O amor não é bicondicional

Este é um excerto que acabo de escrever para a obra “Ensaio Sobre A Má Educação”. A parte integral do que foi até agora partilhado pode ser lida aqui, bem como no separador “Ensaios e Livros“, onde vou passar a disponibilizar mais livros que até agora não havia revelado.

Falando agora sobre o Amor, o amor dos humanos não é o amor do Amor, a ideia primordial do que é o Amor, enquanto força criadora. Podemos fazer equivaler Amor à Mente, mas, quando falamos de Amor entre duas pessoas, falamos da Mente a ser partilhada de um modo mais efetivo, quer dizer, a sentirmos que está algo transcendente, algo extrassensorial e extracompreensão a ser partilhado. Bom, mas não é isto que acontece entre os seres humanos… porque este Amor, esta Mente, é incondicional… é impossível de ser condicionado, permeável a condições. O amor entre os humanos é um conjunto de cláusulas acordadas, é aquilo a que em Lógica chamaríamos de Bicondicionalização Material, que é uma condicionalidade que ocorre de forma bivalente e interdependente, quer dizer, “eu amo B sse B for como eu quero, que eu designei como bom.” B, por consequência de espelho e educação, também vive, ama, bicondicionalizado; então, “B ama A sse A é como B quer, designou como bom, benevolente, suficiente, digno de amor”. (Y= Ax; Y é aquilo que é Amor, que A designou como predicado x para ser amor, para ser composto, para fazer parte da sua conceção de Amor. Então, acontece, dá-se Y, ou ∃y: Y(x) existe pelo menos um Y, tal que x é verdadeiro, ou seja, o predicado que eu preciso que exista para fazer de Y verdadeiro. De uma maneira mais direta à situação do Amor, o amor existe bicondicionalizado, interdependente e, por isso, condenado ao falhanço, pois que A ama B ⇔ Bx – quer dizer, A amará B se e somente se – sse – B tiver determinado predicado que é X, (que A determinou como bom).

 

#ElasDoAvesso #EmpoweringPhilosophies (por Márcia Aires Augusto)

Ora, parece-me óbvio que este é um amor muito pobre e, ainda por cima, frágil, dependente, pronto a falir… pois que é condicionado por algo externo, uma variável externa, uma condicionante, algo que me agrada ou não agrada, algo de que eu dependo para amar, o meu amor depende de algo que uma pessoa tem. Não nos parece louco e inevitavelmente condenado? É o amor do ego, é o que nos diz: procura e não encontres, porque eu nunca vou encontrar algo que não exista já dentro de mim e se isso existe dentro de mim eu não vou cobrar, eu não vou exigir que isso esteja fora de mim, eu não preciso, eu não me vou preocupar com isso. É a mesma história de comprarmos um carro para nos sentirmos mais poderosos ou ricos… eu acho que é óbvio, toda a gente já sentiu – mesmo que com outro objeto, umas calças, um anel, uns óculos de sol, o que quiserem -, em algum momento, algum tipo de superego, super-sensação de ser mais do que o que acha que é devido a um objeto novo que lhe apraz, mas que, depois de muito usado, ou mesmo sem ser muito usado, nos damos conta de que esse poder que a mente deu aos óculos, ao carro, às calças novas, desapareceu… porque foi uma ficção da mente achar que podia criar estados permanentes e verdadeiros com algo externo… É isso que fazemos com as pessoas; de uma outra maneira, amamos pessoas como amamos carros ou óculos de sol, é isto que a mente faz. Eu agora quero que tu me ames, que tu me cuides, que tu me dês atenção, que tu sejas bonito, magro, feio, para que eu me sinta mais poderoso, mais amado, mais cuidado… todos já sentimos este fulgor num primeiro ou nos primeiros encontros ou, na melhor das hipóteses, nos primeiros tempos de uma relação, mas essa sensação vai decaindo, ficando cada vez mais débil, sendo devolvida ao lugar de onde veio, a ilusão, o ego, a mente física… é essa mente que não pode criar. Ela serve para estarmos aqui, para nos vermos, para planearmos uma agenda, eventualmente o jantar, o almoço… mas ela não serve para amar, muito menos para nos realizar, se é que Amar e Realizar (no sentido de Criar) não são a mesma coisa. O Amor não é uma qualidade que nós adquirimos noutra pessoa… esse “amor” falha, porque é ficcionado, novelado, inventado para socorrer as aflições de uma mente que não se conhece.

É por isso que grande parte das pessoas precisa de ter um filho para experimentar amor e, mesmo aí, na grande maioria das vezes, experimentará dobrar, influenciar, desenhar o filho à imagem do que acha que é bom… e o que achamos que é bom é o que precisamos – ou achamos que precisamos – para nós. Eu acho que seria bom que o meu filho tivesse um bom emprego e ganhasse muito dinheiro, porque isso me faria sentir grato, tranquilo, sem preocupações e descansado em relação a ele, pois saberia que ele estaria bem sem eu ter de me preocupar. Quem precisa de ter a a vida tranquila? É o nosso filho ou somos nós a transferir para ele a responsabilidade por um estado que ainda não conseguimos atingir? Isso é amor? Isso é um grande egoísmo amedrontado de que as coisas não corram bem e, por isso, “filho, arranja um emprego bom para eu estar descansado”. Outra vez, eu estou tranquila enquanto mãe(A), se e só se (⇔) o meu filho (B) tiver um bom emprego (x) – (Tranquilidade que é Y) = Ay ⇔ Bx.

Parece-me também que a tranquilidade desta mãe vai falhar muitas vezes, talvez todas. A questão aqui é que a mãe dificilmente deixa de amar o filho, mesmo que ele não a deixe tranquila (e isto falo sem conhecimento empírico, pois não sou mãe, não sei se é possível deixar de amar um filho; talvez mais tarde, possa rever esta parte).

(…)

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