Cartas de Amor a J. e ao mundo que está a Ser I (Ou Diálogos Essenciais entre M. e J.)

Paro deslumbrada, enquanto te escrevo… A sentir o que sinto… pleonasmo necessário de quem quer ir ao Princípio de tudo o que tu és, que nós podemos ser.

O “pica” do autocarro sorriu-me como Quem é cúmplice disto tudo… como Quem faz parte deste Todo… um amor nos olhos que me dá, enquanto me sorri… que não sabe que me está a dar… não sabe que é capaz de dar.

O amor que damos não precisa que nos saibamos capazes dele. É dado. Porque tem de ser. Paro… Olho os prédios… E a noite que acontece nas paredes e nas luzes…

Choro… pelo milagre da visão… esta de Deus em mim… Esta de amar tudo quanto É… e a música da Bjork atravessa-me a cabeça com uma realidade metálica, de Verdade vertical e diz “All is full of love (…) You have to trust it”… Sei que são Eles. Deslumbro-me com quem me está presente… Me aparece agora em mim, que eu Sou.

É tudo demasiado evidente. E o teu amor curou tanto do que eu precisava de curar para poder ver isto tudo…

Meu amor, como és necessário num apriorismo urgente… Quem tu és, antes de tudo… Quantas vezes estiveste na minha vida? Quantas vezes nos cruzámos? Há quanto tempo estávamos à espera disto?

Quero-te na minha vida… num desejo sério, grave de inextrincável… quero-te na minha vida, se quiseres, até às últimas consequências… (333)

Amo-te… de amar inescapável… fadado desde sempre. Estou aqui.

(…)

Vim embora… porque provavelmente estava só a querer curar-me com falsas curas – e que, por serem falsas, elas não existem, meu amor -… as de fora.

Precisava desta viagem… de ler Vergílio… deste fenómeno de iluminação que te apanhou no meio…a ti… a nós… à mensagem que eu precisava para que nada disto ficasse por dizer.

Ama-me (só). Isso chega (tanto). Quero tudo contigo. Amo-te gravemente… não sei… de evidente. Amo-te… não sei dizer… não consigo dizer melhor. Tua, prometida no Todo*.

(…)

Enviei-te um texto… às vezes, tenho medo de ser chata. Eu sei que sou só eu a projetar-me em ti… estes medos. Mesmo que saiba… não posso governar-me por condições de estado que não existem.

Deixa-te governar pelo que realmente és. Mas não tens de ter medos; é importante que não os tenhas. Ninguém se pode governar por condições de estado que não existem. Tens razão… Explica-me, o que sentiste esta noite?

Como assim, o que senti? Sei lá… uma verdade… um deslumbramento de mim para o mundo, com o mundo… Como se isto tivesse sido sempre uma ilusão de dor… A verdade estava… está ali…naqueles momentos em que o que Eu Sou me toma e me deixa ver… Como se o paraíso da Bíblia fosse uma alegoria para uma escolha dos teus olhos… que só te refletem o pensamento, o que a tua mente te deixa ver… ou o que tu pedes que ela te mostre…

São águas muito profundas para mim, difíceis de explicar… de tornar verbo… não sei… As palavras vão sempre falhar… Vão sempre ficar aquém… Porque o que eu vejo não é do mundo das palavras… da linguagem… É do Pensamento. E eu já achei, muitas vezes, durante toda a minha vida, que sou maluca… Mas acho que não pode ser isso, porque eu tenho uma evidência de mim feliz. Tenho uma evidência muito clara de que sou feliz… que não tenho, quando penso e ou vejo “normal”. Mas há um temor… um temor de que… aquilo que eu penso… aquilo que eu te digo… não sirva para nada…

Por isso, quanto a nós… não sei… tenho medo…  às vezes, acho que sou só uma maluca fundamentada na Filosofia, na procura angustiante e vã do Princípio de tudo… E que, inevitavelmente, um dia não vais perceber o que eu digo – se é que há algo para ser percebido – e vais embora. Como se isto que eu Sou fosse uma estrutura demasiado pesada, de pergunta existencial parva, que não serve para nada e que, na iminência da perceção fatal da inutilidade do que eu digo ou faço, vais embora. (Creio que sou eu que não valido o que faço ou digo; o erro é sempre o mesmo, o engano da insuficiência, da incompetência e do terror de não sermos amados).

Foi o ver para além da dita normalidade e o não pensar que te trouxe a esse teu estado de absoluto ser, de saberes quem és? E quais são essas condições de estado que não existem? Sei que há coisas que não vou conseguir perceber, não da forma que falas, se calhar, vou compreendê-las através de outras ferramentas, mas,  independentemente disso, o ir embora não é resposta. Ir embora assusta-me, isso deixa-me transformado num baralho de cartas montado em castelo. Posso não estar mesmo a perceber-te, ou a não querer entender-te. Tenho medos? Mas, para que ter medos? Quero mesmo compreender-te, mas tenho medo de não o conseguir e que te vás embora.

(…)

(ainda assim… sabendo do teu interesse nulo na Filosofia, acho que só mesmo um homem que me ame como tu, me pode aturar assim, desta forma… a boa notícia é que passa, meu amor, passa sempre).

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Márcia Augusto

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