Da sabedoria alcalina

Gosto de descobrir que estava errada… gosto de respirar por baixo das superfícies… ir ao fundo… ver as paredes e os fundos enlameados… gosto de já não ter medo de olhar e ver… de já não ter tanto medo, pelo menos… gosto de ser quem eu sou… mesmo, e sobretudo, quando isso assusta, repele, causa estranheza… gosto de despedir o boneco… de pagar o preço por já não ser um boneco… de ver tudo o que não serve ir embora… gosto que a vida, com dedos sábios e alcalinos, limpe o que já não é nada aqui… que pessoas vão embora, que já não façam parte, de ver círculos que se cortam… de ver árvores e caules a partir…

gosto do Apocalipse que parece… porque ele limpa… limpa-me o lixo, o absurdo e o batom seco, o batom amarelo e verde dos lábios a saber a azedo, quando eu não sou…

gosto de mandar isso embora… gosto de ser fácil, clara, chata e sem assunto nenhum… gosto de perder tiques de intelectualidade, de separação e de defesa… gosto de ser a louca, a metafísica, a parva, a frágil e “frita”… gosto de ajudar no teatro de despir… de estragar jantares, de não alinhar no suposto… de mandar à merda… de não jogar cartas, de não ser o desenho que quiseram para mim… não sou nada disso.
Ó amada liberdade… que saudades tuas… orgasmo das minhas artérias a ser… agora que o ar passa melhor, agora que encostei o exaustor ao contentor da rua… o lixo todo… esta sou eu… e depois?
Gosto que me olhem com ar de admiração cáustica, entre a pergunta e a vontade de ser assim… ser assim  é fácil…

dançar na sala do mofo, de saltos altos, de vestido a rodas de naftalina, isso de pele enrugada de mim a ser… não sou… não quero ser… o que eu sou é violento e plácido… é desajustado… desenquadrado… é, às vezes, sem cuecas, outras vezes de sobretudo no verão…

é o tempo que me apetece fazer… e não me venham com merdas.
E deixem-me ser.
Deixem-me ser o barulho das harpas e o incómodo das alcatifas nos pés… deixem-me ser nesta pele… eu gosto dela… livre.
A liberdade tem um preço… a aparência da normalidade… agora que eu já não sou normal, tenho poucos amigos… sou mais analisada, mais desejada, mais alvo de capricho também… agora, eles querem ser como eu, mas não sabem… e, quando não se sabe ser livre, ataca-se a liberdade.
O ego não está preparado para ser ameaçado, para desistir do boneco que construiu… agora, que eu o abandono nas pedras e no ermo da eira, ele rasteja com braços doridos, empoeirados do que não é… e eu vou, vou embora.
Outra vez.

#ElasDoAvesso

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P.S.: Partilha, meu bem <3

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Sou um boneco, mas o que para já não me livro de ser… o do corpo… o boneco da mente, tento desfazê-lo… mesmo que isso me saiba a fel. Márcia

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