E se as crianças quisessem todas ser bailarinas?

Este texto é desencadeado pelo desafio do meu amigo Carlos Rocha, fundador do Economia Social Portugal. O objetivo do Carlos é despertar discussão, capaz de gerar mudança. Para tanto, chamou a incendiária que eu sou para escrever sobre temas que versem preocupações sociais, despoletem reflexão e, quanto a mim, descrença… é disso que o mundo precisa, que deixemos de acreditar nele, no que ele nos conta… este é o primeiro texto produzido no âmbito desta parceria… ele pediu-me um post, mas eu escrevi 2125 palavras… não consegui parar. Quem me conhece, sabe que eu sou uma descontrolada. E depois? Deixo-vos o texto. Conheçam o projeto do Carlos, gostem da página e partilhem! O Carlos é este “moço“. 😉 Obrigada e, se se identificarem, partilhem o texto!

Bom, como começar uma crónica? É a primeira vez que eu escrevo, porque alguém me pede para escrever sobre alguma coisa… então, eu não sei… e bem ao jeito biográfico do “Elas do Avesso”, eu começo por partilhar convosco as minhas inquietações e o início deste texto.

Ocorrem-me Rawls, o valor próprio e a escolha de ocupação, bens primários que identifica na sua “Teoria da Justiça”… talvez, também, porque foram estes os grandes fatores de alavanca da parceria… e… falo deste tema, porque ele me irrita, porque ele me dói, me dilacera por dentro.

Dói-me, porque eu não ouço crianças a dizerem que querem ser bailarinas, escritoras, pintoras, artistas… dói-me, porque tudo é forjado por uma necessidade inventada do mundo… as ilusões da mente física alimentadas por uma indústria sedenta da energia-prima de cada um de nós. Eu prometo tornar isto tudo mais claro.

Bom, Rawls falava de outras coisas para além da igualdade de oportunidades e tretas do capitalismo… Falava, como já disse, de bens primários assentes no eu livre, o eu que eu Sou, que eu faço, que me põe a atuar no mundo… e eu digo “põe a atuar”, porque é quase como uma força motriz intrínseca, “intragénese”, está em nós… é o que nos move. Aristóteles falaria da faculdade de movimento da alma… mas lá iremos, ou talvez não.

Passando, então, para o propósito deste texto a ferver-me nas mãos… o valor próprio é algo a que todos temos direito… é uma prerrogativa, está em nós, é nosso… e isto não é Rawls, sou eu que digo. Todos nós temos valências próprias, sonhos nossos, loucuras de sangue a que brincámos na infância… esquecemo-nos disso, porque o mundo, isto que é viver nos cepos secos do mundo, nos obriga a esquecer, numa espécie de soro de amnésia fria, doente, apropriada… viver no mundo é esquecermo-nos de que temos sonhos, de que um dia os tivemos… viver é permitirmos que nos induzam em coma anímico… isto, porque nos disseram que os sonhos são para os ricos, os privilegiados e sabe-se lá mais o quê…

E eu lamento… mas isto remonta aos primórdios (que conhecemos) da Filosofia (grega… porque também há a egípcia e há outras que não conhecemos.. mas os homens ficam sempre pelo que lhes é mais confortável, conveniente, produtivo ou proveitoso… só o termo proveitoso cheira-me a fel, simulação acre, salivada no azedo do que lhes serve).

A filosofia estraga tudo, quando se mete na política, a meu ver… estraga tudo porque escreve o conveniente e o comum… Aristóteles legitimava, por exemplo, a escravatura… e eu ouvi, uma vez, uma professora dizer que não devíamos questionar, atendendo aos recursos da altura… os escravos eram necessários, porque não havia recursos… eu petrifiquei e perguntei para dentro, temendo ser chacinada pela audiência intelectual e anuída: “como sabes os recursos que existiam? Como podes saber isso?”. E eu percebi, entre outras coisas, que a Filosofia académica estaria perto do fim para mim… estaria perto do fim pela mentira condicionada… Como é que eu posso estudar filosofia se já me dizem, à partida, o que saber sobre o filósofo? O que posso dizer, como o posso abordar?… Como posso ser livre a ler um livro, se uma professora já me impôs o que eu deveria retirar dele? E assim é na nossa vida, desde o início… em tudo. Para tudo devemos ir com umas palas… As palas sociais que homens com interesses vis, vãos e v’s de corte da essência – os v’s sempre me parecem cortantes –  designaram, escolheram para mim. Aristóteles – e eu respeito muito Aristóteles; só não o acho bom para a política… quem disse? Eu, outra vez. Ou, se quisermos a Política que nos chegou dele, que deixaram que chegasse –. Porque me arrepia um mundo onde se concebem homens livres, os Senhores – porque autónomos e autossuficientes – e escravos – porque não sabem ser senhores, não são autónomos. E eu pergunto, porquê ou como o Senhor é autónomo? Porque tem escravos. E porquê que os escravos não são autónomos? Porque dependem de um senhor. E por que dependem de um senhor? Porque não lhes foi dada escolha para serem autónomos. E isto parece-me rudimentar e doente… porque é isto que acontece no mundo… uma criança não é autónoma desde logo na primária… ela aprende o que meia dúzia de pessoas achou que era importante ela saber… a partir do 8º ano, as crianças sabem resolver equações e sistemas… no 9º chegam as de 2º grau (olhem só a exigência e a altivez!…), que grande parte delas não vai usar nunca mais. Eu não usei mais. Deus foi generoso comigo. E sim, também acredito em Deus e depois? Não é o Deus das igrejas, nem o dos livros… é o que eu sinto… é o que me faz saber que não sou, que não posso ser uma máquina pronta a digitar e a ser o que me dizem… não posso. Antes a morte (a do corpo, a outra não é possível) a estilhaçar vértebras em alíneas…

E, retomando, é esta impossibilidade (aparente) de escolher, que nos torna, antes de qualquer coisa, escravos de nós próprios. Isto de eu não acreditar em mim, não acreditar que os meus dons, o meu valor próprio, são autossuficientes, que me vai fazer acreditar que eu tenho de me acorrentar a uma secretária das 9h às 18h, a ganhar miseravelmente, agarrada ao pressuposto de um Senhor, que é autónomo, porque eu decidi abdicar de mim para lhe servir.

Voltando a Rawls… quando é que me comunicaram que eu era livre de escolher o que eu queria fazer? Nunca… sempre gostei de literatura e de filosofia; depois ainda me deu para a metafísica… condenei-me, dir-me-iam. Esta é a história do mundo…. O que tu és, o que tu gostas de fazer nunca será suficientemente bom ou sustentável… os teus dons não servem para nada… servem para passares o tempo (o teu único tempo feliz) e, por isso, deves abdicar de ti para ganhares dinheiro e trabalhares para Senhores que perceberam isto, mas não te contaram – porque eles precisam de ti. Quem é o escravo, afinal?

Acontece que, se tu acreditas que não és livre, se tu achas os teus talentos inúteis e insuficientes, se te vendes por 500, 600 euros – há quem chegue aos 1000, 2000  e se considere livre, amarrado a um horário, a uma secretária e a uma história que não é a dele… e eu pergunto, isso é ser livre? –, vais acabar por ser infeliz ao fim do dia… e isso é bom… porque te vais querer compensar… vais querer ir comprar coisas no shopping, ir comer o crepe que viste na newsletter dos sítios in que tens a conhecer na tua cidade – o email que te caiu durante o dia, quando fintaste as horas e quiseste matar um bocadinho do tempo que já está morto, o tempo que tu entregas a Senhores, porque achas que não és capaz de ser livre e depender dos teus próprios talentos e do teu trabalho próprio… Nada mais errado e enfraquecido. Mas, no fim, tudo corre bem… a miséria ganha no final do mês vai ser investida no consumismo que te inventa um trono que não tens, que te dura o tempo da compra… talvez uns dias depois dela… pouco mais.

Esta é a canção do mundo… uma canção de desespero. Porque é fácil controlar, manipular, pessoas infelizes.

E eu gostava que se lembrassem… este é o sistema que remonta a livros muito antigos… Se Aristóteles acha que precisamos de um Estado (acharam que o Estado ia ficar de fora? Isso é que era bom), porque somos um animal político, Locke vem chamar a isso de ficção e dizer que o homem se limita a abdicar da liberdade total – no estado selvagem –, para não viver num mundo onde impera a lei do mais forte… mas eu perguntaria a Locke, daqui, do século XXI… que mundo é este, Locke? Que lei te parece imperar? É porque eu não acredito em mim, que eu aceito perder direitos – impostos – para me garantirem saúde, educação, etc… e não, eu não tenho orientação política… e quero-os longe de mim, aos que exercem política… e, reparem, exercem… porque é algo exercido, “dramaturgitado” e de costelas entorpecidas… ninguém pode ser livre, quando tem um objetivo… e até este meu desejo de ser livre me torna menos livre, porque o quero… acontece que os políticos querem muita coisa, assim como os Senhores, se eles não são todos a mesma coisa e, não sendo eles livres, nunca poderão estar orientados para uma sociedade livre; se eles dependem, eles vão precisar que o chamado cidadão esteja longe de ser livre.

Também a legislação pode para aqui ser chamada… Aristóteles diz que ela é precisa para que os homens não façam o que lhes apetece e ajam sob a alçada do castigo e do medo. E eu pergunto, qual é problema de eu fazer aquilo que me apetece? E por que raio os homens foram pegar no pior da Filosofia para legislar o mundo? (A quem interessa a Filosofia embrutecida que nos ensinam? Eu não acredito que o que se leciona no ensino secundário seja Filosofia). Eu não acredito que as pessoas vão ser mais justas, mais bondosas por serem castigadas… eu não acredito no medo como força edificadora. O medo imobiliza e o que pode haver de melhor numa sociedade de escravos do que homens imobilizados?

E, para terminar… eu não acredito que as crianças queiram ser médicas, muito menos “marketers”… eu acredito que elas têm sonhos… que a sociedade mata, porque tem de matar… a sociedade – como a conhecemos – não pode conviver com indivíduos livres… é por isso que ela, os mecanismos dela – Política, Media e Religião – condenam tudo o que pode fugir ao instituído.

Desde que faço o que eu gosto, estou muito menos suscetível às pressões e ao medo de não conseguir; menos permeável ao modelo instituído, à educação, quer de casa, quer das escolas…  e a ignorância não é crime, mas as pessoas são vítimas de crime social (uma espécie de analfabetismo social; este senhor fala sobre isto); são vítimas de uma sociedade que dissemina ignorância.

E, agora sim… antes de me ir embora, deixo-vos parte de um post pessoal sobre uma ditadura “inaparecida” (um dia canso-me de pôr aspas no que eu escrevo…), a Comunicação Social, escola onde me formei:

Lembrem-se que o telejornal é fruto da decisão dos homens como nós. Aquilo não é o mundo… é o mundo que aqueles homens e aquelas mulheres, que decidem, consideraram que nós precisávamos de saber. Por último, lembrem-se que o alinhamento é feito de acordo com os picos emocionais que vos agarram, de modo a manter audiência, que garante maiores receitas publicitárias. Se o mundo é o que “eles querem”, porque estão na televisão, eu prescindo dela e das pseudo-notícias que fazem querer parecer que o mundo é o Trump, os incêndios e as pessoas que morrem pelo caminho das saídas em reportagem. As ditaduras não acabaram; moveram-se para a sombra de homens e mulheres que se dizem livres, cujos salários dependem das receitas que os seus alinhamentos e escolhas editoriais produzem. As ditaturas continuam e da pior forma possível… Elas são mentais, escondidas e comandadas por pessoas como nós cujo trabalho, acreditam, é justificado, nobre e com danos colateralmente necessários. “Mãe eu nunca vou ser jornalista”. Frase mais sábia de sempre, dita ainda no meu primeiro semestre. Lição para toda a vida.

E eu estou sempre a dizer que vou embora… mas agora vou… sem antes dizer: um dia, quando as crianças quiserem ser todas bailarinas (escritoras, atrizes, pintoras, escultoras), no mundo não vão sobrar mais escravos, nem senhores… elas serão livres e o Mundo vai mostrar a este que há uma força autossuficiente – é a força do Amor, do cósmico, do único que existe, da verdade que há em nós, que não nos deixa vergar… é uma coluna que se ganha, quando se percebe que o nos anima por dentro é muito maior do que as mentiras em cláusulas, do que os Tribunais, os Jornais e os ministros da farsa. Um dia, a humanidade será restituída à verdade… e a verdade é tão simples como sermos quem nós somos… se o mundo aplaude? Não, claro que não… mas quem precisa de aplausos, quando lhe há um circo por dentro?

Com amor,

Márcia Augusto e #ElasdoAvesso todas.

 

 


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