores que olham. E eu tenho o dever de contar as flores… de dizer como são belas. E é por isso que eu, às vezes, tenho de me calar. Tenho de ficar triste, de assumir os meus vazios.

Porque é só no vazio que o Deus que eu Sou se mostra. É só no vazio que Ele me agarra a cara, me sacode e me conta – ou me recorda – quem eu Sou.

Fugimos tanto do silêncio, da solidão, do nada. Temos muito medo de ficar sozinhos. Temos medo da Verdade. É por isso que nos defendemos com uma mentira… a mentira de que estamos sozinhos, de que somos incompletos, de que o mundo nos falta.

E a única pessoa que nos falta somos nós.

É por isso que temos de ficar tristes. É a forma que a vida arranja de nos pôr a falar connosco e de nos fazer descobrir, às vezes da pior da forma, que estamos sempre cheios. É só limpar o que já não serve – mas, como somos apressados no mundo, a vida para-nos. É só limpar o que nos tolda a visão – que, tantas vezes, é tanta coisa.

É quando perdoamos o emprego, o namorado, a amiga, o tio, o padeiro, o senhor da bomba, que tudo começa a fazer sentido. Porque ninguém, para além de nós, vai restituir o vazio. Eu sei que nós já sabemos todos disso e que até as revistas da moda fazem disso bandeira e capa. Mas quando se abeiram da morte (morte de corpo e morte de fim, de desapego e de soltar o que já não vive), as pessoas sentem-se sempre sós, abandonadas, e, por isso, enganadas. Nunca estamos sós, sem nós. Isso é impossível.

Vimos aqui saber de novo, aprender a plenitude que o mundo de lá nunca poderia preencher. Porque o mundo de lá só nos vem ensinar a restituirmo-nos, a elevarmo-nos à Verdade, à categoria de Deus que somos.

Somos grandes de mais para que algo de fora nos preencha – qualquer coisa que nos viva fora é uma ilusão e, por isso, o Tempo destrói.

#ElasDoAvesso

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