Dar

Devemos sempre amar.

Devemos sempre partilhar o que é nosso (porque nada é, de facto, nosso), o que nos deram para partilhar.

É impossível dar sem que se inicie uma cadeia de dádiva. Impossível. É impossível amar sem ser amado de volta (amar desinteressadamente, o único Amor possível). O universo funciona numa circularidade ressonante perfeita.

Hoje fui ao pão e dei um euro à senhora… um euro!… Eram cinco euros, eu dei-lhe seis e sublinhei que um euro era para ela. Os olhos da senhora fizeram o meu dia… os olhos espantados de quem não está habituado a receber… não estamos habituados, não sabemos ser amados por desconhecidos – como se não nos conhecêssemos já todos, na verdade, neste unanimismo inevitável que nós somos.

Vemo-nos separados; isso não é verdade.

Aquela senhora vai ser mais feliz hoje… e vai fazer o dia dos outros mais feliz também. Vai sentir-se grata e, por isso, expandir amor no que faz. Eu sei que já sabemos todos disto… que é básico e mais não sei o quê que as nossas cabeças – as enganadas – sabem… mas sabemos fazer? Sabemos amar? Sabemos dar? Porque sim?

E quantas vezes nos esquecemos de agradecer? E por que razão tomamos tudo por tão garantido? A comida, o chão da casa, o autocarro, a água do banho… porquê? Há quanto tempo não fazemos isso? Isso de agradecer despede religiões e até o próprio Deus – se puderem acreditar que não são divinos dentro, que são secos, sem alma que vos levante; se conseguirem, tudo bem. Há quanto tempo? Há quanto tempo não dizemos «obrigada» sem ser por educação? Sabemos sentir isso?

Sabemos ter a humildade de agradecer? Agradecer lembra-nos das bênçãos do mundo. Lembra-nos da dádiva agraciada de quem não tinha que nos dar nada – porque o mundo não nos deve nada… nós devemos… todos os dias… mais luz, mais amor, mais colunas levantadas, também. Agradecer lembra-nos, convoca-nos a humildade de Ser, de saber que somos poeira cósmica em comunhão com todo o pó… este que nós Somos. E que, ainda assim, tudo nos é dado. Se calhar, faz sentido agradecer e confiar mais um bocadinho que seja naquilo que nos leva, naquilo que nos acorda, naquilo que nos dá todos os dias, mais uma manhã, mais uma respiração… apercebemo-nos que respiramos? Honramos isso? Agradecemos respirar? E este corpo? Esta máquina fabulosa que nos endireita, nos leva, nos conduz, nos sustenta para onde temos de ir todos os dias? Agradecemos-lhe? Lembramo-nos dele?

Tudo nos é dado. Tudo.

É impossível dar amor – do Amor desinteressado, sem utilidade, porque o amor não pode ser útil – sem receber de volta.

É impossível dar dinheiro sem receber de volta – não sei qual é o problema de falarmos de dinheiro… é como se lhe despedíssemos a «serência» divina que ele também é. Como vos escreveria agora sem ele? Como teria este computador? Como teria tudo sossegado, à minha volta, para vos escrever? Como teria wi-fi? Como? Não será hipócrita e tremendamente injusto acharmos que o dinheiro é «vil metal»? Vil é a corrupção que se leva a cabo com ele… vil é ganha-lo na infelicidade dos dias… vil é curvarmo-nos perante ele e perante qualquer coisa que nos ameaça as vértebras. É a mesma coisa quando nos servimos do amor de alguém para chegar a algum fim… qualquer coisa que seja tratada como um meio, como uma ferramenta, sem o amor que merece, está fadada ao vil… qualquer coisa que nos entorte, que nos dobre para dentro a vértebra… seja o dinheiro, o amor que já não queremos, o emprego que já não nos serve… qualquer coisa que nos simule é vil… o problema é que grande parte das pessoas anda a ganhar dinheiro em tudo o que lhe entorta a coluna… não sabem que, quando decidem Ser quem São, é impossível a vida não corresponder. O universo quer que tudo dê certo… é arrogante desconfiar dele, do celeste que o mundo é, tem de ser, quando atuamos com ele, por ele.

As coisas têm meramente o valor e o resultado que nós lhes damos. Eu sei que é difícil vermo-nos assim responsáveis… isso vai fazer-nos perceber que tudo o que não está bem na nossa vida também é da nossa responsabilidade… mas calma, o que está bem também é da nossa responsabilidade.

Mas, como eu dizia, pelo menos agradecer e dar. É impossível não receber de volta. Não digo que o façamos para receber… isso seria usar as coisas como meios… e nada é um meio… tudo o que fazemos é inteiro, completo, pleno… ou, então, nem vale a pena fazer.

Dar, porque há uma urgência grande de dar.

É impossível estar bem e não sentir uma urgência de amar, sem esperar nada.

E não é preciso sermos ricos para isso. Um euro para o café fez toda a diferença no dia da senhora que me preparou o pão com tanto amor… mal de mim se não me derretia.

Mal de quem não se desfaz, mal de quem resiste ao Amor…

Derretam-se mais, desfaçam-se mais, desistam mais de serem quem não são… desconstruam-se mais… mesmo que fiquem aos bocados e em peças aparentemente perdidas… um dia, isso tudo une (sem nunca ter partido de facto).

Impossível, impossível é não amar.

#ElasDoAvesso

Márcia Augusto

Clica e recebe-me, a mim e a «Elas» em casa

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P.S.2: Por favor, faz partilha pública com a hashtag #Elasdoavesso.

So much love!

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#cumbersando com os leitores <3

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