O amor é uma atividade radical

O”O amor não tem glamour” foi um texto que escrevi há uns meses, quando ainda nem eu sabia o que dizia… E não tem… O amor é nas pedras, é no inferno de ser quem nós somos… O amor é o assumir absoluto de que vamos ensanguentar os joelhos, mas vamos escolher ficar, porque o amor aprende-se no inferno (é a salvação para ele)… Na rotina… Na ausência aparente de novidade, no terror dos dias… No teu remexer na cama à procura de uma almofada que te salve os ouvidos e os olhos do barulho e da luz mortais do telemóvel, enquanto escrevo…Porque não trouxe papel comigo… O amor é o renovar dos votos no improvável… No hálito inflamável das línguas e do ar que não perdoa… O amor é assumir o risco do terror… Não é porque precisas… É porque acreditas que há luz… Vês luz onde os olhos do corpo não veem… Nao podem ver. Eles não sabem. O amor é uma sande em Barcelona, num banco a queimar-me as pernas, com os olhos abandonados ao choro e os joelhos molhados. O amor é isso tudo. É o não ter certeza de nada e saber que se quer ficar… Sem asa que nos garanta… O amor é uma fé inabalável no que não se vê… É o milagre do sorriso e do perdão, segundos depois de quereres arrastar os olhos do outro na terra… O amor é o milagre de eu renascer… A cada banalidade, a cada casa de banho, a cada ausência de glamour… O amor é do caralho. Mas é precisa coragem… A coragem de quem sabe que vai ver tudo mal e de que vai fazer muito mal ao outro, sem saber que se fere a si próprio… O amor são os meus olhos lavados a cada manhã nova… É descobrir-te um corpo novo, sem precisar dele, todos os dias… É o milagre de te ver renascer… De permitir que os meus olhos te vejam a desabrochar novo, todos os dias… O amor é uma grande paciência e um grande vai à merda perdoado antes de ser dito… O amor és tu e sou eu nestas escadas… E um quartzo rosa. O amor também é outras coisas que não sei… Mas ele é, tem de ser, a ausência do medo, do terror de não Ver. O amor são os olhos que eu tenho no peito. Sem calendário, sem horas nem nomes do BI… O amor é descobrir quem está por baixo da máscara da pele e partilhar o mistério de Ser. O amor és tu a respirar mais alto por causa do barulho das teclas… Sou eu a terminar isto e a saber que me posso aninhar em ti depois… Mesmo que te tenha acordado… O amor é a atividade mais radical do corpo… É o perdão nos dedos, quando te toco na cara… E te digo amor com os olhos… Porque não acredito no barulho da boca. O amor é isto agora. E perdoa-me. Sei que te acordei.
#elasdoavesso​

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