Dá-me azulejos e rosas, meu amor

Sento-me aqui… nesta janela inventada, num Porto que não me incomoda, que não faz barulho…

Tenho cuidado…  e escolho criteriosamente o lugar que vai albergar esta cerveja e o meu caderno. Sou quase íntima do Porto, ainda que cidade emprestada aos turistas… é difícil encontrar uma esplanada que não me lembre de casa… que me afaste o suficiente de lá, de casa, aqui… agora.

Mas também são outras pessoas que vejo agora… uma flor azul no peito… padrões e confusões de gosto entre o hipsterismo e o estrangeirismo.

O João está a uns metros de mim… em casa, talvez… não sei… mas preciso disto… de parar aqui… e amo-o. Mas há um espaço novo a que me habituo… que não é meu, mas de que eu começo a ser… E, às vezes, tenho de fugir, descansar de onde sou… porque eu gosto de saber, de sentir que não sou de lado de nenhum…  gosto de não pertencer, por muito que isso, às vezes, complique ou magoe. Também chamo a isso de liberdade… não ser de lado nenhum…

Ser, de vez em quando, dos pátios e da pele me ancora, que me alberga no quente e me lembra de casa… mas que não me obriga a ficar… gosto de ficar livre… em areia que move, afunda… em rotina onde eu possa amar…

Aqui há muito mais pessoas com o telemóvel… Aqui, entro num restaurante e pergunto se posso ficar só para tomar uma cerveja… não é que eu não possa, mas não é uma escolha óbvia… e aqui não há ninguém… não há barulho… eu posso ser, beber no silêncio das palavras.

Porque elas precisam de silêncio para falar, as minhas palavras. Precisam que eu me retire, que eu desapareça delas… que eu as deixe ser… que eu fique na margem do papel… ou fora dele… numa plateia que elas iniciam para mim, as palavras.

Também é aqui que despejo o lixo todo e o frenesim da minha cabeça e da minha boca… de tudo o que não sai… de tudo o que eu não vi…

Apercebo-me de que há pessoas que vivem aqui… no centro… começo a conhecer as caras, os horários das lojas… mesmo os errados… sei quando as livrarias não abrem e que é normal o senhor da livraria se “esquecer” de abrir ao sábado de tarde…

Estou mais íntima das coisas… neguei, rejeitei, recusei, esperneei, fechei os olhos, agarrei-me às saias rasgadas e escondi a cara nos dedos molhados… mas preciso, preciso de entregar… entregar-me à mudança… entregar os pontos… se é assim que querem, pois assim que seja…

Procuro frenética e com maneirismos de louca um lugar para mim…

E chegam as calças de ganga e as camisas… do lado de fora desta janela… e é tudo mais rápido e mais cheio agora, na janela. É sábado… faz fim de tarde… e eu aceito melhor a multidão que começa.

Aqui, também vejo as lojas com modelos vivos… é que aqui compra-se mais o que está nas montras… aqui, “é-se moderno”… ao sábado à noite, na cidade, “é-se bonito”… põe-se maquilhagem… a pele é fresca e aceita acabar-se no pó.

Também há os polaroid e o xadrez… os casacos coçados de um alternativo que se quer destacar e que cai no marasmo dos outros… todos iguais… tudo o mesmo barulho que nos adia… a quem somos… a quem temos vergonha de ser, a quem escondemos na penumbra, no guarda-fatos do appeal.

Estou cansada… a saber que o novo está a chegar… a saber que não o aceito…

yeah… it can be hard…

Está na hora.

Mas ainda há uma cerveja por escrever… há copos a pousar e há um yeah mais intrusivo, que me manda embora…

A parede é esburacada entre azul e azulejo vivo… E eu gosto assim.

Está a passar Tribalistas… e eu gosto… nunca percebi porquê que não se gosta desta banda… eu gosto… do sul reggaezado na língua e na pele… apetece dançar e fazer amor… no calor do fim de tarde.

Como agora, talvez… talvez não… a habituar-me a isto tudo… a ser noiva… a ser prometida… como me contradigo… e depois?

Como desejo tudo ao contrário… e sorrio…

Será que o João está à minha espera? Será que pensa que não vou? Vou, claro que vou… conseguiria eu não ir…

Para a casa onde eu pertenço, às vezes… ou a nossa… casa nossa? Não sei.

Dá-me azulejos e rosas.

E silêncio, meu amor.

#ElasDoAvesso

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