Do mesmo produtor de borboletas no mundo

Chateia-me o amor roubado aos dias… o amor numa chávena de café… suja, fria no café que se desmembra sem corpo na minha língua… magoa-me o amor num jantar enrugado… de narizes fundos… de olhos cravados num chão que a mesa não deixa ver… chateiam-me o medo de amar e os cárceres.

Magoa-me o amor que acaba resolvido a pragmatismos… a desculpas de estacionamentos… o amor não é prático… o amor não tem nada de prático e quando tiver, avisem-me, porque eu quero fazer outra coisa que não amar…

Magoa-me o quotidiano desleixado, abandonado ao romance que ficou por inventar… magoa-me a praticidade das coisas… magoam-me pessoas práticas… e motivos práticos e regras e esquadros e

tudo o que me mede e me deixa na esfinge ostentada… bonita, impassível num tempo que não passa… chateiam-me o relógio e o tempo… chateiam-me ponteiros que correm ao contrário… em corrente dentada num coração que não bate.

Magoam-me lábios flácidos, esponjosos de saliva em cansaço, e olhos escorridos nas bochechas… magoa-me o amor sem lápis de cor nem papéis amarrotados… magoa-me não ser livre… magoa-me não sentir uma casa debaixo dos pés…

magoa-me viver sem reino…

o meu… sem regras nem esquadros… eu e um rio… a cara plácida a pousar nas casas… os olhos de quem ama o tempo a passar. Agora. Magoam-me a falta de calma, a correria e o romance jazido… magoa-me viver sem me sentar em muros… sem me esconder para ver a lua ou olhar os pássaros… magoa-me não falar com animais… não aproveitar a rua toda… se calhar, magoa-me ser adulta… quem inventou a data da minha morte?

Magoa-me a falta de cortinas, o vento a entrar e eu a descobrir-me neste computador… no silêncio da minha sala, nos objetos que agora só me lembram que eu não sou de cá… e porquê pertencer a alguma coisa?

Magoam-me o barulho, as atividades certas e os calendários… magoa-me viver sem o condão que me desenha livre no ar.

Morro aos poucos como uma rosa fechada em túmulo ensaiado de vidro… morro com a falta de liberdade… morro, porque eu não sei… não sei ser moderna, nem adulta, nem ter casa… não sei… perdoem-me… ou eu que me perdoe… por não saber viver sem asas… por não saber ser prática nem me preocupar com o lugar onde estacionar o carro…

Magoa-me não saber ser como os adultos.

Mas magoa-me, sobretudo, não me permitir Ser eu por ser incómoda… por antecipar que isso pode magoar… magoa-me, enterra-me os joelhos no chão… lembra-me que também eu me esqueço, também eu sou fraca e me ensino a lição da morte… magoa-me que não me perdoe as falhas… sei que não vou aprender tudo de uma vez…

mas, pelo menos, que eu seja livre nos erros.

Chateia-me a falta de amor… a falta de romance justificada com as coisas úteis dos dias… chateia-me que violentem as portas do meu universo particular, costurado com aquilo de que as borboletas são feitas… magoa-me a violência de não me perceberem… magoam-me palácios a serem contemplados pelos burros… mas talvez seja eu… que não saiba ser um palácio no mundo… que não saiba proteger as minhas asas nem a minha pele, costurada pelo mesmo produtor de borboletas no mundo… tenho a mesma fragilidade, a mesma necessidade de voo frenético em melodia de Schubert… não sei ser prática como as mãos de um adulto… doem-me o tamanho e a rugosidade das mãos que não sonham… dói-me a falta de criação dos dias… porque eu sirvo para ser criada todos os dias… e se não for, eu crio-me sozinha.

Doem-me os dias nas mesas escuras, os horários e a falta de fé… dói-me a falta de sonho no peito… dói-me a terra na boca, soluço-a até a engolir… mas dói-me… e um dia, se eu não souber mais voar, eu vou embora… porque eu não sei ser outra coisa que não o meu voo.

Dói-me o peito que não acalma… a rugosidade que eu sou a respirar… tenho as asas magoadas… mas vai passar. Sempre passa.

#ElasDoAvesso

Márcia

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Chamo-me Márcia Augusto e sou autora de todos os textos do #ElasDoAvesso

Chamo-me Márcia Augusto e sou autora de todos os textos do #ElasDoAvesso. A foto é do designer e fotógrafo João Ferreira.

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Porque isto veio comigo no autocarro a costurar-me o texto… sem eu saber ainda que o ia escrever. Partilhem amor <3

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