A L.

Escrevo-te no fumo e nos olhos que me deixaste, para conservar o calor de nós os dois, L.

Não te dei os olhos… eu sei que te fugi com os olhos, L. Não porque não te queria. Na verdade, esta noite eu só te quis, L.

Inventei os teus braços nas minhas ancas e cantei para ti. Ouviste?

Dei-te os olhos, às vezes, procurei a ternura e o vigor que te inspiro, que te desassossega, eu sei. Também sei que não foi por acaso que viraste a cidade ao contrário, para me trazeres e e voltares a tua casa… sem me teres. E eu quis-te tanto, L.

Quis-te no limite… no limite das mãos que me tocaram, a procurar, a determinar as minhas mãos… eu estive lá… sentiste? Também me deste os teus dedos nos meus, como quem me dá a alma nos olhos e no corpo…. quantas bocas se beijam agora, nesta noite que é nossa, L., sem a alma nos dedos como quando tu me tomaste o casaco das mãos? E nós… quantas bocas já beijámos sem que soubéssemos, ou tomássemos o olhar tão fundo, tão dentro dos dedos e dos olhos?… que nos fogem.

Fugimos de nós e dos olhos, porque o que há é demasiado inevitável, demasiado flagrante para ser suportado depois… depois desta noite, L. Demasiado ácido na clareza de nos querermos.

Amas-me com os olhos… e não sabes de como és capaz… do quão infinitamente tu és capaz de me amar, de me ter para sempre nos Olhos, L.

Não sabes como te quero dentro… para sair depois. Não te quero mais do que neste sofá, que acaba sem ti, nesta roupa que não me vais despedir, nesta pele que não vais benzer com língua e o teu sal, L.

Acho que nos queremos o suficiente para nunca nos termos…. o suficiente (demasiado) para nos temermos, temermos ter. Porque nós temos medo de nós… do que podemos acontecer, L. És demasiado evidente no peito a respirar… foges de mais de  mim… vês-me tanto que me temes, L. E assusta-me ser querida assim… como tu me queres, com os olhos, o tronco grave, o pulso forte e essa violência vertical… na condução do teu carro, agora que me levas a casa, L.

Queres que fique, mas não me sabes pedir. E eu não sei dizer-te que quero ficar. Olho-te, dou-te as costas, sem ceder de novo aos teus olhos… ao sorriso que sei que tens para mim, mesmo e sobretudo, porque eu não estou a olhar… e os teus olhos que agora se levantam para mim, L., agora que eu te escrevo… os teus olhos a pedir por mim toda.

Subo as escadas quente, urgente de ti… dos teus olhos e da tua pele que nunca vou ter, L.

Vim embora, porque tive medo de ficar… e vim escrever… honrar, no mínimo que me é possível, o que senti hoje… na urgência das tuas mãos, que não me tocaram… da tua boca que não me beijou, do ar barulhento e ansioso do teu peito a querer-me. Tememo-nos, L.

E, por isso, eu agora estou no sofá. Sentada, com o cheiro da tua urgência, das tuas mãos, do abraço que ainda demos… dos teus olhos que eu amo a quererem-me.

Sabes querer-me…Tocas-me com a doçura do homem que me pode amar, sem que mo prometas, e com as mãos que me podem lembrar de casa… porque, sem me tocares, o meu corpo está no lugar, certo, plácido, aqui para o despirem… capaz de estar nu – de almado -, vulnerável, disponível, dado, mesmo que nunca me tires a roupa… dado a tudo… ao que a tua boca me pedir, L.

Nada… só este sofá, as meias em cima dele, os pés enterrados, o tesão furioso e doce da minha caneta, este papel e os meus lábios a coroarem o que fomos, sem termos sido, no plano sensível.

(…)

Há três anos foi igual… lembras-te, L.? E a boca respirava-te como hoje… os olhos arrancavam-nos a alma como hoje… e, outra vez, tememo-nos.

Amo-te por resolver. Isso deve ser verdade.

Agora que te mandei mensagem e depois de te escrever isto (que tu não sabes, L. … tu não sabes o que eu te escrevi), vejo a verdade ácida… preciso de escrever.

Escrever deixa-me dar os pontos finais que não soube, que não tive coragem de dar nas histórias que não comecei. Permite-me revivê-las no papel, libertá-las… deixá-las ao ar… perdoar-me o medo, os dedos que não te tocaram. Permite-me ficar em paz. Agora. (espero que me leias, pela manhã).

(… – espaçamento de tempo)

E como te inventar agora… nos jantares que não são nossos, nos dedos que não são teus, na pele que não é a tua?

Sinto-te a pele, o cheiro, a suavidade rude dos teus olhos, na mudez vertical, a quererem-me.

Amo-te mais do que te quero… ou quero-te mais do que te amo… que importa? Que importa a métrica social, que te tenta permitir no Caravaggio do meu peito e das minhas pernas horizontais… viscerais… que te querem… no musgo das pedras que eu sou nas entranhas difíceis que te simulo?… quero-te e isso basta.

E resolvo-te aqui no papel… a ti que não tenho coragem de ter. A ti que nunca beijei. Não te conheço o cabelo… o cheiro dele. Fecho-te ou solto-te no bater das asas que este papel também tem – se não o é totalmente. E amo-te… ou quero-te?… que me importa?

#ElasDoAvesso

(abaixo uma música dos UHF, que me surgiu ao transcrever este texto 😉 )

Márcia Augusto

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A Márcia Augusto, autora do livro «Elas do Avesso» e fundadora deste blog <3

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De uma banda portuguesa muito amada <3

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