Eu de mim a mim mesma

Deslumbrei-me…. os olhos tomaram-me os meus olhos… meus, mas não eram meus… ou quem eu sempre fui, mas tive medo… ou fiquei petrificada…  sem me mover durante uns cinco ou sete minutos… tomada pela Verdade… pelo o susto bruto de mim… pelo baque de mim, de quem eu Sou a mim mesma. 7

Os olhos ganharam uma luz própria… assustadora, porque veraz… não havia corpo (nem tempo)… só os olhos; o corpo suportava a luz, a mensagem dos olhos.

Fiquei imóvel, na mesma posição, a descobrir-me de mim durante minutos… chorei… sem chorar, a ver cair as lágrimas, a senti-las, sem que me fosse permitido sabê-las, percebê-las… só sê-las – às lágrimas.

Lágrimas que não sei de onde vinham… não como choro próprio de uma emoção no corpo (…), nem de alegria nem de dor… de deslumbramento, de admiração, de pergunta… interrogações fatais, últimas… de quem É, que está ali… que eu estou a olhar ou que me está a olhar… parecia-me que me estava a olhar… foi um misto de medo e de revelação… de admiração, de deslumbramento, de quem não sabe, como se – não como se, dessa forma mesmo – acabasse de conhecer quem me habita, desde estes meus anos… e eu não o conhecesse… não soubesse.

Invencível… imperturbável… impassível… no corpo, mas diferente dele… grave e imponentemente diferente, a avança-lo, a vencer-lhe a separação nos olhos…

O corpo mexia… tirei o dedo do queixo, pousado, carregado, admirado, há uns cinco minutos… movi a cara… a parte de baixo dos olhos e a boca… como se dos olhos para cima, algo separasse, fosse só a Ser. Devagar, muito devagar, num tempo que não conheço… os músculos da cara, a rodar a leveza separada, grave, da minha boca… devagar… mas definitivo… e os olhos que lá estavam comandavam, mas eram independentes… não precisavam de boca… de nada a ser para Ser.  

Uma presença que se impunha, sem se esforçar para impor… de quem vem e sabe que é impossível não se lhe ceder… não se lhe curvar.

Esteve sempre lá… só não vi… fiquei assustada… choro agora… ainda não sei o que foi aquilo…. sei que foi Verdade… provavelmente o momento mais verdadeiro da minha vida. O momento que muda tudo.

(Quero saber como vai ser a partir de agora que sei, que me apareci a mim, como me vou deixar guiar, quem eu vou ser. Se vou ser quem Sou… estes olhos, esta luz que os governa, que os usa descarada e abusivamente, legitimada pelo preâmbulo anterior que É, que, mesmo sem mandar, governa esta máquina, este corpo que a assiste no mundo… a esse Quem de que até agora só tivera vislumbres de presença, indícios… intuições vagas… às vezes, viscerais … mas sempre vagas… de ignorância original de quem não sabe e tenta adivinhar…

Como vai ser? Como vai ser agora?

Agora que eu sei que Ele existe… que Ele está aqui… que sempre esteve… que escreve, agora, isto. Como vai ser? Sou dois? O corpo que faz e a mente que conduz?

Ao espelho, houve uma evidência separada, uma hierarquia natural… grave, edificante, fundamental… evidente. O corpo segura a luz, separada mas que guia… ilusoriamente vencida, delimitada pelo corpo, que só a suporta, dá contorno necessário aqui. Como o condutor… que não é o carro, mas precisa do volante físico para seguir a estrada… Quem Sou eu? Como vai ser agora?)

#ElasDoAvesso

Márcia Augusto

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Na marcha apoteótica de mim a aparecer-me. (diz que se chama) Márcia Augusto

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