Beleza In Vitro

M. Augusto, Autora

Este texto não é bonito nem é sobre literatura… mas é um texto necessário. A mim e à humanidade toda.

Eu já ando para escrever há algum tempo sobre isto… mas sinto-me bloqueada ou sinto que nunca é o momento. Curiosamente, quando decidi que era agora, apareceu-me um vídeo da Alexandra Solnado a dizer que é Agora.

Hoje, eu estava no ginásio e o J.O. disse-me que eu tinha de trabalhar mais os braços… bom, calma, não foi bem assim…

Recomeçando… hoje, eu estava no ginásio e fiz uma aula de flexibilidade em frente ao espelho… folguei em saber que estava mais eu… mais curvilínea, mais composta, longe da pseudo-magreza e do pseudo-fitness que me impus, mas estava bonita… já na parte de cima, onde faço a musculação… senti que os meus braços continuavam “molinhos”… são sempre os mais “gordinhos” do meu corpo. Então pedi ao J.O mais exercícios para os braços… ao que ele me respondeu que eu já tinha, no meu treino atual, seis séries de triceps, o que era suficiente… Em tom de brincadeira, disse-lhe, Sabes que eu não faço dieta… ele respondeu-me que tinha de fazer e perguntou-me se eu andava a fazer flexões em casa; eu disse-lhe que não… então, ele retorque, comes todos os dias, não comes? Andas todos os dias, não andas? Fazer flexões tem de ser igual. Já tens umas costas bonitas, a zona do peito e dos ombros também é muito elegante… os braços tens de trabalhar mais. Exemplificou-me um exercício de flexão que eu já conhecia e disse-me para o fazer… eu estava à beira da prensa e disse-lhe que, quando acabasse, faria o exercício que ele acabara de me sugerir … talvez porque sabia que fazer aquilo me ia humilhar por dentro, me ia fazer sentir mal… não por achar que tenho os braços gordos, mas por curvar ao que me disseram que os meus braços têm de ser. A partir desse momento, senti-me magoada… pedi ao ES para me ajudar a perdoá-lo… estava meramente a projetar a minha falta de amor com os meus braços nele… e decidi que ia embora para vir escrever este texto. O universo é assim… dá-me sinais… se eu não entendo à primeira, ele magoa-me… é como na estrada… temos os sinais da estrada… se não abrandamos ou mudamos de condução, provavelmente vai aparecer um carro à nossa frente pronto a lembrar-nos do que temos de fazer no momento.

Bom, mas isto é só o mote. O meu corpo, entre outras coisas, sempre foi alvo de muita pressão… sempre soube que tinha um corpo naturalmente bonito, não necessariamente igual ao das revistas, mas bonito. Também sempre soube que, mesmo quando estou “magra”, tenho sempre uma réstia de barriga e os braços mantêm-se grossos… sempre tive vergonha dos meus braços e normalmente escolho roupa que os “disfarcem”, que os escondam…

No ginásio, sempre que engordava, não ia para determinadas alas por me sentir inferior, menor e gorda… numa versão abaixo da dos outros… quando engordava, treinava a duplicar… até que tive uma lombalgia e tive de parar… estive um mês sem treinar e, claro, engordei. Pensei até em mudar de ginásio, porque não queria que as pessoas me vissem assim. Também acho que tenho duplo queixo, quando baixo o pescoço e sinto-me monstruosa, porque, em algum momento, um rapaz me disse que o duplo queixo era o limite para definir se uma pessoa é gorda ou magra e eu sempre tive… à exceção de quando emagreço muito.

Na adolescência, tentei sempre caber em modelos 34, 36… quando vi que nunca mais caberia num 34, senti-me mal… tive medo. Estava numa loja com uma tia minha, que é exatamente o oposto de mim, e eu estava a experimentar calças com o número 40 que me ficavam apertadas… lembro-me que, durante anos, não entrei nessa cadeia de lojas, porque achava que ali só encontrava modelos para magras… senti naquele momento, em que eu não cabia em nada que a minha tia me trazia, que algo havia de muito errado comigo… outras vezes, como ainda hoje acontece, preciso de apertar as calças atrás, porque tenho uma anca enorme ou, às vezes, não preciso de apertar nada e está tudo bem, mas as calças apertam-me a barriga…

Lembro-me também de todas as calças precisarem de ser cortadas e da penosa, vergonhosa e encurvada, bainha… hoje sei que não há nada de errado comigo, mas o mundo produz em série e é mais fácil e mais rentável produzir só para uma medida. Eu sei. Passados uns anos, haveria de conhecer o meu primeiro namorado… eu estava curvada para baixo, ia buscar um tupperware ao armário do chão e ele perguntou-me se eu não achava que estava a ficar demasiado gorda e se não estava a pensar em emagrecer. Eu tinha 14 anos e o amoroso rapaz tinha 21… lembro-me que aquilo me magoou… mas, miraculosamente, em menos de 6 meses eu pesava menos 10kg… lembro-me que o meu peso normal, a comer bem e mesmo a ir ao ginásio, ronda os 60kg… às vezes, quando me excedo, porque tenho comportamentos aditivos, chego aos 63kg e até há bem pouco tempo sentia-me horrível quando isso acontecia… tinha vergonha de sair de casa e optava por roupa que me disfarçasse, que me escondesse o pecado de ser gorda. Mas sei que esse peso está acima da média, porque fico a arfar.

Também sei que como muito lixo… desde que acordo… e até as sementes, as sojas, os tofus e esses caralhos novos das mercearias finas são um lixo para o meu corpo… não sei o que vem lá dentro e cheira-me que anda muita indústria a ganhar dinheiro com o facto de, em algum momento, eu ter acreditado que devia comer aquilo. Sei que não devia beber leite, nem comer carne… Ultimamente, a meio da refeição começo a sentir-me mal ou enjoada ou mesmo com problemas nas consciência… nunca os tive… mas agora tenho… mas sei que é meu, é um processo meu… sei que não como devidamente, porque isso dá trabalho… sei que é possível comermos só o que a terra da Terra nos dá, mas também sei que essa informação está muito segregada… não interessa que eu saiba muito sobre as alternativas reais à carne… as e os nutricionistas são uma grande treta engavetada nos livros que os mandaram ler… e tudo é manipulado, costurado… até o meio académico, porque só se estuda o que o professor domina e acredita que é bom. As bibliografias não mudam durante anos e anos e achamos que isso é normal nas cadeiras da faculdade. Mas isso é outra história (se não a mesma, que faz parte da desinformação em relação a tudo).

Também a medicina está completamente enviesada, para não dizer, envenenada… há um mês, como disse, tive uma lombalgia… não me conseguia sentar e cheguei mesmo a fazer um comboio Lisboa – Porto em pé (aquando da sessão do “Elas do Avesso” na Feira do Livro de Lisboa 2017). Saí em Campanhã e fui direta para o Hospital de São João. Lá, fui atendida por uma médica dócil, que na segunda parte do atendimento (eu fui atendida em duas fases… depois do diagnóstico, drogaram-me para eu me esquecer das dores; qual é a dúvida quanto a isso?) era um mulher dura e hostil… porque esteve aos berros com uma velhinha que não lhe sabia dizer o que tinha… a velha estava sozinha e nitidamente mal tratada… e a médica deveria estar lá há umas boas 10 horas… receitou-me Tramadol (uma caixa inteira até ao fim), um relaxante (para a ansiedadade… tipo, what the fuck? Doíam-me as costas…), um Bruffen e uma treta qualquer para “enganar o cérebro”, para que eu não vomitasse com o Tramadol. Saí do hospital completamente drogada e obriguei o desgraçado do J. a ir comprar-me croissants.

Deitei-me às 6 horas, mas às 11 horas já estava acordada, com um pai desesperado a pedir-me explicações de Filosofia para a filha… disse-lhe que tinha desmarcado tudo e que naquele dia era impossível atender pessoas… ele insistiu e a desgraçada da J. teve uma explicadora entre os livros, a sanita, a diarreia e o vómito. Achei mesmo que a miúda nunca mais ia pôr lá os pés (lá, onde eu dou aulas  e explicações, que é em todo o lado)… mas no sábado lá estava ela… e acabou por passar no exame.

Continuei a tomar o Tramadol por 3 dias (era supostamente de 8 em 8 horas, mas eu só tomava à noite) e percebi que, para além de estar lenta, até o orgasmo vinha às prestações e em camadas… eu sabia que o estava a ter, mas não conseguia sentir todo… também, às vezes, acontece chorar ao mesmo tempo… e já o J. estava na cozinha quando vieram as ditas lágrimas… eu percebi, a partir dali, que não podia mais tomar aquilo… resolvi a questão com duas sessões de acupuntura e uma noite (a primeira sem o medicamento) de dores horríveis, mas senti que era um convite da Sabedoria Universal… Vence… o teu corpo tem tudo o que precisas para te curares. Nunca mais tomei nada… foi por isso que estive um mês sem ir ao ginásio e também foi por isso que engordei… o Universo é um agente perfeito (matou duas causas num evento só). A questão é que o medicamento me adormecia a dor e levava-me a forçar as costas, sem sentir que o fazia… como deixei de anestesiar o corpo, sentia quando o corpo me pedia para andar, estar em pé ou deitar-me. Também deixei de fazer duas aulas seguidas de body attack e pumps da vida, porque no dia anterior me excedera à mesa.

Deixei de me autopunir por comer de mais e comecei a aceitar os meus excessos, como algo que tenho a melhorar por dentro… ao invés de algo que tenho de aniquilar por fora, a forçar o meu corpo e a ganhar lesões (é incrível como é normal as pessoas ganharem lesões no ginásio e irem treinar na mesma… e eu quero sublinhar que o problema não está no ginásio… está na merda da mentalidade enfraquecida que acredita que a essência é um corpo – a mente que pensa que está num corpo está, de facto, doente. (Um Curso Em Milagres) –.

Bom, mas eu estava a falar do meu corpo… o meu corpo nunca foi modelo… tenho celulite e, pela primeira vez, não tenho vergonha de usar calções curtos… só usava coisas curtas se a pele estivesse “limpa” – quem decidiu o que é “limpo”? –. Também tenho barriga e duplo queixo. Durante anos não usei calças de ganga, porque acreditava que tinha um rabo demasiado grande… durante anos também achei que devia usar saltos altos para esguiar a perna e só me permitia andar de sapatilhas, caso estivesse “magra”…

Comecei a aperceber-me que até as crenças sobre mim mudavam, dependendo do meu corpo… se eu estivesse “magra”, eu sentia-me potente, inteligente, capaz… se eu “engordasse”, eu tinha vergonha de mim, as coisas que eu dizia não eram tão certas e eu não parecia tão inteligente.

Cresci com piadas sobre o que eu comia… sempre gostei de comer… tudo o que fosse um belo prazer do corpo, eu gostava… a partir da adolescência matei isso com o cigarro e o álcool… hoje não fumo, mas não nego uma boa copada de tinto… Contudo, isso vale-me mais excessos à mesa… sei que como demasiado, porque sinto vazios em mim… sei que há alguma coisa no meu inconsciente… mas estou atenta e o corpo é o meu radar e é, também por isso, que eu o amo… ou aprendo a amá-lo.

Tenho uma pulseira no braço direito que era da minha avó… sempre que engordo, ela não desce tanto para cima da borboleta, porque, como uma amiga uma vez me disse, eu ganho chicha no pulso como os bebés. Quando vejo que a pulseira está assim e não desce, nesses segundos, eu sou fraca, sou abaixo de mim… não sou tão eu, tão como deveria ser… como os meus braços e o meu queixo… mas sei… sei que isso não pode ser verdade e que o universo não se pode ter enganado quando me desenhou. Sei que sou perfeita, mesmo que eu não saiba ver isso… sei que as cuecas e a lingerie são desenhadas para “magras” e que é por isso que quando “engordo”, me ficam mal. É que fica mais barato e é menos cansativo produzir em série do que para a diversidade… no limite, vamos até perceber que não precisamos de roupa interior (nem de roupa) para nada… mas isso fica para outra era, a era do fim, que é a do início (o tempo não existe e a jornada de cada um é enrolar o tapete para dentro, porque andamos para trás e o trabalho do ego é desenrolar o tapete para nos afastar da origem (para a frente) – Um Curso Em Milagres)*. Sei que há mais para descobrir… sei que não me amo o suficiente, mas sei que acordei… que estou no caminho.

Também quero lembrar às senhoras mais velhas que são lindas exatamente como são… e dizer–lhes: não deixem de vestir o que quer que seja, manipuladas, vergadas pelo parece mal. Também não fiquem tristes as mães que engordam e não encontram roupas nos shoppings da vida… é mesmo para não encontrarem… enquanto se sentirem “gordas”, “imperfeitas” e “menores”, o mundo está mais controlado… os homens continuam no poder, ocupados com as coisas elevadas… enquanto se sentirem feias, vão continuar a esquecerem-se de si próprias e a focarem-se nos filhos… para os homens poderem descansar do trabalho e das decisões. Enquanto se acharem feias, imperfeitas e sabe-se lá mais o quê, a indústria da cosmética, as nutrições, as clínicas e os caralhos todos inventados nas farmácias e nos laboratórios da beleza in vitro, vão continuar a enriquecer a e envenenar-vos o corpo… também vão surgir cada vez mais doenças novas e diferentes, porque vocês estão a alimentar o corpo com tudo o que ele não precisa… e, assim, a indústria dos medicamentos vai continuar a ganhar dinheiro… e os médicos vão continuar a ser respeitados e comprados nas festas das marcas… é que a substância ativa em vários medicamentos é a mesma (só muda a marca). Contudo, às vezes, o que decide a prescrição de uma marca, em detrimento de outra, é o fim de semana que o médico teve na comemoração de não sei que caralhos que a marca prescrita inventou… e enquanto continuarmos a acreditar na mentira do mundo, vamos continuar escravos do corpo e de tudo o que nos disseram para ser.

Este texto não é de literatura. Este texto é de denúncia. E eu gostava de o continuar, mas agora estou cansada.

#ElasDoAvesso

#BelezaInVitro

*Tradução adaptada

P.S.: Também quis falar sobre a cosmética, a maquilhagem… mas estou há horas sem comer e tenho de ir… mas isso também é mentira… é mentira que precisas de te maquilhar para seres bonita… as revistas só te mostram mulheres maquilhadas, assim como a Televisão… o teu cérebro associa, porque ele funciona por hábitos e causalidade (D. Hume), que a tua cara é feia se não se assemelhar ao que vês… também se experimentares estar uma semana sem te maquilhares, vais perceber que a tua pele começa a voltar ao normal e começas a ver-te exatamente como és… Linda… sem pós deslavados nem líquidos envenenados… se deixares de usar batom, o corpo vai ressacar e vais ganhar cieiro, mas vai passar, porque os teus lábios voltam a gerar anti-corpos. As rugas também vão atenuar se deixares de usar creme e a tua pele vai ficar muito mais hidratada se deixares de a estragar com cremes e hidratantes (vai voltar a produzir a oleosidade que precisas para a amaciar).

Bom, hoje era isso.

Até já!

Com Amor,

Márcia.


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