Do Corpo paralelepipédico e do sexo nas Pick Up

Hoje, eu estava a folhear uma revista dessas novas, ou velhas, sem ponta de humanidade por que se lhe pegue e, por isso, os humanos gostam… gostam, porque gostam de tudo o que os desumaniza, de tudo o que os faz esquecerem-se de quem são, de tudo o que os pinta de uma maneira diferente da que são… de tudo o que os simula, os cola a chumbo colorido de dor e de braços desenhados a barro… gostam, porque os humanos não gostam de quem são… e, por isso, porque para além de não saberem quem são, não são quem são – como podem gostar de quem são e sê-lo, se não sabem quem são, se têm medo de serem quem são? E isso nota-se muito bem no corpo…

Estou de férias e tenho tido oportunidade de ler revistas e ver jornais… às vezes, até me sinto mal por ler aquilo… mas percebo agora os intuitos celestial e uterino do texto…

Magoam-me corpos paralelepipédicos … corpos sem curva, nem arte, nem alma nenhuma… reparei que do início ao fim (da revista) há 30 mulheres nuas contra três homens em evidência de tricep… percebi que, da página 1 à 70, os corpos femininos são iguais… sem grandes variações… as únicas diferenças aceites são as curvas do rabo e das mamas… vi também que uma menina, dizem que atriz, pôs silicone com 19 anos… vi uma mulher de 45 anos com “curvas” de 20, carregada de maquilhagem e pele puxada e enchida de merda venenosa em seringa, a dizer que não faz dieta nem faz exercício físico… vi também uma modelo que diz que não faz dieta e que é naturalmente sem celulite e de mamas grandes…

Pensei durante muito tempo que algo havia de muito errado comigo por eu não ser assim. Acredito também que grande parte de nós não perde grande tempo a pensar nisto e come o que a indústria lhes dá para comer… não sei… mas acho que algo de muito errado se passa com o mundo a partir do momento em que há uma quantidade absurda de fotos de mulheres, onde todas são iguais, onde só difere a cara, porque ainda não se arranjou cirurgia que baste, rápida  e fácil, para que também na cara possamos todas andar iguais ao mesmo… mas, ainda assim, a cara obedece a tons de tez… no verão nude, no inverno branco de querubim em pó…

E eu acho que algo se passa de muito errado connosco, que não assumimos quem viemos para ser… que, em vez de usarmos a nossa diferença para mostrar que o mundo é que está errado, escolhemos que nós é que não estamos de acordo e nos obrigamos a engavetar o corpo no que não lhe serve… ouve-se depois o delicioso “relaxei e engordei”… foda-se, não é óbvio que se relaxaste e o corpo alterou, que é assim que o corpo é?

Há uns dias, uma amiga disse-me, depois de ler o texto Beleza in Vitro, que concordava mas que não se sentia bem com ela mesma, com o corpo dela… eu disse-lhe…  se te disseram que preto é azul desde pequena, tu vais achar que preto é azul… se te ocorrer que é diferente, vais achar que estás errada, porque aprendeste que preto é azul. O mesmo se passa com o teu corpo.

Os homens olham para isto e acham bonito… burros como nós e com ainda menos capacidade para pensarem outrados (e eu não tenho nada contra eles, até gosto bem deles… mas foram 30 fotos de gajas em cuecas contra três fotos de gajos em t-shirt e não se tratava de uma revista feminina) … mais de metade deles cresceram – assim como nós – a verem pornografia e, portanto, como crianças de hábito que são – que somos –, é normal que os modelos da gaja de barriga escorrega e do tronco masculino de tijolo sejam os normais a seguir… também, a propósito, o sexo deve seguir algumas normas… foda onde não haja, pelo menos, três ou quatro posições diferentes não é foda… é meloso e demasiado tosco e tradicional… porque sexo bom é televisivo, é instagramável… o orgasmo deve vir no meio desta fantasmagoria toda e, se não vier, pois a mulher que o finja e o gajo que o force… qual é a dúvida?

Não sei… mas tenho percebido que, durante muito tempo, acreditei – e continuo – que algo de muito errado se passaria comigo… por ter celulite, barriga e pernas grossas… dos braços, então, nem vamos falar… achei até que errei no braço escolhido para a caveira, porque é o meu braço mais grosso e é menos elegante para envergar a tatuagem… também acho que a depilação é o novo negócio da pele… nunca os pelos foram tão mal vistos… e, dizem, atrapalham no sexo… eu não entendo, porque, pelos vistos… o corpo atrapalha no sexo… também vi num artigo de revista, em sapiência arrogante e maternal, para a mulher se pôr nua em frente ao espelho e procurar pelas posições mais sexy do seu corpo para o momento do ato…  a proposta era “o que quer evidenciar? O que quer esconder? Veja e tire partido dos seus pontos fortes…”… também sobre a roupa, fiquei a saber que os macacões devem ser escolhidos de acordo com o tipo de corpo e que, felizmente agora, há-os para todos os corpos… também vi uma cena de sexo tórrido na caixa aberta de uma Pick Up, como se aquilo fosse normal ou devesse fazer parte da vida sexual de qualquer casal…

Eu não sei se vocês percebem, mas ver esta merda no vosso subconsciente – que é emimentemente infantil –, quer dizer que, se não fodem assim, se não vestem assim e se o vosso cu não está suficientemente apontado, vocês são altamente insuficientes e estão absolutamente aquém do que é suposto. O que me choca é que nós comemos isto, sem indagar, sem mossa absolutamente nenhuma… importa saber fazer 30 por uma linha de SEO e de programação deslavada, mas zero de mente humana…

Eu não sei se vocês percebem que a mente humana está voluntariamente emburrecida… e eu digo voluntária, porque nós escolhemos assim… porque já toda a gente se perguntou sobre isto, mas respondeu que mais valia deixar estar. Eu gostava que soubessem que não tem de ser assim… eu gostava que soubessem que é possível olhar para corpos fortes absolutamente atraentes… eu gostava que soubessem que não é normal uma mulher de 45 anos não ter celulite nem ter rugas… eu gostava que soubessem que se nós não nascemos com meloas nas mamas é suposto que as mamas não sejam meloas… eu gostavam que soubessem que, se temos pelos, eles estão lá para alguma coisa… gostava que soubessem que não é normal um cu avantajado não ter celulite… gostava que soubessem que não é normal que o corpo de uma mulher que passou por um processo chamado adolescência não tenha estrias… gostava que soubessem que o que está nas revistas não é normal e que contribui descaradamente para a vossa infelicidade.

Gostava que soubessem que são perfeitos exatamente como são. Gostava que soubessem que o que não é normal é o que passa na nossa cabeça… gostava que passassem a observar mais o que pensam… e a não comer tanto da mesma gamela informativa… gostava que passassem um mês sem revistas nem telejornais… e, se não o fizermos, pelo menos, olhemos mais para o que pensamos e constatemos a retrete sem fundo que nos alimenta o centro da cabeça.

#ElasDoAvesso

 


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