Nunca nada me magoou tanto como escrever

Nunca nada me magoou tanto como escrever… e nunca nada eu amei tanto como escrever. Uma vez eu ouvi “vais saber que amas, quanto mais vezes perdoares”… e acho que é isso… por muito que escrever me magoe, entregar isto, esperar, sonhar com fios e pavios de nada… sei que é isso… porque, por muito que me magoe, eu escrevo sempre… eu preciso de escrever… com ou sem aplausos, com ou sem sucesso, com ou sem ouvidos, brutos, sensíveis ou ensurdecidos… o que for, eu preciso de vir aqui, na escrita, resolver a dor do mundo… perdoar-lhe as coroas de sangue que me dá, ou eu me dou…

Nunca nada me magoou tanto como escrever publicamente… nunca nada me magoou tanto como lançar um livro… ver o que eu escrevo às mãos doridas do mundo, vulnerável à surdez, à insensibilidade, ao veneno das línguas e aos braços arrancados… os braços que sempre me arranca isto dos livros… a pele, a carne viva em que, às vezes, eu me deixo ou sou deixada, porque decidi isto… ou decidi por metades… porque tenho medo…. Se não tivesse, não escrevia isto, nem chorava…

as dores do mundo… as dores das coisas não serem como eu acho que deveriam ser… mas elas não podem ser, porque, se fossem, eu não estava aqui agora… a visitar isto tudo… a ver como me doem o fel, o laranja arranhado no peito, por dentro… as bolhas de sangue e de escarro na minha garganta, por tudo o que eu não digo…

Por tudo o que eu acho que é…às vezes, quando dou explicações de Português, falo muito mal de Camões… e é sempre uma seca, porque apanhe o aluno em que época do ano apanhar, ele está sempre a dar «Os Lusíadas»… e, claro, apanho sempre o Plano do Poeta, aquilo em que posso “cascar” mais o Luís Vaz… digo sempre que ele passa a vida a queixar-se… quer na lírica, quer na épica… e que está cansado de “cantar gente surda e endurecida”… e chateio-me mesmo com ele, com o Camões… porque o acho uma vítima social… e hoje percebi que me coloco como ele… como uma vítima do que os outros acham ou deixam de achar… uma vítima de não me enquadrar nos critérios editoriais de revistas, jornais ou sucessos de prateleira… e depois ataco com veneno e fel… porque não é “populucho”, porque não é não sei o quê… e dou-me ao “endeusamento”, porque penso… ainda no outro dia, lia Pessoa no “Desassossego” a falar sobre riqueza… ele falava de homens ricos, que tinham tudo… mas não deixavam livros… em contraponto com homens como ele, que não têm nada, mas deixam livros. Aquilo fez muito sentido para mim… ele sabia o quão bom ele era, mas sabia que não era ouvido… que só seria lido, quando morresse… e eu “endeusei-me”… senti-me quase uma dessas… porque eu acho que as pessoas não ouvem, não sabem valorizar o que eu escrevo…

não veem a menina que está a ali por trás, a contar segredos, a dizer coisas bonitas, outras vezes, más e feias, mas sempre verdadeiras, a enfrentar demónios… a ser corajosa… porque ir de caneta para as coisas é a forma que ela arranja de não ter medo… de o enfrentar, pelo menos… de o vencer no fim… mesmo que com olhos a doer de sal, entre a força que fazem para suster a água e o esforço, ao mesmo tempo, que fazem para se abrir…

Porque eu preciso de ver, mãe… e eu tenho tanto medo de ver… tenho tanto medo de olhar, ver por dentro… sacudir o pó… ver que, afinal, não há monstros no sótão… na minha cabeça, há muitos monstros… há os monstros que dizem que eu não vou conseguir, que aquilo que eu faço não serve para nada e que eu devia era ter uma vida “normal” e deixar-me de merdas… porque era mais fácil ir tirar cafés e aí, pelo menos, ninguém me faz mal… ou eu não me faço mal… aí, eu não tenho de enfrentar o insucesso, o medo, o terror em que eu vivo dentro da minha cabeça…

o terror de estar aquém, de nada servir, de eu não servir para o mundo… de eu dever continuar a mentira sã e acomodada de uma vida normal…

Tenho medo de não ter uma profissão, tenho medo de não me saber sustentar, tenho medo de nunca poder ir viver com o João, porque eu nunca sei quanto vou ganhar e como vou ganhar… eu nunca ganhei “nobéis” nem concorro a prémios… e hoje disse, pela primeira vez, ao João… não concorro, porque eu tenho medo de não ganhar… e uma vez que concorra, vou pedir para ninguém ler… porque me assusta submeter o que eu faço a análise… fragiliza-me… por um lado, é uma espada apontada a quem me lê, que lhe diz… olha lá, quem é que tu pensas que és para vir dizer que o que eu faço é bom ou mau? E, às vezes, acho que isso é verdade… que os prémios são uma “conice” para desempatar gente e mandar uns para a ribalta e deixar outros no subsolo… como se eles não fossem bons… quando, às vezes (quantas vezes?), esses só não ganham porque não são lidos, diga-se, entendidos… quantos poemas Pessoa escreveu para “nada”?… para a mesa de cabeceira, para a gaveta abandonada, vazia… entre meias, cigarros e incenso…

Escrever dói… e não é pouco… escrever sem pretensas de romance, sem esquadros, só porque sim e porque vem… dói como uma lixa no peito.

Tenho ouvido dizer que quem quer escrever, deve sentar-se todos os dias à mesa e tentar escrever meia hora… como se escrever fosse como ir ao ginásio… fosse uma tarefa para sair a ferros… e eu respondi que escrever é como fazer amor… não se faz amor a todas as horas, nem todos os dias… faz-se amor, quando se sente amor… e não é que o amor não esteja lá sempre, que está, mas nós não o sentimos sempre no corpo, na matéria… escrever é igual… está sempre em mim, mas eu não a posso obrigar a sair, à escrita…

Tenho um romance, que é meu, só meu… e ele sai, quando tem de sair… só duas pessoas leram as parcas páginas que já existem na matéria… e, às que falei e não leram, ouço sempre “então? Como está o romance?”… não está… “Não pode! Tens de escrever!”… e eu acho aquilo bárbaro… tenho medo de escrever…

escrever para o público foi a dor mais difícil que tive de atravessar até hoje… e que atravesso… as expectativas dos outros… o “está a vender bem?”, “quanto estás a ganhar?”… como se eu perguntasse às pessoas quanto é que elas ganham por mês… “ganhaste bem este mês? Pagaste as contas?”… acho que me davam dois socos… é o que eu sinto que me dão sempre que me vêm com estas perguntas de merda…

Mas eu sei… eu sei que sou eu que me cobro… me cobro tanto e duvido tanto de mim, que isso é projetado no mundo… eu sei que não sou mais uma vítima do mundo… sei que o vejo pelos meus olhos e que a responsabilidade pelo que vejo é minha… às vezes, ainda cedo… e mando pessoas à merda… outras vezes, agradeço por me ajudarem a ver a merda que vai na minha cabeça… como boa solipsista que sou… num tique metafísico que me salva… Somos UM. Uma mente… a certa… eu nem sempre lhe chego… mas quando a sinto… quando penso com ela… tudo é Paz…

(…) Também sei que não foi a melhor escolha para a distribuição… mas, eu tinha escolha? Eu tinha alternativa? Conseguiria lidar com a culpa de ter tido uma oportunidade e ter dito “não” por medo? Não, eu não conseguiria… ou, pelo menos, podia conseguir… mas, não tinha aprendido isto tudo… este caminho todo…

Não me enquadro e sou teimosa… e acho que não sirvo… e acho que sou uma incompetente, uma insuficiente, que nunca vou conseguir nada com o meu trabalho…

A carreira, o marketing, os trabalhos normais escondiam-me de mim… da minha insegurança, do meu medo de não conseguir… porque eu conseguia sempre… era mais fácil lá acreditar que sim…

aqui, cá em cima… a parada é outra… não há reuniões nem instantes de copy a brilhar… aqui, cá em cima… lida-se com os monstros, com as pedras que me estilhaçam os vidros e me deixam a cara a sangrar… aqui, eu duvido de mim…aqui não há um chefe a fazer-me sentir bem, nem a proteger-me, muito menos com medo que eu saiba mais do que ele… aqui há Eu… e eu tenho medo de mim… do que eu penso… do que eu sou para os outros, do que eu tenho de fazer por mim… tenho medo.

Quando as coisas correm mal… eu fujo… invento que vou arranjar outras coisas para fazer… porque tenho medo… de lidar com o insucesso… acho que se não corre bem, é para me afastar… como eu fazia com os namorados… e com os trabalhos… quando não corria bem, eu arranjava outro… mais trabalhos do que namorados… mas era tudo descartável… não dava, passávamos ao próximo… com a escrita, nada é descartável… a escrita sou eu… partida aos pedaços… esmagada no chão… com migalhas e sangue… aqui, eu não me posso abandonar… e, às vezes, se tento… fico sem lugares para fugir… não dá para enviar currículos para outro patrão… no máximo, há sujeitar-me ao mundo de baixo… e esse eu não quero… eu não digo que, às vezes, não seja preciso ir tirar uns cafés ou uns finos… às vezes é… não andamos 20 anos armados em parvos para, num ano, enriquecer com um negócio próprio… não é assim… pelo menos, não com estes pensamentos de merda que constroem o mundo que eu vejo… eu sei que já li o “Segredo” (não todo), que li o “Um Curso em Milagres”, que faço meditação, que faço Reiki, que sou terapeuta… e essas coisas todas… mas a merda da cabeça não se limpa com meia dúzia de consultas… desculpem-me os gurus da PNL… e aos que acordam o gigante num curso de 2 dias em coach… desculpem.

No outro dia, perguntaram-me porquê que eu gostava do livro “Um Curso em Milagres”… tão trabalhoso e com quase 2000 páginas… eu disse que era porque é um livro honesto… que me diz de caras que, ao trabalhar “direitinho”, vou avançar milénios em termos de consciência, mas que dores de há 2000 anos atrás não se curam de joelhos ou em horas de meditação… curam-se em vidas, em anos e anos a visitar o passado e o medo do futuro… e a lidar com os monstros todos… isto, como agora… saber que me enfrento… saber que duvido de mim em tudo o que eu faço… escrever e saber que, provavelmente, isto vai estar num blogue  e que toda a gente vai saber como eu me vejo… como eu, às vezes, me acho fraca, inútil e apodrecida… e como visito isso com mais paz… porque agora não culpo os outros… agora não há chefes para culpar… agora sou eu aqui, “sozinha”, com múltiplos comandantes da Paz a ladearem-me, a ajudarem em tudo… agora, sou Eu… e não é fácil quando Sou Eu… é mais poderoso, mas não necessariamente confortável… ser Eu implica não vergar… não me moldar ao mais confortável… ao mais apetecido… ao mais imediato… ser Eu implica ver que, às vezes, tenho medo e me faço mal… Ser eu implica isto… agora.

Ser eu implica não saber e continuar… mesmo quando o mundo me dói… e eu já não tenho muros inventados para fugir… Ser eu implica assumir o que eu quero… eu quero escrever, quero continuar a escrever… quero que isto chegue a milhões de pessoas no mundo… com ou sem estrelas, como ou sem aplausos… Ser eu implica isto… Ser na escrita… onde eu não tenho vergonha de assumir as minhas fraquezas… que são, porventura, as minhas maiores forças… isto de ficar vulnerável ao mundo e de ver que, afinal, não acontece nada… porque as armas são minhas e quando eu as baixo… acabam o conflito, a dor e o sangue todo que eu invento… escrever é resolver o mundo…

Escrever também me trouxe o João… o João a dizer que vai fazer as alheiras… o mesmo João que me disse… “devias ir escrever isso”… e eu disse… não é assim… escreve-se quando surge… mas, de facto, estava a surgir… ou tem surgido… uma dor enorme… menos poética, que me faz ter medo de continuar… porque temo falhar em tudo… mas falhar… falhei nas mesas dos escritórios… aqui eu enfrento-me… lido com os animais e os muros… e avanço-os sempre… mesmo que com joelhos arranhados e cicatrizes fundas… acho que os passo… que os tenho passado…

Márcia Augusto

P.s.: E não sei de que é que isto serve… isto que eu faço… mas, pelo menos, faço o que eu quero… sem filtros… sem regras a mandarem em mim… as únicas regras são as que eu ainda não venci dentro de mim.

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Márcia Augusto (às vezes, eu tenho medo... e depois?)

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