Carta de Dor de Uma Menina de 14 Anos

Márcia Augusto

 Este texto não está publicado integralmente, nem poderia… um dia, talvez, ele veja a luz das livrarias num livro… por enquanto, ele é meu. Mas porque eu já não sei ser só minha e porque também publicar me cura, fica aqui um excerto muito breve de um total de 3103 palavras.  E começa assim:

Não sei ser livre… sou demasiado cuidadosa, demasiado preocupada com a opinião dos outros para ser livre… estou demasiado ocupada com aquilo que os outros vão pensar sobre mim… e magoo-me. Sujo-me na terra onde nem sequer me permiti rebolar-me.

Esqueci-me de ser uma criança… e culpei durante demasiados anos os outros por não ser livre. Culpei as circunstâncias, a idade, a injustiça do mundo, os universos paralelos e até a minha consciência inferior, muito aquém do que deveria ser.

Não sei ser livre. E assumir que não sei é a maior dor. Não sou humilde nisso… não saber ser o que mais gostava de ser envergonha-me.

Tenho medo de ser livre… tenho medo do que me pode acontecer. Sou banhada a mãos enrugadas, a traumas antigos, a vozes do terror de Ser eu e a universos que não conheço. Sou uma confusão de novelos, de histórias que não consegui acabar, de pessoas, de homens, de rendas, de voyerismos de que não soube fugir.

Nunca soube ser livre. Nunca soube Ser eu. Ser eu haveria de me custar sempre a dignidade, a falta de amigos, a falta de pessoas para me amar… Ser eu implicaria sempre ser demasiado alta, barulhenta, frenética, desajustada para a altura… Ser eu seria sempre demasiado para os outros… impossível de se aguentar.

Ser eu implicaria – e ainda hoje implica na mente que me mente – julgamento, desaprovação e umas manchas nos braços… ser livre implicaria sempre gritos, portas fechadas à chave, cadeiras que ferem as paredes e sexo de carne morta… ser livre implicaria sempre tudo, menos ser feliz… ser livre implicaria murros, casacos vestidos, olhos vidrados, cigarros roubados e charros obrigados… ser livre custar-me-ia as costelas, se estivesse disposta… ser livre implicou esconderijos… mães de santo e gritos mudos à noite e no banho.

Ser livre implicaria sexo não consentido, paredes arranhadas e medo da respiração… ser livre implicaria insultos e mentir… Ser livre implicaria fingir orgamos e atuar no palco dos carrosséis dos felizes… ser livre implicaria Ser eu… e eu nunca tive coragem para ser eu… ser livre implicaria dar um murro na mesa e dizer basta… eu nunca fui essa mulher… e não me perdoo por isso… por não ter sido capaz de dizer não aos murros em segredo, nos joelhos da beleza perene e invulnerável que eu sou…

Mas eu não sabia que sou isto tudo… e, mesmo assim, não me perdoo por não ter sido livre.

É por isso que eu não consigo ser livre… porque sempre que tentei ser livre, eu anulei-me para não ser magoada, cortada, queimada no fel de quem acha que amar é enterrar a alma e passear o cadáver.

Ser livre nunca foi para mim… sempre fui demasiado inteligente para mulher, sempre fui demasiado exuberante, sempre gostei de roupas que não eram supostas ou bem vistas… ser livre implicaria ter amigos sem olhar a géneros, ser livre implicaria ser amiga de uma prostituta a dar os primeiros passos na heroína, ser livre implicaria exibir o meu corpo tal como ele é, respeitá-lo, recebê-lo, amá-lo nas curvas, na celulite e em tudo o que lhe apetece fazer hoje – porque o meu corpo é vulnerável, muda com o tempo e depois? –.

Ser livre implicava não ser mais inteligente do que tu… não te fazer sentir menor ou humilhado… e, por isso, tu humilhavas-me… ser livre implicava, para ti, não escrever poesia… não aguentavas que eu escrevesse poesia nem dominasse retórica… ser livre implicava não te reconhecer o talento da manipulação ou da oratória… ser livre significava ficar em casa à espera que chegasses do trabalho que eu tive de procurar para ti… ser livre implicava calar-me ao gelo das tuas mãos, quando chegavas… ao cheiro a droga de bairro da Colômbia sem calor… ser livre significava fazer tudo o que tu quisesses… ser livre implicava vestir lingeries ao teu gosto, posar nua para ti, despir-me, envergonhada em stripteases sem alma, ao som da merda das tuas músicas de velho… ser livre significava não te dizer sobre como odiava essas cuecas de velho… ser livre implicava fingir que me vinha, enquanto me tocavas no clitóris e, outra vez, enquanto me fodias… precisavas disso para te sentires bem contigo… e eu aceitava… achava que o amor era assim… Mas sabes, nunca me vim contigo.

(…)

Uma vez, na rua, tive de vestir o casaco, porque achaste que a minha camisola era demasiado provocante… deste-me um murro no braço… lembro-me que foi abaixo do ombro, onde hoje ostento a minha caveira mexicana…onde me invento livre… mas eu não sou… ainda… livre de ti.

(…)

 Agora, que te recordo, sei que és um prisioneiro de ti próprio… dos teus medos… e que eu deveria ser, em algum momento, muito negra por dentro para te atrair para a minha vida… às vezes, tenho vergonha por ter tanta escuridão, a suficiente para te atrair… não consigo perceber tudo… mas sei que se te atraí para a minha vida aos 14 anos, alguma coisa o Universo me queria dizer… já não culpo a vida, só tento compreender. É por isso que escrevo.

Hoje, ouvi a minha voz interior… ou o ES, acho… disse-me que sim, que, por muito que eu não acreditasse, eu tinha sido suficientemente corajosa para passar por isto naquela idade, sabendo que não ia conseguir reagir; eu também era os meus medos naquele corpo, naquela mente de adolescente… e que era suposto eu não saber ser livre para me lembrar agora, aos 28 anos, que tenho isso por cumprir… fugi muito disto e projetei muita coisa nos outros homens que fui encontrando…  dói-me o peito… e olhando para tudo, sinto que nunca vou conseguir curar isto de uma vez… que nunca vou conseguir ser livre.

Mas, desta vez, sou amada… sinto e sei que não estou sozinha… que tenho uma alma de Deus, que tenho fadas, anjos, arcanjos e mitos nas asas.

De duas meninas.

#Clepsidra&Clipsera

#ElasDoAvesso

 



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