Ode ao Polite (E, por favor, não comecem)

Não me venham com o polite. Não, não me venham com o delicado, o politicamente correto e com tudo o que vocês inventaram para eu fazer… eu não sou assim.

Não me venham dizer que gostam dos jantares da conveniência, do que parece bem  e do que tem de ser, porque é família. Não, não me venham com essa merda.

Conheço muitos joelhos tortos e colunas dobradas para dentro. Não me venham dizer que são felizes na merda das mesas sociais, porque parece bem. Não me venham com merdas.

Não me venham dizer que gostam de terminar os sábados coroados a polite, a vinho seco e a palavrões abafados. Eu já sei, eu já sei que o melhor do mundo são as crianças… mas, aqui que elas não nos ouvem, não me fodam – que era assim que eu ia chamar a este texto, mas o polite deteve-me, que eu também tenho disso.

Não me venham dizer que a pele não chora por romance no ladrilho do chão, das noites e dos dias que não sabemos onde começam nem onde devem acabar… eu já sei que somos todos sérios e adultos… mas não me venham com merdas… não me digam que gostam de jantares e almoços de família e aniversários, porque tem de ser. E, por favor, não comecem… ou, se começarem, deixem-me em paz.

Não me venham dizer que gostam do sorriso amarelo, dos ombros encolhidos, do cabelo penteado e do vestido escolhido para a família… é que nem comecem.

Por mim, podem ficar com o polite todo. Eu fico com a cerveja, o chão, a ausência de soutien, a poesia e o que me apetecer. E, por favor, não comecem.

Negra e de lã… pois que seja… antes isso do que de joelhos curvados e com esclerose no coração.

Não me venham com merdas de que há horas para amar e para ser polite… a mim amam-me sempre ou não me amam a hora nenhuma. Nem me amem com relógios, nem com calendários, nem com peles brancas e secas do sol dos horários polite.

Ora, não comecem.

Ode à boa educação, às famílias, ao parecer bem e ao polite.

E, por favor, não comecem.

#ElasDoAvesso

 

Márcia Augusto (autora do livro "Elas do Avesso", aprendiz de Filosofia, cheia de sangue e rosa nas unhas)

Márcia Augusto (autora do livro “Elas do Avesso”, aprendiz de Filosofia, cheia de sangue e rosa nas unhas)

Partilhar
0

2 thoughts on “Ode ao Polite (E, por favor, não comecem)

  1. Joana says:

    “Não me venham com merdas de que há horas para amar e para ser polite… a mim amam-me sempre ou não me amam a hora nenhuma. Nem me amem com relógios, nem com calendários, nem com peles brancas e secas do sol dos horários polite.” – Bem, este final é tão arrebatador, adorei a mensagem que quises-te transmitir… o ser-se polite hoje em dia é um condimento indispensável da nossa sociedade, mas felizmente existem seres maravilhosos que se condimentam com apenas amor e sentimentos próprios sem merdas á polite…
    Beijo

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *