Cartas de Amor a J. V

Márcia Augusto

Sei que me temes a treva. Sei que corro o risco de nunca mais saber de ti a partir de hoje.

Também sei que te disse coisas duras…Coisas, algumas, que, provavelmente, não são verdade e foram o fel a falar, o fel que tu me provocas.

Porque eu não te sei amar, não sei isto de ficar vulnerável com alguém. Não sei isto de poder sofrer as texturas, a tua pele rugosa na minha a ser. Tenho medo de te amar.

E é por isso que fujo… que te invento… que te cuspo o fel, o fígado e tudo o que eu conseguir para te adiar o amor.

Sei que, hoje, te disse o acre todo das paredes.

Pendurei os monstros todos na tua sala… e deixei-te lá… a ti, ao musgo das paredes secas, à tua cerveja e à madeira do bar… às opiniões das velhas de calças e de whisky empunhado…

sei onde te deixei… sei os riscos que corro.

Dói-me o coração.

E já não sei se escrevo por libertação, por capricho ou porque é mais fácil aqui.

Lidar com a merda toda que eu te sou à mesa… aos jantares que eu estrago… e a todas as asneiras e as coisas erradas que eu faço…  sei que tenho medo… tenho medo de ser tua… tenho medo de não saber ir embora… e sei que já te disse isto… mas tenho medo…

Continuas sem me responder e o meu peito aperta… provavelmente, tão cedo não saberei de ti… depois de tanta palavra em escarro verde… cuspi-te tanto ódio, tanta raiva… tudo o que te odeio, tudo o que tu me falhas… tudo o que eu não gosto em ti… detesto que te apagues na pedra do cheiro a tesão seco de um bar… do vinho sujo e áspero nas mãos da madeira…

Depois não sei… é tanta necessidade de vomitar a dor no vinho que te vomito o morno…

isso de ti morno a seres…

isso de não saber quem tu és e ainda assim amar-te… mesmo que tema… acho que temo, porque não sei quem és… tenho medo do que tu és capaz de fazer… tenho medo dos teus feitiços hábeis e dos teus olhos… o que me chateia é que temo os teus olhos, quando eles me amam… tenho medo de ser amada… tenho medo que me falhes… e tudo serve para me falhar… a madeira viscosa de um bar, o DKNY inventado e a tua pergunta morna do “o que é que foi?”… como se o que eu sou não fosse normal…

Chateia-me também que te ponhas com merdas a questionar o meu discurso, quando eu penso e verbalizo a dúvida sobre o que é mais adequado dizer… “consecutivamente ou consequencialmente? É que “consecutivamente” é o termo certo em português, mas “consequencialmente” tem implicações filosóficas que podem aproximar-se mais do que quero dizer”… dizes-me para “falar à vontade”, como se isto para mim não fosse falar à vontade… como se isto para mim fosse simular-me… era mais fácil, para ti, que me desfizesse em palavrões… para mim também… mas essa não sou eu… eu também sou esta, à procura da palavra que mais me serve, à procura da palavra mais perfeita… mais próxima daquilo a que não chego, daquilo que não consigo contar…

Dizes que te chateia não estarmos em sintonia… a mim chateia-me mentir-me, simular-me… foder-me por dentro… inventar que estou bem… não ouvir os demónios de dentro… eu vou matá-los, um a um… sei que vou… mas, para isso, eu tenho de olhar para eles… saber quem são… saber o que me querem… de onde vêm, de que vidas, de que tempos, de que terras que eu não vi…

Sei que tenho medo… medo de ficar… medo de ser vulnerável… medo de sentir ciúmes como hoje… medo de ter medo de perder… isso faz-me sentir enfraquecida… é como… mais vale não ter do que ter medo… sei que é acobardado… mas morro de ciúmes … mesmo que por um DKNY inventado… tenho medo de me sentir fraca a ser… e sei que isso nada tem a ver com amor… tem a ver com posse… com medo… com falta de luz… com terror de te perder… como se algum dia tu me tivesses sido dado…

é como se te vomitasse à vida… vaca cuspideira de uma erva demasiado boa a que não se quer habituar… tenho medo de me habituar ao teu cheiro, à tua pele quando acordo e até à tua dureza, à rapidez com que entras em mim e me resolves… ao amor todo que me dás…

temo que um dia tudo isso vá… e, para não te perder, invento que prescindo de ti e vou embora…

Sei lá eu o que digo… provavelmente , vou gastar-te…  a ti e a tudo o que me queres dar… seja… mais encarnação, menos encarnação… não te queria falhar… mas quanto mais fico, mais medo tenho de te amar…

Gosto de sair de carteira, sem casa para ficar… gosto de sair sem estojo das lentes… gosto de ter a segurança de que não vou poder ficar em tua casa… ficar em ti é perigoso… aqui… no vazio e na segurança do meu quarto é mais fácil… termino este texto, leio Teixeira de Pascoaes; amanhã acordo… vou ao ginásio e à depilação… dou explicações de tarde… não espero nada da vida…

e é aí, aí onde eu não espero que tu me ames ou que fiques… aí onde eu não tenho de ser perfeita, nem de lidar com o terror de te amar… aí, na insipidez do calendário é mais fácil…

vou sentar-me, escrever, enviar e-mails… dar cursos… e tudo o que me lembrar…

livre do visgo do medo… do medo de te amar…

de não saber fazer isso… de querer ter, em vez de só te amar… as pessoas confundem amar com ter… eu, como não sou malabarista de emoções, deixo tudo cair… prefiro sair a correr… livre desse peso… do medo de não te saber amar.

 

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Márcia Augusto

 

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