Não sei e isso de dar nomes às coisas não interessa para nada

As pessoas dizem-me, às vezes, que sou corajosa. Não sabem, na verdade, de como, às vezes, eu tenho medo.

Tenho medo de tomar decisões erradas… de não saber o que fazer… acima de tudo isso, de não saber dar conta, dar conta do recado. Tenho medo de deitar tudo a perder.

Tenho medo de não saber.  Mas isso é uma grande rasteira mental egóica (e arrogante, ainda por cima)… da cabeça pequenina que acha que, para tudo correr bem, tem de “saber” tudo.

Não saber é uma grande liberdade – a maior de todas, talvez -… É entregarmos tudo nas mãos do que não vemos e confiar que vão tratar do assunto…

E perdoem-nos os mais “espevitados” ou mais ativos – já fui desse clube -… não, não é ficar à espera… é a paz de saber que se fez o que se tinha de fazer, a humildade plácida de saber ficar no vazio sem pedir mais respostas do que as que temos. Isso, essa verdade de Ser é difícil. Muito mais do que as corridas… muito mais do que saltar de emprego em emprego, quando as coisas não estão como queremos – porque nós “controlamos tudo”, não é? -, muito mais do que brilhar nas entrevistas… ser acarreta bem mais coragem do que isso… ser é devotar-se ao que se quer, mesmo que com medo – ser corajoso não é não ter medo; é, como se ouve dizer, ter medo e mesmo assim avançar… é isso que faz de nós homens do leme, é isso que nos faz derrotar mostrengos, os mostrengos de dentro, são esses os únicos “inimigos”… não é a vida, nem o chefe, nem os colegas… é o medo, o grande vilão da jornada de cada um.

E não é por acaso que hoje, em jeito mais autobiográfico do que o habitual, falo do medo e do que tem sido…

Retomando… Entregarmo-nos nas mãos do que não vemos.

Tenho-me apercebido de que temos medo de ser livres. 

Às vezes preferimos a ferrugem do arquétipo “enjaulado” da segurança…. isso dá-nos tão pouco, tão pouco do que viemos para buscar…

Toco no frenesim da eternidade sempre que finto o mofo do que não sou – um animal seguro e contente com a água e o alimento de todos os dias, repetido, de semana a semana, de ano a ano… são os cartões do trabalho, é a marcação do “ponto”, são as horas marcadas, as reuniões, as gravatas e os saltos altos – tão rasos – a apertarem pés onde nascem aves, todos os dias.

Back again ao texto que escrevi primeiro (isto é uma mescla do que escrevo agora com o que já escrevi antes… e acho bastante mais “lavadinho” e honesto, visceral sobretudo, acompanharem a viagem assim, como ela está a ser)…

E eu tenho-me apercebido de como ainda vivo, às vezes, nessas rasteiras… cada vez menos, mas ainda me “apanho” lá. Depois, depois tenho de me resgatar… é estranho não é? Tenho de me resgatar do que eu sempre achei que me ia salvar… a segurança, o conforto, o dinheiro (não há nada de errado com o dinheiro… todos precisamos dele… falo de me resgatar do dinheiro ganho no medo, ganho na ótica do fim, do fim do dia, do fim da semana, do fim do mês… é aí que ele é perverso, quando não é a nossa verdade)… e sim, nas contas imaculadamente pagas no fim do mês… elas são, mas eu, no que começo agora, não sei, não sei como vão ser – mas vão. Independentemente de tudo, tenho de ir. Há alguma coisa grande dentro de mim que me pede que seja agora e que, a ser, tem de ser agora.

Tenho muito medo. Aperta-me o peito só de pensar… e choro muito… como uma criança que é deixada à porta da escola no primeiro dia de aulas. Eu não chorei nesse dia… não chorei muitas vezes em que devia ter chorado. Agora devo chorar por todas as vezes…

por todas as vezes que achei que “ser” era ser “hollywoodesca”, implacavelmente firme e, sobretudo, insuspeitamente costurada.

Como me ensinaram, como nos ensinaram a todos nós… não foi por mal, só não serve mais.

Isso não é ser. Ser é isto… nua e a sangrar, ou a florescer… tanto faz… desde que ser seja o mesmo que é – que é por dentro.

É por isso que sei que tenho de ir… que tenho de fazer esta viagem. Por mim, por quem me vê, mais perto ou mais longe… me lê aqui ou no outro lado do mundo… Se eu não tivesse começado, não teria pessoas do outro lado do mundo a lerem isto… e isso dá um tour de force meio metafísico às coisas.

Também preciso de pôr em prática tudo o que leio, tudo o que acho que é, mas que ainda não verifiquei ao jeito científico… também precisamos de processos de verificabilidade, às vezes. Principalmente quando isso vai exigir que viremos tudo, absolutamente tudo, do avesso… não é mesmo por acaso o nome deste blog…

Mal eu sabia disto tudo no início… no fim de abril de 2016… voltando de um fim de semana tão insosso quanto desinspirado, mas a semana, a haute couture dos dias, pedia-me muitas vezes que me “retirasse”… e ainda bem… foi no regresso que tudo começou.

Mas, mais do que tudo, eu preciso de falar. Preciso de dizer que corajosos fomos nós e os que ainda são. Corajosos do viver assim-assim…. corajosos, porque sabem que não são felizes, porque fazem “ouvidos moucos” ao que os deuses de dentro lhes pedem e, ainda assim, sorriem na rua.

(…)

Ontem, tive boleia de uma amiga que não via há uns 15 anos… até nisso a vida é incrível… costumo sempre apanhar o autocarro no regresso a casa, mas ontem deu-me para ir de metro (eu não gosto muito de andar e o metro fica a 10 minutos de minha casa… sim, ao frio, depois de oito horas em pé custa muito). Já no metro, recebo uma mensagem da Filipa, no messenger: “és tu que vais sentada ao meu lado?”… Foi do caralho, como devem imaginar.

Isto para vos contar – calma, ainda não estou doida – que ela vinha do trabalho de que não gosta, a levar uma vida de que não gosta, mas os olhos brilhavam… Não nos faz pensar sobre como somos inacreditavelmente fortes se, no meio de tanta coisa que não queremos, de tanta mentira costurada, ainda sejamos capazes de amar com os olhos assim? Como os da Filipa?

A Filipa ainda teve força para me abraçar, me amar genuinamente naqueles olhos dela e dizer-me ” ‘tás na mesma, pá!”.

I mean… se no meio da merda do medo conseguimos ser tão bons, imaginem só quando decidirmos tomar decisões em expansão, em amor, em verdade.

Antes disso, em outros trabalhos, eu já tinha ouvido umas tantas vezes – vezes de mais -: “já vais?”, “nunca mais são horas”, “amanhã estou de folga… e depois também… nem acredito!”… E, mesmo assim, as pessoas sorriam e davam amor .

E aquilo fez-me pensar que isto, isto que fazemos connosco, é um absurdo. Mas é também um incentivo… uma mostra de coragem, de valentia, de resiliência, de heroísmo inventado sabe-se lá na força de que braços… Se estas pessoas, a minha amiga, e tantas outras que eu não vi, estão infelizes, inexoravelmente fora delas, de quem vieram para ser e ainda são capazes de amar assim, de sorrir assim, do que serão capazes quando decidirem largar tudo para se honrarem? Mandar tudo à merda, fazer o caminho de volta, e tentar ser quem a alma nos pede – é impossível falhar nisso.

E isto deu-me a certeza, a certeza de que no próximo mês posso comer pedras da calçada, mas fiz o que as fadas me pediram.

É um risco… mas haverá risco maior do que falhar a vida?… do que ser infeliz com medo do que poderia ter sido? Haverá risco maior do que ficar na superfície? É para isso que viemos cá? Para nos protegermos de um mar fundo que não conhecemos?

Haverá risco maior do que as varizes no coração que não se mexeu?

Vou ainda trémula e sem ver. Mas vou, tenho de ir.

P.s. A quem ainda não encomendou o livro, encomende. Agora é a sério.

Amo-vos muito!

#ElasDoAvesso

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