Em tudo eu entrei para falhar

Em tudo eu entrei para falhar… nos empregos, no amor… tudo tinha um fim certo.

Escrever foi ou é a única coisa em que eu nunca achei que pudesse falhar (porque na escrita não se falha… na escrita faz-se o que tem de ser feito, aceita-se a criação como ela vem)… que pudesse acabar… com ou sem apoios (?), barulhos ou golpes de asa… eu haveria de escrever sempre, porque isso é a minha (?), a minha banda sonora de filme, a minha hollywood inventada… a minha brincadeira preferida de infância…

lembro-me de brincar aos livros… de passar tardes a fazer cópias em folhas A5… de as atar com linhas que tirava da caixa de costura da minha avó… atava as folhas com linhas e fazia disso os meus livros… lembro-me de os separar… um era para a minha mãe, outro para a minha avó, outro para o meu pai… enfim… incrível como as respostas estão lá todas e nós… nós passamos mais tempo a ir ao futuro… um futuro inventado, maltratado, que nos magoa…. isso não tem de ser assim.

Escrever… escreveria… escreverei sempre. Porque isso é o meu golpe de asa.

É o que me confere o poder de reinventar, de manusear, de lidar com o mundo que me dói… é a maneira que eu arranjei de perdoar o mundo… de fazer as pazes com ele.

Mas o amor, o amor dos homens… esse ou nesse… entrei sempre para falhar… para acabar…

com as mãos no chão, com os dedos cortados no frio do que não é… no sangue das flores que eu inventei.

O amor não era possível… nunca foi… por muito que eu me mentisse, me simulasse… o amor estava sempre fadado ao fim… Nos primeiros olhos, nas primeiras línguas que se conhecem – é sempre um momento importante o encontro das línguas… procuram-se à espera do movimento do outro, dançam no pas de deux que compreendem (não sabem que isso do encontro não se percebe, não se adequa, não se pode procurar), é quando vamos ver se resulta… 

se estes corpos podem andar… é, porventura, o sinal de que a alma e o corpo concordam… não são as mãos, não são os olhos, tão-pouco o sexo… são as línguas… esse cumprimento ancestral de reconhecimento… decidem se já se conhecem ou não. As línguas.

Lembro-me de todas as línguas, de todos os sins que dei nas línguas… e de todas as caras feias que fiz por dentro e, por isso, eles não viram… essa coisa de não dizermos logo que não gostamos… de esperar que estejamos no colo do quarto, das nossas paredes inventadas, para decidir que não vamos querer mais encontrar aquela boca… ninguém acaba um beijo – o primeiro – e diz “olha, não gostei nada… deus me livre e guarde… vai-te lá embora”.

(…)

Fosse o que fosse, mesmo nos sins mais viscerais, mais arrancados das artérias e do peito a gritar, eu sempre lhes fadei o fim.

Nunca achei que as coisas fossem para durar… nunca lhes encontrei esse propósito… o de durarem, o de ficarem… é certo que isso me dotou de uma visão mais desprendida do que o normal… lembro-me de, com 10 anos, o meu primeiro “namorado”, o meu primeiro beijo – depois de horas a treinar a língua no joelho (afinal de contas, eu tinha de ser boa em tudo) – ia chegar ao fim… lembro-me de saber que ele ia chegar ao fim… lembro-me de pensar, “Ok… qual é o tempo que isto tem de durar para ser considerado normal?”… E acabou numa semana, que eu não tinha paciência para “encontros na árvore”… um beijo na boca na preparatória era o acontecimento… era o “post” do Facebook… todos se juntavam para ver, perguntar, opinar, dizer que sim…

(…)

Depois, foi só repetir… umas vezes mais intensas do que outras… Mas em tudo eu entrei para acabar.

Hoje, acho que me cabe olhar para isso com coragem…. a coragem de entrar sem lhe decretar um fim… a coragem de não me importar com isso… com as películas de proteção do vidro do peito…

Acho que está na hora… que estou preparada… ou a preparar-me para isso de amar… sem cláusulas, sem armaduras, sem escudos que me escondem e me fazem viver no meio. Acho que, agora, também no amor, nos homens e em tudo o que deles vier, estou preparada para não os findar, para não lhes dar datas de fim… para não os falhar… para não viver na bolha do fim… acho que sim.

Como escrever… não vou escrever sempre o mesmo… mas sei que vou levar as letras sempre comigo… elas são-me, eu sou-lhes… ou somo-nos…

Os homens, o amor não… nunca me foram nada… o amor era uma jaula inventada para não nos lembrarmos de que estávamos tristes… ou de que estávamos sozinhos (hoje sei que não estamos… que ninguém está sozinho… isso é impossível). Quando muito, eram uma pomada cicatrizante – não necessariamente catártica – das feridas que eu não sabia que tinha (sabemos das nossas feridas? Falamos com elas? Temos essa coragem?… de olhar para o que achamos que nos fez mal?)… das dores que pulsavam mais naquele momento… e eles calhavam de aparecer no momento certo (não tão certo, se calhar também…)

no momento em que eu estava mais disponível, mais disposta a achar que também eu precisava ou me convinha apaixonar-me.

Hoje em dia, tenho-me perguntado por que razão isso já não acontece… que é feito do meu desejo de lhes acabar com a raça, de os saber, de os consumir até ao fim? Já não lhes quero o fim, já não os quero para pomada… quero só a eles, a Ele que vier, como vier… sem fins marcados… sem testes de língua… com a naturalidade dele a Ser… sem ter de me fazer corresponder à casa velha que eu acho, ou achava que precisava. Quem acha sempre o mesmo?

Não sei… só sei que desta vez não quero nada para falhar… não quero regras do fim…

Quero Ser e quero ir ao que vier… sem nada do que eu posso achar… sei que isto é, provavelmente, idílico… vou sempre achar coisas… mas, pelo menos, que não entre para falhar… isso já me deve bastar.

#ElasDoAvesso

(?) significa que não sei o que escrevi, porque escrevo sempre à mão.

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