Cartas de Amor a J. IV (as palavras, sempre as palavras)

M. Augusto

Desculpa. Por ser assim… Volátil. Sujeita à intempérie das palavras… àquilo que eu lhes invento… O poder que eu lhes dou… O poder de me destruírem… As palavras, meu amor. E, às vezes, eu não sei se sinto isto tudo… ou se é um capricho de lirismo… um capricho de sentir, de chorar como agora… não sei…

Não sei o que é isto, amor… isto, esta necessidade de inventar a dor… de a sentir, de a cravar ao meio em mim… de me dividir a mim… esta que eu sou… que eu não sei… esta a mediar tudo agora… quem te escreve agora? Não sei… este peito a cortar, a inventar palavras…

As palavras doem-me, amor… elas encenam cortinas e doem-me, amor… iniciam histórias, teatros que não sei… e magoam-te depois, amor… como se eu precisasse de magoar, porque sinto ou invento que tu me magoaste com as tuas… as palavras, para mim, são como armas de dor… têm poder…  o poder de te mandar para longe, de dizer que não quero, que não sirvo e de te dizer vai embora… com a frieza cortante de uma mentira de que sou capaz…

Como eu te quero, amor… como eu me sinto perdida, frágil, quebrada… às vezes… só de pensar que vais… neste anti-heroísmo inventado… no herói-pícaro que me descobres a cada dia… acho que tenho medo de te amar…. Tenho medo de amar… que o amor me faça mal… me prenda… me corte… me enfraqueça… me faça esquecer de quem eu sou… na verdade, amor… é no medo que eu me esqueço de quem sou…

Vês a minha luz? É isso…

esse poder que tu tens de ver a minha luz, mesmo quando eu estou assim… na terra, a arranhar as paredes de aço que a terra tem por baixo….

Aí.. é aí que tu me vês… frágil… pronta a cair… a sobrevoar o que eu sou… a despedir-me  das asas… da candura de que eu me canso… mesmo aí, tu vês-me… mesmo aí, tu és capaz de me amar… e isso irrita-me…

A tua capacidade de me amares incondicionalmente irrita-me… torna as minhas ameaças de não ser, torna o meu medo impotente… e, por isso, ele cede amor… ao que eu sinto por ti… quando vejo que me amas assim… quando nem eu sou capaz de fazer isso por mim… e irrita-me… irrita-me que alguém fora de mim me possa amar mais do que eu… possa ser incondicional comigo e que eu não consiga ser isso grande comigo… irrita- me… confere-me impotência.. despede-me o poder… o poder de continuar a fazer-me mal… e parece que me apego a fazer-me mal, amor… à minha treva….

Ela escreve melhor do que eu… a minha treva… ela, às vezes, pode mais do que eu… só não pode mais do que tu… do que o teu amor… que fica…

que fica sentado, de joelhos nas pedras à espera que eu volte… esse amor absurdo irrita-me… deixa-me sem armas que me possam ferir…

Se soubesses como choro agora, como me turva a visão… isso e essa mania sensata de não me achares maluca… de achares tudo isto visceral, sensato, honesto…

Dizes que a escrita te assusta porque não sabes o autor… na minha voz, mesmo que dada à blasfémia e à mentira, tu perdoas, meu amor… porque é minha… e é isso que eu não quero… que perdoes… que fiques igual… que me ames na mesma… porque isso deixa-me impotente… impotente para me fazer mal…

Acho que tenho medo que me ames… tenho medo de te amar… medo de não saber mais cravar punhais… medo de ser feliz, amor… sabes? Medo de já não ter por que pedir à vida… é por isso que eu acho que sou maluca e que tu devias procurar outra… outra que te saiba amar, amor… outra que não te diga que tem medo… medo de te amar… de ficar em ti e de não saber voltar…

É disso que eu tenho medo… de ficar dependente… enfraquecida…

no desenho inventado num quadro qualquer de parede… tenho medo de ficar lá, amor… na paisagem das coisas… natureza-morta de nós… de mim… isso aterroriza-me… morrer nas paredes, sem sentir… um bibelot na mesa de entrada, do mofo da casa, mofo que cheira a cinzento

Das portas que não se abriram mais… respirar sem saber por que o faço… respirar sem saber ir embora depois… tenho medo de não saber ir embora depois, amor… tenho medo de não saber voltar para casa… como se tu estivesses fora de mim, pronto a roubar-me o que é meu… pronto a despedir-me o que é meu… por isso te disse, se calhar, ontem… que tenho medo da visão do nós… por isso, te disse também que, se calhar, mesmo que o cante, eu tenha medo da visão do Todo…

medo de perder o meu estatuto envaidecido… busto inventado de supremacia nua, cuspida, idolatrada… tenho medo de te amar…

Tenho medo, muito medo de ser amada… de não saber voltar… como se o meu destino, o meu propósito fosse sempre este… o de viver sozinha…

confinada às minhas paredes, à solidão e ao vazio da minha vagina… desejar um homem só porque preciso dele agora… e mais nada… sei que isso não é… mas, durante muito tempo, chamei isso de liberdade… o poder de lhe convocar a boca e o vigor…

para depois saber ir embora, sempre… mesmo que gostasse um bocadinho dele…

eu devia saber vir embora… porque o meu caminho de casa era esse… o de voltar… sozinha…

Tenho medo de estar acompanhada, medo de acreditar nisso, porque na minha cabeça isso depois desaparece… porque todos estão fadados a abandonar-me… e se não me abandonarem, eu vou… faço-lhes mal o suficiente para não virem, para desistirem de mim… e tu ficas (será que ficas?) mesmo depois de te dizer isto… e eu acho que não posso resistir mais… apetece-me mandar isto tudo à merda e ficar contigo…

mesmo que me aches dramática, teatral e com um pau de Molière sem peça… eu bato no chão, mas a peça nunca começa… ou começa, mas eu desisto.

Manda tudo a merda e fica comigo… não tenhas medo disso… de seres amada incondicionalmente por mim, não tenhas medo de me amar. Perde-te comigo, perde-te toda comigo. Preenche-me e deixa-me preencher-te sempre. Sempre… não vou fugir, não tenho por que fugir nem tens (não sei quem está aí, nem tenho medo de quem sejas) forças para me afastar, disto que eu sinto e que eu quero e que eu sou. Não és fraca e só tens cada vez mais força no meu pensamento, nas minhas vontades. Dás-lhes mais força.

E convoca a minha boca e o meu vigor, sempre, porque eu não me vou embora…

E tu queres amar esta pessoa que ora é vestido de pregas, ora é costuras ásperas de uma roupa que não conhece? Ou isso é tesão intelectual? Tenho medo… pode ser sempre tudo, menos amor.

Não és maluca… és só filósofa. Pões tudo em questão. Deixa essas perguntas… quero ficar em ti!                       

E quando eu deixar de fazer perguntas, ainda me vais amar?

Eu acho que tu me amas mais nestes momentos em que eu vou sabe-se lá para onde… é como se tivesses tesão intelectual… tesão de não me saber… e, um dia, se eu ficar calma em nós, sentada numa soleira de pó, isso passa.

Como as velhas nas soleiras das casas das ilhas… a olhar… calmas, sem dor que lhes passe… cheias de lamúrias de quem não viveu… com os joelhos tortos e as varizes do sangue verde, que não se mexe… mas plácidas… da paz que mete medo…

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Márcia Augusto

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Márcia Augusto (autora do livro "Elas do Avesso", aprendiz de Filosofia, cheia de sangue e rosa nas unhas)

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