Que Deus me livre

Não me posso comprometer com ninguém, não consigo, não posso, não tenho como. Mas, sobretudo, não quero.

Não posso comprometer-me com uma causa particular, específica, que me aparta, que me separa, que me priva. Não posso. Eu sou comprometida, sou noiva, sou mulher prometida do Todo, do Uno qualquer que é tudo, que me envolve, que me abraça, que dá colo… 

Há qualquer coisa que eu Sou que urge, em grito harmonioso que eu (também) Sou. O sempre chateia-me, seca-me o sangue.

A necessidade absurda de absoluta – de total – liberdade de saber que onde estou não vou estar mais, não quero… não vou querer mais, um dia, por muito que não vejam, porque sempre me bastam os olhos, os meus, o coração a bater neles.

Não posso amar com condições… com cláusulas, com contratos e alíneas que me algemam, que me prendem, que me tiram o ar, que me privam, que me limitam, que me põem ferro nos pés. Não posso. Não sei. Deus me conserve não saber não ser livre. Inconsistente, incoerente, inconsequente, irresponsável, incalculável, “inesquadrinhável”, insustentável… tudo -In é o que eu Sou.

Não sei viver em sofás, em salas arrumadas, arranjadas no mofo. Não sei viver nos lares da rotina, das mentiras do sossego, da estabilidade do bicho comum. Não posso.

Penso nisto e tenho mãos que se cravam no meu pescoço.

Não posso. Não agora. Não com o que Há. Não posso ser bicho de cela. Como poderia?

Não sei ter dias calendarizados, inutilizados no (des)conforto emocional do “normal”.

Não sou bicho de poltrona vazia. Não consigo. Gosto de ser de onde Sou, do mato, das eiras e do céu aberto… de apanhar chuva, de andar descalça… de me ferir, se for o caso. Mas do (des)conforto arrumado, resolvido, privado, exclusivo, não. Deus me livre.

Gosto de sentir a terra, de me sujar, de molhar os pés, de não ter roupa para o dia seguinte… de não saber nada… como se alguma coisa fosse para saber… gosto de chorar o inevitável, o inelutável, de saber que também eu sou impotente, frágil, (aparentemente) quebrável… porque eu só me parto quando me separo do Todo que eu Sou, que me governa, que me comanda a boca  e os pés.

Gosto de me prestar ao inaudito, ao incalculável, ao “como vai ser?”…

Não sou dos sofás, das meias, das mesas nem das loiças da casa… Tenho sede de terra, de barulhos que não conheço… dos olhos que eu não vi.

E, se para isso, eu preciso de chorar, de viver polarizada, de ser “insensata”, “incompreensível”, “inconsistente”, “incoerente”… pois que seja. Antes os berros do meu choro mal educado, incivilizado, incómodo, do que a gravata do sossego (simulado)… do que o barulho seco da minha garganta, do que as unhas inventadas no meu peito, nos meus ombros e em tudo o que me pesa o teatro dos corações arranjados… antes o choro, o sal desconfortável,

do que a mentira dos meus dedos secos, ásperos, sem alma que os molhe, que os ame, que os lembre de que estão vivos…

a eles e ao meu corpo todo, que eu, às vezes, também Sou. Deus me livre do sossego do mesmo… de umas mãos que não me fazem lembrar de casa, por um momento que seja, Deus me livre.

Deus me livre do tempo que não passa… do que não é Agora… o que é o Tempo que não isto que passa, isto que é agora, que já deixou de ser… que sei eu mais do que é agora?

Não sei viver com certezas, com mãos certas, com condutas aceitáveis nem com amores de domingo. Não sei.

Tirem-me de casa, arranquem-me as paredes do sempre, porque o sempre é uma grande seca inventada e que Deus me livre dele, do sempre, do medo do que acaba, do que já não é mais.

Deus me livre do medo do fim. Que eu ame e lamba a secura de todos os fins, porque são eles que me partem, que me esquadrinham, que me simulam o coração ao meio e me trazem para fora, para o que eu não vi. Quem me dera muitos fins, os fins todos que eu preciso.

Porque eu não sou quem eu era… Eu Sou e mesmo quem eu sou passa, para voltar ao que sempre foi – antes de quem eu era, ou achava que era. O que eu Sou nisto, nisto que parece o mundo, é fulminante, é rápido – e barulhento – de mais para que me saiba toda.

Mais difícil ainda é amar-me toda, eu que sou eu a ser, sempre a acabar e a começar… e pensar que não sou a mesma – sem nunca ter mudado – que começou este texto… que bom é saber que eu posso Ser tudo, dentro do que eu sou, mesmo que ainda não conheça. Que liberdade, esta de me amar toda!…

E como querer que eu ame sempre, todos os homens, da mesma forma? Como me exigir que eu ame pessoas na condição de animais que são… como? O amor não é isso, não pode ser.

E eu não posso ser isto tudo no (des)conforto do sofá, da minha garganta seca e das minhas mãos sem água.

No limite, eu não faço sentido… nem quero fazer. Deus me livre de fazer sentido. Sentido têm as linhas… e eu sou, no máximo – ou no mínimo? – uma linha quebrada, oblíqua, interrompida, suspensa, sangrada, lacrimejante, ferida, soçobrada, em pele arrancada, em azul e lilás metamorfoseados, num peito que se rasga para ser, todas as vezes, mais um bocadinho… num caminho rude que me pede gente, gente nova e toda diferente… cheia de nada e de olhos que me dão tudo. Gosto de olhos que me pedem, que pedem por mim, mesmo que eu não saiba o que tenho para dar. Gosto de mãos em segredo. Por nada. Isso basta.

(Se é para vir, que me corte, que me queime, mas que não me naufrague no mofo do tempo.

Que Deus me livre de ser a mesma. Deus me livre de não me ouvir a respirar, que me Deus me livre).

 

#ElasDoAvesso

#ElasDasVidasLoucas (tão certas)

Márcia Augusto

Clica e recebe-me, a mim e a «Elas» em casa

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Dizem que autora, a Márcia Augusto. Dizem que todos temos de descobrir o trono, por mim fico com este, uma tábua, um papel e uma caneta.

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