Do lugar onde eu não preciso de asas

Às vezes, fico com saudades de casa… quero voltar… como se soubesse que o meu lugar não é cá… que eu não sou de cá… fico com saudades de quem eu sou… a paz que eu sou onde não há mundo… isto que é o mundo a magoar-me, isto que eu deixo fazer-me esquecer de quem eu Sou… porque eu não sou isto… estas lágrimas… esta dor que me dilacera… esta faca… este metálico fatal que me parte ao meio… como se eu fosse duas… isto que me dói nos olhos… no corpo a ser…

Não sou isto… não sou este corpo… confinado aos limites da minha pele… do medo que me dói… o que me dói é doença… de tudo o que eu me esqueci de ser… como se eu estivesse a ser quem não sou… dói-me não ser… mas é difícil Ser…

Como pode ser essa loucura de ser difícil Ser? Se eu eu já sei…se eu já toquei quem eu Sou?… dói-me o mundo… e só as árvores, este sol que as raia… não me podem falhar… não conseguem (porque eles são como eu quando eu Sou, ou eu sou como eles, quando eu Sou)… nem ao coração que me sabe… ao que o levanta… ao que lhe endireita a coluna… porque o meu coração tem vértebras, tem elos e tem uma coluna que o levanta. Às vezes, eu entorto-a… contorço-a, faço-lhe desenhos e curvas que não são para ela… e ela dói-me… quando me confino ao que não quero… cedo ao medo… ao medo do que não é.

Só temos medo do que não existe…  do que inventamos… porque se o que inventamos existisse já, nós não tínhamos medo, nós reagiríamos… fugiríamos, lutaríamos, salvar-nos-íamos… ou, pelo menos, tentaríamos isso da salvação… 

O medo é sempre uma invenção delusória, falaz, estilhaçada em vidros que não cortam, do que não existe…

Então, por que vivemos nele?… no que não existe? É tão difícil, tão doloroso, tão frágil…mais do que falível…condenado… falho… viver no medo…

Dói-me nos ombros… tenho as bochechas tensas e os lábios murchos… doem-me as lágrimas que me libertam… como este sino a tocar… a lembrar-me de que é a hora… a hora de escolher o outro lado…

E as bochechas já se levantam na cara… esqueço-me do que sou… desonro-me muito… cobro-me muito… faço-me tão mal… mas as rolas salvam-me… os pássaros podem sempre salvar-me… é só lembrar-me de que eu Sou como eles…

mesmo quando as minhas asas são de papel inventado… nestes ombros murchos, cansados, cedidos, sentados na vida… 

que eu invento, que eu temo e que não existe…7

Pudesse eu ser sempre como as árvores… lembrar-me sempre de como Sou grande, verde e que me imponho ao Azul, ou sou com ele… onde há espaço… onde ele, o espaço como o vemos, não existe… só o espaço de ser… sem larguras, nem dimensões… ser e pronto… e voar… mais do que isso, fundir-me, ser-me no ar… ser tão leve e necessariamente livre que as asas não existem…

E lembrar-me do que os meus olhos veem… eles veem tanto… e eu só me esqueço.

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Quase normal só que Márcia.

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