Schubert e uma papoila no ombro

Schubert diz-nos sempre que o melhor vem depois. Schubert surpreende-nos o sangue… mantém-nos expectantes em relação à vida, pela vida também… e eu resolvo as minhas delusões com a Clássica e uma papoila nos ombros, o meu papel e a minha perna cruzada no metro… a certeza aparente de que os poetas são invencíveis (é isso que pareço às pessoas no metro).

Um sorriso deserta-me agora… de tudo o que é inútil… é isso que a Clássica traz. E a vitória também… a força invencível do nada que a Clássica é. A mulher do lado tenta ler-me, arranja os sacos, estica-se, esperneia, empoleira-se e o pescoço fala comigo… mas nada. Isso de nos quererem ler e não poderem dá-nos um certo poder, é o que nos isola do mundo… isso e o rio… e os pescoços que se viram, que lutam em paz por vê-lo… lutam pela melhor janela, o melhor espaço… é assim que se atravessa o Douro no Porto de manhã, a lutar por ele.

Schubert e uma caneta curam-me sempre o coração. O peito cresce, respira mais alto… com passarinhos dentro. Schubert é o meu poeta em notas, a minha clave em estância. Amar Schubert lembra-me que amo a vida, que é seguro amar a vida. Amo o J., amo o que a vida me dá e, aparentemente, me tira, ou me dá como se fosse diferente… porque tudo é novo e o medo está nos olhos, nos ouvidos e na rouquidão da voz…

(…)

O caderno, a cruz das minhas pernas e Schubert vencem-me sempre a tristeza. Posso pousar-me no sorriso da Verdade. Porque eu também mereço o contentamento de ainda me faltar dizer e preferir olhar. Também mereço não esgotar o amor de criar no papel…reservá-lo para os meus olhos e os meus os pés na terra… e as caras, e a surpresa dos olhos no metro.

Márcia Augusto

(hoje sou eu, sei que sou).

 


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