Delito emocional. O Amor e um Berlinde.

Gostava que soubesses que é duro… que eu nunca quis isto para nós… acabo sempre por vir aqui acertar contas com o mundo… dóis-me como bolas de berlinde  a respirar… as bolas com que ainda somos capazes de brincar, mas não servem mais ao propósito… todos nós somos capazes ainda de jogar ao berlinde, isso entretém-nos, mas já não nos serve de nada. E tu dóis-me como uma bola de berlinde… nunca lhes dei muita atenção, mas quando elas apareciam, eu estava disposta a focar, a prender os meus olhos nelas… saber-lhes o dentro, as cores e as formas todas… batia com elas no chão, sem querer…

fazia-as rodar ao sabor das descidas e das curvas da ilha… resgatava-as sempre ou talvez não… algumas perdia, desistia delas… iam para debaixo de coisas que eram difíceis de levantar… impossíveis às vezes, como os tanques em pedra de lavar a roupa… também muita coisa ficou por lavar entre nós… tu, este sofá… e tudo o que ficou por contar nele… tenho saudades tuas… do que idealizo, talvez… a mente sempre idealiza, quando está longe… é fácil sermos românticos, quando não vemos a brutalidade do betão em que nos tornámos… brutismo?

Ouço? Eu ouço muita coisa… raramente percebo exatamente o que fazer… quase sempre ignoro… é fácil amar-te de longe… e isso é o pior, não saber amar-te nas eiras do fim, da terra toda na boca, dos dedos todos que te amam… ainda te amam. Até do teu cieiro tenho saudades… na última vez que te vi, estavas com os lábios marcados a castanho… âmbar, talvez… estavam magoados… sei que choraste e lhes encontraste os dentes… amo-te com facas nos dentes… dorida na imobilidade… sabes que ainda te amo?

Porventura, sabes que te amei exatamente como tu és, vulnerável, fraco e tudo aquilo que eu nunca quis num homem?! Alguém que se abandona a si mesmo… e até isso eu te perdoava, porque te amo… mesmo não conseguindo ser feliz com isso… amar e ser feliz com outra pessoa são coisas bem diferentes que os mortais como nós, nesta condição emprestada, confundem… eu já fui muito feliz ao lado de pessoas que não amei… contigo… contigo é tudo desmesuradamente diferente… desmesuradamente doloroso e consciente… amo-te, mas não te quero.

A propósito disso, hoje escrevi um texto – duro, como tu gostas de os apelidar –. Sei que te amo, não há ponta de tesão aqui… estou tratada, vacinada contra os delírios de uma vagina… amo-te assim… fraco, abandonado, sem forças… é assim que eu te amo… mas não te quero… porque eu não posso ser feliz com alguém que me lembra que falhámos, com alguém que me lembra do quão dispostos estamos a abdicar de nós por causa dos outros… talvez porque essa seja a minha grande dor… o que eu tenho a saber… que me abandono, quando amo … e tu vens mostrar-me isso mesmo… esse espelho de raiva no fim… olha o fantoche de afetos que tu és, em que tu te tornas, quando amas; porque te transferes para os outros? Sou como uma casa vazia, com pressa de ser mobilada… tenho a voz a ecoar o medo do silêncio que fica, agora, agora que foste embora… pudesse eu fazer de ti diferente… mas não posso… voltar seria chacinar-me, vaticinar a minha própria tortura e o nosso fim.

Sinto vazios cortantes agora que foste… é a primeira vez que estamos um dia inteiro sem falar (ok, ainda não fizeram 24 horas no tempo dos humanos) e tudo parece demasiado vaporoso, pesado, violado, cortado… não sei… até a tua voz de desenho animado me faz falta… e a tua música… aquela que cantaste para mim… penso em ouvi-la, mas falta-me a coragem para me magoar… tento resgatá-la e passo os olhos pela Carta de Dor de Uma Menina de 14 anos… lembro-me que foste o homem com quem eu curei isto tudo… o homem que foi capaz de ler aquilo e amar-me numa dignidade que o perdão inventou… o vibrar do telemóvel ainda me lembra de ti… é tudo demasiado evidente ainda… e o teu perfume está em todo o lado… e o teu nome está num chafariz, as tuas mãos estão numa escada rolante e os teus olhos estão numa loja de roupa… acho que nunca soubeste o quanto eu te amava… tranquilo, nunca ninguém sabe… deixo os afetos para o papel… e nós também nos esquecemos deles, dos afetos… tornamo-nos estranhos de nós mesmos… às vezes, estávamos tão magoados, que tínhamos vergonha de olharmos nos olhos um do outro… falava contigo a encarar o porta-luvas… a beber a tua expressão inventada… acho que nunca soubeste que (ou como) te amo… mas nunca ninguém sabe… isso é um infinito meu, de acesso vedado… nunca ninguém entra em mim de facto… porque, quando entra, ou roça a porta, magoa-me… fecha-me janelas, poda-me as árvores e corta-me as flores… foi sempre assim, quando entraram… contigo, não foi diferente…

Tive de te tirar, antes que me cortasses a floresta individual que demorei – como demorei – 10 anos a erigir… sem ninguém saber, fui jardineira das estrelas… perdoei o que os humanos acham que não tem perdão e segui… não podia, nunca pude, deixar que destruísses isso… há um universo particular que é meu, só meu… de cancelas invisíveis para que não percebas por onde entrar…mas fuçaste, farejaste… arranhaste a terra por baixo e entraste… o meu jardim ficou de bancos para o ar. Outra vez. Quis sentar-me e não tinha lugar… outra vez fiquei sem lugar para mim… cedi tudo… cedi-te os olhos, as mãos e o ar… e não posso… amo-te… longe, no infinito de nós, onde não há corpos… mas aqui, aqui não. Aqui não soubemos fazer isso… talvez um dia, outra hora, outro milénio… sabemos lá? Mas hoje, hoje não.

Até sempre, meu amor. Que saibas que me custas a cada hora da ausência de tudo… custas horrores aqui… porque, não parece, nunca parece… mas eu amei-te de uma forma inconsequente… não sei amar de outra forma… não sei olhar a resultados… não sei a olhar a cuidados… sou irresponsável nisso… e por isso me dóis… cedo o meu lugar… estou pronta a desfazer-me, a desistir de mim, a ficar sem ar… e é isso que as pessoas não sabem… que, por baixo deste fato de heroína, há uma mulher pronta a desistir dela própria, das armaduras todas e das histórias que se contou… disposta a desistir de crenças, de pactos de sangue… por amor, eu desisto de tudo… até de mim própria, como desisti… e isso não pode ser amor. Até sempre!

P.s. (dias depois… o tempo dá-nos sempre outra perspetiva das coisas… normalmente, mais bonita): Sei que purgo a minha dor… que a vivo honestamente… de coração aberto… pronta para o que vier. Sei que sou franca comigo e com o ar… aceito os meus vazios. Sei que aceito. Mais um bocadinho. Sei que sou verdadeira, honesta comigo… e isso leva-me a apaixonar-me por mim de novo… o enamorar-me de mim de novo é a melhor fase da minha vida.. uma fase que se repete… sou uma sortuda nisso. Obrigada. A tudo. A ti, que foste o homem com quem descobri o amor. Obrigada à vida que sempre me traz surpresas, quando eu menos espero. Sei que sou Verdade. Não há maior amor, nem coragem maior do que isso. Sei que sou leve como uma pena, quando Sou. E sou tão bonita. Oh… obrigada Deus, por me teres feito tão bela, tão capaz de ser feliz e de soltar… que me deste a capacidade de ser como uma flor… pronta a desfazer-se, sem perder a beleza… uma flor murcha com honra… e renasce. Assim sou na vida. Obrigada. <3

 


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Márcia Augusto, escritora, autora e terapeuta

 

E é deste amor que “a gente precisa”. Um amor maior que nós, aparentementemente porque é “de dentro para fora”. E a Terra só dá a semente que já tem. Sejam amor. É impossível falhar na receita, quero dizer, no resultado.

 

 

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