Cartas de Amor a J. VI

M. Augusto

Sei lá… não sei… não me perguntes o que se passa ou por que se passa… Acho que, eventualmente, um dia isto se vai curar… Mas eu devo achar que não tenho de ser feliz no amor… Nas relações amorosas… É como se… Isto não é para mim e eu vou acabar por ficar infeliz outra vez… Fico triste, porque te faço triste… E, um dia, se calhar vais embora…

Porque te gastei o coração.

Mas não sei… Não me apetecia ir almoçar, mas fui porque senti que tinha qualquer coisa para aprender… Depois, pegaste nos miúdos para virem connosco e eu fiquei irritada… Estava chateada… Apetecia-me abraçar-te… Despedir-me de ti… E eles, tão puros quanto inocentes…

Senti-me má pessoa por não querer crianças à minha beira… Senti-me inadequada… para sempre bicho que nunca será mulher para ninguém querer para sempre… porque, ora quero o amor absoluto, ora quero a solidão e o silêncio do céu.

Apetecia-me ler… E não podia ler ali ao almoço… Depois, não sabia se isso era pseudismo, defesa por não estar confortável ou se era Verdade… Também sei que penso demais… E que um dia vais embora, cansado, desgastado.

Também tenho frio… tenho olheiras fundas… E, às vezes, não me apetece estar aqui no mundo… Dói-me o mundo todo…. como agora que choro nas cadeiras barulhentas do hospital…outras vezes, amo todos… como quando entrei no metro. Estava cheio e eu amei aquilo tudo… A pele, os olhos e os sorrisos das pessoas…

Ouvi a Paper Bag da Fiona Apple… Partilhei-a no Facebook e tive medo que achasses que era para ti, ou que as pessoas achassem que eu estava com problemas amorosos e que isso ia levar a que o pensamento delas se convertesse em má energia para nós… sei que, se fosse a um médico, ele ia receitar-me medicamentos para a cabeça… E isso assusta-me, às vezes, faz-me vacilar… perguntar se sou maluca… Mas, também, e se for?… A verdade é que sempre fervilhei na cabeça… E que tenho de ler… ler muito… isso acalma-me a cabeça… ouvir música clássica… escrever… tudo isso canaliza a energia tão potente, quanto assustadora do meu pensamento para o Belo… Para o Amor… A paz das coisas.

Mas agora estamos em mudanças… eu já não estou sozinha… E sinto que não tenho casa… É como se tudo fosse transitório… Agora já não é a minha casa… É a casa da minha mãe e a tua casa… E eu divido-me entre isso… Não tenho mais o meu reino… o meu espaço. Isso desestabiliza-me, por um lado, mas entusiasma-me por outro… Isso de não ter nada… E de casa ser onde eu fico naquela noite… E gosto de te falar disto… Apego-me à loucura, se calhar… ou só me divirto com isto de te contar de mim a ser…

Ainda não percebi o teu fascínio por mim… Porque, na verdade eu mostro-te o pior… nunca o boneco inventado ou arranjadinho que dou ao mundo… À tua mãe, à minha às vezes, à faculdade, às apresentações e ao mundo.

Só os livros e tu sabem quem eu sou… Só tu sabes que choro agora porque sim… Porque é natural chorar… Porque a dor tem de me sair.

Escrever ajuda… para ti… E eu sei que sou uma “avariada”, mas eu Amo-te. E sei lá… Espero que um dia possa ser mais leve contigo. Perdoa-me. A Ela (seja lá quem ela for).

#ElasDoAvesso

 

Márcia Augusto

recebe-me, a mim e ao livro «Ela do Avesso», em casa

recebe-me, a mim e ao livro «Ela do Avesso», em casa

P.S.2: POR FAVOR, FAZ PARTILHA PÚBLICA COM A HASHTAG #ELASDOAVESSO.

RECEBE A NEWSLETTER D‘ELAS DO AVESSO AQUI

 

 

Partilhar
0

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *