Ser livre é deixar morrer

Quando me perguntam por que mudei, eu não sei do que falam… sei que Sou eu… e que há um eu mais límpido… mais pronto, como uma bailarina que se levanta, se ergue, se estica, se descobre numa caixa de música… Há um Som novo de mim. 

Eu sou uma caixa que se abriu… se me amo mais assim? Pergunto como me pude amar antes… que tipo de relação tivera eu comigo, antes de tudo… não sei. Sei que, agora, amo tudo o que eu faço… olho e parecem-me filhos… os filhos devem ser assim… olhados com contemplação, com respeito por quem são, sem questionamento… um filho nunca pode ser mais perfeito do que já é… assim é o que eu faço agora… é um respeito absurdo pelo que eu faço… um respeito, uma admiração que não conhecia… sem vozes, sem traqueias arranhadas, sem olhos de sangue…

Há qualquer coisa que Sou eu… que é bonita, que sempre quis vir para fora… se me importou ou me importa o que pensam? Às vezes, mas sei a verdade… sei o caminho… este que eu trilho… é um caminho que manda em mim, mas que me caminha ao lado… igual a mim… um caminho que é meu, que se desenrola debaixo dos meus pés, asas agora, sem nunca me largar as mãos… é um caminho mestre… um caminho que me mostra quem eu vim para ser… é um caminho de Amor, de absoluto respeito por Quem me levanta as vértebras…

Se endoideci? Talvez… mas sou mais feliz assim… ou descobri que sou feliz… e isso deve ser a Verdade. Deixei joelhos quebrados e ensanguentados no tempo, a mentira do tempo que nos aprisiona que não nos deixa ser quem somos…

Se me amo assim? Pergunto como poderia não me amar… que desrespeito seria esse por mim, esse de não me amar, esse de não me querer bem, esse de desconfiar de quem eu sou, de quem eu ouço, de Quem escreve? Pergunto e acho absurdo perguntar quem eu Sou. É demasiado evidente, bonito, aclarado, livre e leve como eu Sou.

Sou corpo sem matéria, que parece o que eu Sou para que me vejam… sou partículas e partículas de células de amor, regeneradas a cada perdão, a cada aceitação nova de quem sou. Como posso desconfiar de mim?

Amo o que o tempo fez de mim… fiz as pazes com ele. O peito acalma-se e a calma não é de cá… dizem que é o despertar… quando isso há, não precisamos de nomes… basta-nos sentir a magia misteriosa, antes proibida, ilegítima, infundada, de cada manhã. Se sou livre? Acho que sim… pelo menos, já sei que só posso ser prisioneira de mim mesma e que há uma Voz que sabe… que me (re)educa. De todos o caminho é retorno. Parménides dixit e eu acho que sim.

É certo que há muito por fazer, mas dizem os antigos – eu, às vezes, acredito neles – que o que importa é começar… Começar o Amor, a liberdade de ser quem somos… Se vai ser difícil? Se vai!… mas no fim, é como nos filmes… é impossível não acabar bem.

Se sou bola de sabão? Sou frágil como elas… sempre pronta a desfazer-me… a ir para a boca de uma criança que me sopra, que me põe de novo a subir para o céu, enquanto maravilho os olhos da rua…

Se sou livre? Acho que sim…

agora permito-me partir, quebrar, estou disposta a desfazer-me…

Sei que sou matéria iludida de corpo, sempre pronta a renovar-se… sei que eu nunca acabo… que não posso acabar. Posso provar algodão doce ou fel… mas não deixo de ser eu… e isso é uma grande liberdade. A liberdade de morrer… se me perguntassem o “que é ser livre”?… É ser livre para morrer, para deixar morrer o que eu não sou… confiante de que a Terra me renasce e o Céu todo.

Se me perguntassem o que é ser livre… eu responderia que é não ter medo da morte, é não ter medo de deixar de ver as ilusões do mundo… é estar disposta a desistir dele… do que me contaram que eu devo ser para estar nele (o mundo). No fundo, e na melhor das hipóteses, acho-o uma profunda ilusão confortável a que nos votamos.. o que temos de ser, o que temos de teatralizar hoje? Hoje não teatralizo nada… o mundo vai embora e eu fico. Fico com a Verdade.

#ElasDoAvesso


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Por fim, a Bethânia diz isto muito melhor do que eu 🙂

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Love, Márcia

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