É difícil amar

É difícil amar quando o mundo é isto… deve ser isso que tenho para aprender hoje… que é difícil… está um barulho infernal, num eco de catacumba…
É difícil amar quando o mundo é isto, quando o mundo sabe a terra e ao fel das coisas…
Amar quando tudo está bem é fácil – a verdade é que, agora que transcrevo isto, nunca deixou de estar (no que é lógico e suposto que esteja, nos olhos do chão)… mas isso não é amar… é só criança contente, conivente com os “sins” da vida… amar é quando tudo é este barulho… os 7 euros do metro, a chuva, os pés molhados… é difícil amar assim… e é só assim que se ama… que se aprende, que se sabe que se ama… mesmo quando os olhos demoram a molhar…

Parece que há dores catacumbais, que não saem, que custam a sair… que não vão lá com ordens. Nós sabemos que elas estão lá – e isso é o pior, senti-las, sem ter poder sobre elas, nem para as chorar – e não saem. Saem, quando lhes apetecer e nós não sabemos lidar com o que nos apetece – visceralmente.

É por isso que escrever me salva – acerta-me os tempos –, aproxima-me disso, da salvação, do que pode ser Deus.

Quando as lágrimas não saem, eu tenho de escrever. É quando há o estímulo emparelhado da caneta e do papel, que tudo sai, que tudo se sente convidado a sair, desta vez, em amor – a única forma das dores nos saírem.
Preciso do rio, do brilho encenado nas árvores, nas folhas que hoje não dançam… digladiam com o vento… e não o vencem, quem o pode vencer? Em luta, como eu, com as minhas lágrimas.

Hoje foi tudo… foi a roupa, a chuva, o dinheiro na máquina do metro, o “sem sistema” do metro… tudo, absolutamente tudo, me deitou ao chão. Tudo serviu de pretexto para não amar.

É assim quando não deixamos as coisas saírem… a vida envia coisas para nos chatear – e tudo parece estar contra nós; na verdade, está tudo a favor, tão a favor que ela, a vida, até manda coisas tão básicas como estas para eu chorar tudo o que eu me esqueci de chorar quando devia.

É para deixarmos de resistir aos “males” inelutáveis… é a forma que ela arranja de nos levar para dentro.
E, ainda assim, o sol beija-me o cabelo, os olhos e as pestanas… tão quente, tão amável, tão paciente comigo…

de uma maneira que não consigo ser com o mundo ainda… perdoá-lo por tudo o que acho que ele me deve, na coroa inventada que me dei.

Por mim, só posso escrever… ser conivente com a Terra… e, como eu já disse, ela tem o dom de nos meter no sítio… a nós, às nossas mágoas inventadas.
E o mais curioso de tudo… tudo corre bem, mas eu fico assim… frágil, vulnerável à perda do troco na máquina do metro, à chuva e a tudo o que parece estar contra mim… faz-me perceber como ainda sou tão frágil, tão “coitadinha” na camada… quando resisto… como sofro quando resisto… a isto, aos beliscões cuidadosos da vida… como ainda sou – somos – uma criança aninhada nas saias do que eu quero que seja (ou acho que quero)… mas isso já não me chateia – ser infantil, vulnerável, dada aos quebrantos –; faz-me chorar só… agora que já sei o que fazer, vir para uma tábua e escrever… até que passe e até mesmo se não quiser passar… estar bem com a ordem, a que eu não vejo…

mesmo que tudo pareça vir de um lugar que ainda escondo e que, por isso, não conheço.

Escrever para mim também passou a ser mais necessário, outra vez. Tento, ainda que não consiga totalmente, não vir atualizar tanto… não é que eu não escreva, eu escrevo sempre… mas escrevo melhor assim… longe dos olhos e das notificações – sem o imperativo do publicável –, mais nua, mais eu… sem ecrãs, sem notificações nem expectativas de calendário, onde, às vezes, me afundo… para me salvar depois.

Porque eu tenho de respeitar os meus silêncios, a minha necessidade absurda de silêncio absoluto, total, inteiro… temos todos… deixarmos de achar que a vida precisa de nós… precisa, mas não dessa forma. Precisa de mim inteira, quando eu sou. E eu acho que devo ser sempre. Deixar-me respirar por cima das camadas, sem as fintar… estas que me doem e que eu ainda não conheço. E isso pode ser a verdade.

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