Anti-parnaso na Cidade

A cidade dói ao entrar… as luzes confundem-se, atropelam-se, fintam-se e fazem-se mal… na cidade tudo cheira a doença, a cinzento… e a gasolina rasga no ar… na cidade, as pessoas vestem-se diferente… simulam a alma, as dores dela e de tudo o que lhes dói… na cidade há quimonos pretos por cima de rendas vermelhas, roupa metálica em pregas pesadas, paralelepípedos abnegados…

Na cidade, o feminismo pesa em vinho acre, simulado nas estradas e nas soleiras das esplanadas, na dor do fim de tarde… onde homens se esquecem de ser gente, numa coluna reta imperturbável que lhes dói… nos olhos, no anuir cansado, triste e abandonado de quem descansa no feriado que vem… na expressão que não pode ter… na cidade, não se ri por gosto… ri-se, porque se é bom a rir… ri-se, porque rir é um predicado da perfeição… na cidade, não somos imperfeitos… não podemos ser… os lábios carregam ódio nuns olhos que não choram… e o eyeliner é o único sinal de humanidade nos olhos… a forma como o eyeliner esborrata é o índice de felicidade nas cidades… na cidade, a mulher é dura, áspera, sem morangos nem saias… na cidade, fingimos perfeição para, no poente, o álcool nos dar entrada no joguete do ser… é por isso que as noites são boas nas cidades… as noites permitem a voracidade da imperfeição… permitem que as saias se levantem sem pudor, que o hálito prostitua as palavras e o desamor dos dias… na cidade, há turistas, roupa difícil de perceber… há pernas, muitas pernas… na cidade, no verão,

as turistas podem exibir a celulite e o andar cansado… de curiosidade desolhada, sem alma que as salve… as pernas curioseiam por uma mentira, um instante de salvação que as resgate…

As cidades são evacuações das dores do ano civil… é por isso que a luz é cinzenta e o lixo dá vontade de lamber… as gaivotas gritam… gritam pelo ar, com ele e com a vida também… porque mesmo as gaivotas não podem, não sabem, ser livres nas cidades.

As cidades choram ao andar… e o amor não é possível. As cidades são paredes, romanismo sem fundo e imperdido… as cidades são rugosas e arrastam o fel… as cidades matam as flores de dentro e as borboletas todas… as cidades são sujas, feias e sem infantilidade nenhuma… as cidades são velhos de prisão adolescente… as cidades doem a quem cá mora…

Doem-me a cidade, o cheiro e o barulho todo… doem-me a confusão, as roupas, os olhos e tudo o que não é de cá… doem-me os copos, as colunas de elos arqueados, forçados à retidão que não conhecem… doem-me bípedes caninos e o reino animal todo… doem-me as mesas de cerveja, os cabelos iguais, o loiro queimado e o preto feio dos olhos… doem-me os fond de tein, os cleaners e tudo o que lhes esfumeia a dor… dói-me o teatro dos corações mortos, das mãos sem asas e dos corações velhos… doem-me lados esquerdos com sonhos mortos e sonhos por nascer… dói-me o lago narcísico, esburacado, às riscas em ganga azul… doem-me as ruas, as sobrancelhas na boca e as bochechas no peito… doem-me cadáveres arrastados, fundidos, engolidos pelo chão… num carrossel sem fichas, parado e à espera da festa popular que não vem… doem-me a falta de algodão doce, os gritos das crianças e a intempérie dos funcionários… doem-me a falta de sorrisos, os cheiros confundidos, os chanel batidos a dor, a álcool, a cigarros e a sexo sem nome…

Dói-me tudo o que não é humano, o cinzento do chão e o céu todo. Dói-me, porque não somos isto… dói-me, porque escolhemos a simulação, o macramé, os nós do sangue e o argila da pele… dói-me, porque não somos olhos rasgados a preto e cabelos perfeitamente lisos… dói-me, porque somos amorosamente imperfeitos,

ícaros sem coragem, de sonhos abandonados às poltronas do domingo. Doem-me as varizes da garganta, a respiração travada e as pedras todas do meu esófago… doem-me pernas sem nome, sem altar que as mova… doem-me olhos assim… dói-me voltar. Doem-me os lábios enterrados neste portátil, sem Ver. Dói-me tudo. Dói-me sempre.

#ElasDoAvesso

E por sermos ninguém que é Todos ao mesmo tempo, deixo-vos com os Clã.

 

 


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